Caio Prado Historia Economica do Brasil
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Caio Prado Historia Economica do Brasil

Disciplina:Formação Econômica do Brasil558 materiais7.628 seguidores
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seus ex-

cessos os grandes domínios. Parte pequena, freqüentemente nula. O

açúcar se encontra numa fase de prosperidade ascendente; os preços

são vantajosos", e os esforços se canalizam no máximo para sua

produção. Não sobra assim grande margem para atender às necessida-

des alimentares dos centros urbanos. Por este motivo constituem-se

lavouras especializadas, isto é, dedicadas unicamente à produção

de gêneros de manutenção. Forma-se assim um tipo de exploração ru-

ral diferente, separado da grande lavoura, e cujo sistema de orga-

nização é muito diverso. Trata-se de pequenas unidades que se a-

proximam do tipo camponês europeu em que é o proprietário que tra-

balha ele próprio, ajudado quando muito por pequeno número de au-

xiliares, sua própria família em regra, e mais raramente algum es-

cravo. A população indígena contribuiu em grande parte para esta

classe de pequenos produtores autônomos. Os primeiros colonos che-

gados tiveram naturalmente que apelar, de início, para os índios a

fim de satisfazerem suas necessidades alimentares; ocupados em or-

ganizarem suas empresas, não lhes sobrava tempo para se dedicarem

a outras atividades. Os índios, que no seu estado nativo já prati-

cavam alguma agricultura, embora muito rudimentar e seminômade,

encontraram neste abastecimento dos colonos brancos um meio de ob-

ter os objetos e mercadorias que tanto prezavam. Muitos deles fo-

ram-se por isso fixando em torno dos núcleos coloniais e adotando

uma vida sedentária. Mestiçando-se depois aos poucos, e adotando

os hábitos e costumes europeus, embora de mistura com suas tradi-

ções próprias, constituirão o que mais tarde se chamou de "cabo-

clos", e formarão o embrião de uma classe média entre os grandes

proprietários e os escravos.

Quanto aos produtos desta pequena agricultura de subsistência,

eles foram em grande parte procurados na cultura indígena. Assim,

diferentes espécies de tubérculos, em particular a mandioca (mani-

hot utilissima, Pohl). Este gênero será a base da alimentação ve-

getal da colônia, e cultivar-se-á em toda parte. Depois da mandio-

ca vem o milho, cujo valor é acrescido pelo fato de tratar-se de

excelente forragem animal. O arroz e o feijão seguem nesta lista.

As verduras, pelo contrário, sempre foram pouco consumidas na co-

lônia. A abundância de frutas substituiu suas qualidades nutriti-

vas; não somente a flora nativa do Brasil conta com grande número

de frutas comestíveis e saborosas, como algumas espécies exóticas

(a banana e a laranja, sobretudo), introduzidas desde o início da

colonização, foram largamente disseminadas.

O papel secundário a que o sistema econômico do país, absor-

vido pela grande lavoura, vota à agricultura de subsistência, de-

terminou um problema dos mais sérios que a população colonial teve

de enfrentar. Refiro-me ao abastecimento dos núcleos de povoamento

mais denso, onde a insuficiência alimentar se tornou quase sempre

a regra. Naturalmente a questão aparece mais seriamente no séc.

XVIII, quando os centros urbanos adquirem relativa importância;

mas o problema já existe desde o princípio da colonização, e a le-

gislação preocupa-se muito com ele. Estabelecem-se medidas obri-

gando os proprietários a plantarem mandioca e outros alimentos;

