Caio Prado Historia Economica do Brasil
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Caio Prado Historia Economica do Brasil

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rapidamente, estendendo-se, embora numa ocupação

muito rala e cheia de vácuos, por grandes áreas. Seu centros de

irradiação são a Bahia e Pernambuco. A partir do primeiro, elas se

espalham sobretudo para norte e noroeste em direção do rio São

Francisco, que já é alcançado em seu curso médio no correr do séc.

XVII. De Pernambuco, o movimento também segue uma direção norte e

noroeste, indo ocupar o interior dos atuais Estados da Paraíba e

do Rio Grande do Norte. Um núcleo secundário que também deu origem

a um certo movimento expansionista de fazendas de gado é o Mara-

nhão: elas se localizam aí ao longo do rio Itapicuru.

A rapidez com que se alastraram as fazendas no sertão nor-

destino se explica, de uma parte, pelo consumo crescente do lito-

ral onde se desenvolvia ativamente a produção açucareira e o povo-

amento; doutra, pela pequena densidade econômica e baixa pro-

dutividade da indústria. Mas também pela facilidade com que se es-

tabeleciam as fazendas: levantada uma casa, coberta em geral de

palha — são as folhas de uma espécie de palmeira, a carnaubeira,

muito abundante, que se empregam —, feitos uns toscos currais e

introduzido o gado (algumas centenas de cabeças), estão ocupadas

três léguas (área média das fazendas) e formado um esta-

belecimento. Dez ou doze homens constituem o pessoal necessário:

recrutam-se entre índios e mestiços, bem como entre foragidos dos

centros policiados do litoral: criminosos escapos da justiça, es-

cravos em ruga, aventureiros de toda ordem que logo abundam numa

região onde o deserto lhes dá liberdade e desafogo.

Uma fazenda se constitui em regra com três léguas dispostas ao

longo de um curso d'água, por uma de largura, sendo meia para cada

margem. Daí aliás o nome genérico de "ribeira" que se dá às várias

regiões do interior nordestino: a designação vem da estrutura do

povoamento que se origina nas fazendas que margeiam os rios. Entre

cada fazenda medeava uma légua de terras que se conservam devolu-

tas; nesta légua nenhum dos confinantes pode levantar construções

ou realizar quaisquer obras. Ela serve apenas de divisa, providên-

cia necessária onde, por falta de materiais apropriados, não se

usam cercas ou quaisquer outras tapagens. Evitam-se assim as in-

cursões do gado em fazendas vizinhas e confusão dos rebanhos.

O trabalho é em regra livre. Nestes territórios imensos, pouco

povoados e sem autoridades, é difícil manter a necessária vigi-

lância sobre trabalhadores escravos. A fazenda é dirigida por um

administrador, o vaqueiro; o proprietário, em regra senhor de mui-

tas fazendas, é um absentista que reside ordinariamente nos gran-

des centros do litoral.

Para o abastecimento dos núcleos coloniais do Sul (Rio de Ja-

neiro, São Vicente), formam-se outras regiões criatórias. O Rio de

Janeiro se abastece, sobretudo nesta primeira fase da colonização,

nos chamados Campos dos Goitacases, que ficam a leste do atual Es-

tado da Guanabara, margeando o baixo curso do rio Paraíba. São Vi-

cente — e subsidiariamente também o Rio de Janeiro — recebem seu

gado dos Campos Gerais estendidos para o sul dos atuais Estados de

São Paulo e Paraná. Nestas regiões as condições naturais são muito

superiores às do Nordeste. A qualidade do gado é por isso melhor,

sua densidade mais elevada. E em conseqüência as fazendas não se

dispersaram tanto como no Nordeste. Em parte também porque o Rio

de Janeiro e São Vicente constituem, nos dois primeiros séculos,

núcleos secundários e muito menos povoados que os do Norte; as su-

as necessidades de carne são por isso menores.

EXPANSÃO DA COLONIZAÇÃO

1640-1770

6

Novo Sistema Político e

Administrativo na Colônia

DE 1580 A 1640 a coroa portuguesa esteve reunida à da Espanha.

O reino de Portugal não foi englobado na monarquia espanhola; em-

bora sob a dominação do mesmo monarca, conservou sua autonomia,

sendo governado por um Vice-Rei em nome do soberano espanhol. Foi

um período sombrio da história portuguesa. Descuraram-se por com-

pleto seus interesses; e o reino teve de participar da desastrosa

política guerreira dos Habsburgos na Europa, contribuindo para ela

com gente e avultados recursos. Portugal sairia arruinado da domi-

nação espanhola, a sua marinha destruída, o seu império colonial

esfacelado. Os Países-Baixos e a Inglaterra, com que a Espanha es-

tivera em luta quase permanente, ocuparão, para não mais a devol-

ver, boa parte das possessões portuguesas. Estava definitivamente

perdido para Portugal o comércio asiático; as pequenas colônias

que ainda conservará no Oriente não têm expressão apreciável. Efe-

tivamente só lhe sobrariam do antigo império ultramarino o Brasil

e algumas posses na África. Estas aliás só valerão como fornecedo-

res de escravos para o Brasil. Na própria colônia americana a so-

berania portuguesa correrá grande risco. Além de incursões esporá-

dicas de ingleses e holandeses, estes últimos ocuparão efetivamen-

te durante longos anos boa parte da colônia. Em 1630 instalam-se

em Pernambuco, e daí estendem suas conquistas para o sul até Ala-

goas, e para o norte até o Maranhão. É somente depois de restaura-

da a independência portuguesa que os holandeses serão definitiva-

mente expulsos do Brasil (1654).

Todas estas circunstâncias determinarão profunda modificação

da política de Portugal com relação à colônia. A prosperidade, a

própria existência do Reino europeu passavam a depender exclu-

sivamente dela. Tratava-se pois de tirar-lhe o maior proveito e

partido possíveis. Doutro lado, o empobrecimento de Portugal, pri-

vado do comércio asiático que durante mais de um século lhe forne-

cera o melhor de seus recursos, força o êxodo em larga escala de

sua população que procurará na colônia americana os meios de sub-

sistência que já não encontrava na mãe pátria. A emigração para o

Brasil será, a partir de meados do séc. XVII, considerável. Amea-

çou por vezes despovoar regiões importantes de Portugal, como o

Minho; e tomaram-se em conseqüência enérgicas medidas repressoras.

As leis que coíbem a emigração se sucedem sem interrupção por um

século; e a sua própria freqüência nos mostra que eram ineficazes.

Para o Brasil, naturalmente, este fato terá largas conseqüên-

cias. Determinará um rápido crescimento da população e extensão da

colonização. Até a primeira metade do séc. XVII esta se limitara a

uma estreita faixa ao longo do litoral, ou antes, pequenos núcleos

esparsos por ele; e um início de rala ocupação do interior nordes-

tino. Depois daquela data, não somente se avolumará rapidamente

nos setores já ocupados, mas estender-se-á largamente pelo terri-

tório, invadindo importantes áreas que pertenciam legitimamente à

Espanha. Em um século a contar de 1650, os portugueses terão ocu-

pado efetivamente, embora de forma dispersa, todo o território que

ainda hoje constitui o Brasil. Quando em 1750 e posteriormente se

redigem os grandes tratados que limitariam definitivamente as pos-

sessões portuguesas e espanholas neste continente, a Espanha será

obrigada a reconhecer a soberania de Portugal sobre toda esta me-

tade da América do Sul que forma o Brasil e que de direito lhe ca-

bia na maior parte. E isto graças apenas à ocupação efetiva que,

antes dos espanhóis, realizara o colono e povoador português. A

ruína de Portugal significara o desenvolvimento desmesurado do

nosso país.

Mas a afluência ininterrupta de grandes levas de colonos não

terá no Brasil apenas este efeito. Provocará um grande distúrbio

do equilíbrio econômico e social da colônia. A concorrência dos

recém-vindos que procuram naturalmente desalojar os já estabele-

cidos