gravam-se as doações de terras com a obrigação de se cultivarem

gêneros alimentares desde o primeiro ano da concessão. E assim ou-

tras. Todas estas medidas eram mais ou menos frustradas na práti-

ca. As atenções estavam fixas no açúcar, cuja exportação deixava

grande margem de lucros, e ninguém dará importância aos gêneros

alimentares. Um grande senhor de engenho chegará a lançar seu for-

mal desafio às leis que o compeliam ao plantio da mandioca; "Não

planto um só pé de mandioca, escreverá ele dirigindo-se. às auto-

ridades, para não cair no absurdo de renunciar à melhor cultura do

país pela pior que nele há..." Compreende-se aliás esta atitude

dos grandes proprietários e senhores de engenho. O problema da ca-

restia e da falta de alimentos não existia para eles, e convinha-

lhes muito mais plantar a cana, embora pagassem preços mais eleva-

dos pelos gêneros que consumiam. E como eram eles que detinham a

maior e melhor parte das terras aproveitáveis, o problema da ali-

mentação nunca se resolverá convenientemente. A população coloni-

al, com exceção apenas das suas classes mais abastadas, viverá

sempre num crônico estado de subnutrição. A urbana naturalmente

sofrerá mais; mas a rural também não deixará de sentir os efeitos

da ação absorvente e monopolizadora da cana-de-açúcar que reserva-

ra para si as melhores terras disponíveis.

As importantes conseqüências deste fato, que podem ser ava-

liadas sem necessidade de maior insistência na matéria, justifica

suficientemente só por si a necessidade de distinguir na economia

brasileira aqueles dois setores em que se dividem suas atividades

produtivas: o da grande lavoura e o da subsistência. Se não, não

se explicaria este quadro característico da vida colonial: de um

lado abastança, prosperidade e grande atividade econômica; doutro,

a falta de satisfação da mais elementar necessidade da grande mas-

sa da população: a fome.

Neste setor da subsistência também entra a pecuária. Ela tam-

bém se destina a satisfazer as necessidades alimentares da po-

pulação. A carne de vaca será um dos gêneros fundamentais do con-

sumo colonial. Mas a pecuária, apesar da importância relativa que

atinge, e do grande papel que representa na colonização e ocupação

de novos territórios, é assim mesmo uma atividade nitidamente se-

cundária e acessória. Havemos de observá-lo em todos os caracteres

que a acompanham: o seu lugar será sempre de segundo plano, subor-

dinando-se às atividades principais da grande lavoura, e sofrendo-

lhe de perto todas as contingências.

A começar pela sua localização. A cultura da cana não permitiu

que se desenvolvesse nos férteis terrenos da beira-mar. Relegou-a

para o interior mesmo quando este apresentava os maiores inconve-

nientes à vida humana e suas atividades, como se dá em particular

no sertão do Nordeste. Alia-se aí uma baixa pluviosidade à grande

irregularidade das precipitações. Estas se concentram em dois ou

três meses do ano; e isto nos casos mais felizes, porque são fre-

qüentes as secas prolongadas, de anos seguidos de falta completa

de chuvas. Um tal regime determinou condições fisiográficas parti-

culares e muito desfavoráveis. Com a exceção de uns raríssimos ri-

os, todos os cursos d'água desta vasta região que abrange mais

1.000.000 km2, são intermitentes, e neles se alterna a ausência

prolongada e total de água, com cursos torrenciais, de pequena du-

ração, mas arrasadores na sua violência momentânea. A vegetação

compõe-se de uma pobre cobertura de plantas hidrófilas em que pre-

dominam as cactácias. Unicamente nos raros períodos de chuvas ne-

las se desenvolve uma vegetação mais aproveitável que logo depois

das precipitações é crestada pela ardência do sol.

Ê nesta região ingrata que se desenvolve a pecuária que abas-

tecerá os núcleos povoados do litoral norte, do Maranhão até a Ba-

hia Pode-se avaliar como seria baixo seu nível econômico e índice

de produtividade. Basta dizer que neste milhão de quilômetros qua-

drados, praticamente todo ocupado, o número de cabeças de gado não

alcançará talvez nunca 2 milhões, umas duas cabeças em média por

quilômetro. Quanto à qualidade, ela também é ínfima: as reses, em

média, não fornecerão mais de 120 kg de carne por animal; e carne

de pouco valor.

Apesar das condições desvantajosas — em parte graças a elas

porque forçaram uma grande dispersão —, as fazendas de gado se

multiplicaram