Caio Prado Historia Economica do Brasil
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Caio Prado Historia Economica do Brasil

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de suas posições, dará origem a um conflito permanente que

não raro degenerou em luta armada. Os últimos anos do séc. XVII e

primeira metade do seguinte caracterizam-se por uma sucessão de

atritos mais ou menos graves entre os naturais da colônia è os ad-

ventícios. O reforçamento da administração pública e da coação me-

tropolitana conseguirão superar a situação em meados do séc. XVIII,

impedindo-a de degenerar em violências. Mas as rivalidades conti-

nuarão a lavrar surdamente e irão explodir afinal, em princípios

do século passado, nas lutas pela emancipação.

De fato, ao mesmo tempo que progride o afluxo de novos colo-

nos, a administração colonial se reforça. A começar pela alta di-

reção governamental. No primeiro século da colonização não havia

em Portugal aparelhamento algum destinado especialmente à adminis-

tração da colônia. Os assuntos relativos a ela corriam pelas re-

partições ordinárias da administração portuguesa. Sob o domínio

castelhano, criou-se em Portugal, à imitação do que havia em Sevi-

lha, um Conselho das Índias. Isto se fez em 1604. Mas, aos poucos

voltar-se-á à situação anterior, dispersando-se novamente os ser-

viços administrativos da colônia. Um dos primeiros cuidados do so-

berano português restaurado em 1640 (D. João IV), foi restabelecer

a unidade administrativa criando o Conselho Ultramarino, cujo re-

gulamento data de 14 de julho de 1642, e que permanecerá até o fim

da era colonial.

No que diz respeito à administração local, a centralização e

reforçamento do poder real é sensível. Os antigos donatários das

capitanias serão cada vez mais subordinados a governadores no-

meados pelo Rei. Já em 1584, diante do fracasso da maior parte dos

donatários, criara-se um governo geral que embora respeitando os

direitos daqueles senhores feudais das capitanias, exercerá sobre

eles uma supervisão geral e auxiliá-los-á quando necessário. Este

governo geral foi, em épocas distintas, separado em dois, repar-

tindo-se entre eles o território da colônia, e reunido novamente

num só. Mas a partir dos fins do séc. XVII, os poderes e a juris-

dição dos donatários serão cada vez mais restringidos e absorvidos

pelos governadores reais. Aqueles ficarão aos poucos reduzidos u-

nicamente aos direitos pecuniários que auferiam de suas capitani-

as. Quem administrava efetivamente a colônia eram os delegados do

Rei. Aliás os donatários desaparecerão logo completamente, pois a

coroa resgatar-lhes-á por compra os direitos hereditários de que

gozavam. Compelindo-o muitas vezes a isto contra sua vontade. Em

meados do séc. XVIII todas as capitanias terão voltado ao domínio

direto da coroa, e serão governadas por funcionários de nomeação

real.

Ainda mais importante que este aspecto da evolução centra-

lizadora da política e administração metropolitanas relativas ao

Brasil, é a decadência das autoridades locais. Refiro-me às Câ-

maras municipais. Repetindo aqui as instituições do Reino, tinham-

se criado órgãos eletivos para a administração local. As Câmaras,

em Portugal, já tinham perdido a maior parte de sua importância

quando se inicia a colonização do Brasil. Mas suas congêneres da

colônia adquirirão, desde logo, um poder considerável. É fácil ex-

plicá-lo pelo isolamento em que viviam os colonos e a debilidade

de uma administração longínqua e mal representada aqui por donatá-

rios indiferentes por tudo quanto não fosse a percepção de provei-

tos pecuniários. Grande parte dos negócios públicos, inclusive ma-

térias relevantes de caráter geral, eram tratados e resolvidos nas

Câmaras, que chegaram num momento a legislar sobre quase todos os

assuntos governamentais.

Isto vai desaparecer com a nova ordem instituída em meados do

séc. XVII. Os representantes diretos do poder real irão aos poucos

reivindicando para si toda a autoridade, e acabam transformando as

Câmaras em simples executoras de ordens deles emanadas. Um dos

maiores golpes desferidos nas franquias locais foi a introdução

dos juízes-de-fora no Brasil em substituição aos juízes ordinários

de eleição popular. Além de suas funções jurisdicionais, cabia aos

juízes a presidência das Câmaras. É em 1696 que são criados os

primeiros juízes-de-fora de nomeação do Rei: na Bahia, no Rio de

Janeiro e em Pernambuco, isto é, nas três principais vilas da co-

lônia. Na Bahia (capital então do Brasil) foi-se ainda mais longe,

pois nessa época deixaram os vereadores (membros da Câmara) de ser

eleitos, passando a ser escolhidos por nomeação régia.

Além destas, ainda outras medidas indicam a progressiva cen-

tralização da administração pública em benefício do poder régio e

em detrimento da autonomia local. Tudo isto, embora não pertença

propriamente à história econômica, tem grande reflexo nela, pois

assistiremos paralelamente ao desenvolvimento de uma nova política

econômica, derivada das mesmas causas e apoiando-se naquele siste-

ma administrativo absorvente e centralizador. Até então a política

metropolitana se caracterizara por um largo liberalismo. Afora o

monopólio de certas atividades, como o da extração do pau-brasil e

de outras de somenos importância, os colonos não encontram embara-

ço algum de ordem econômica. Seus trabalhos e seu comércio eram

inteiramente livres, tanto dentro da colônia, como nas suas rela-

ções com o exterior.

Um dos aspectos deste liberalismo (de grande significação eco-

nômica) se manifesta no tratamento dispensado a estrangeiros. Era

facultado a estes não somente estabelecerem-se livremente na colô-

nia, como exercerem nela quaisquer atividades; o comércio direto

entre o Brasil e países estrangeiros também não sofria restrição

alguma. No primeiro século da colonização encontramos não somente

grande número de alienígenas estabelecidos no Brasil, como ainda

transações mercantis regulares com nações estranhas, a Inglaterra

por exemplo. Com o domínio espanhol começaram as restrições; a Es-

panha estenderia para as colônias portuguesas, agora sob seu domí-

nio, as normas que sempre caracterizaram sua política econômica.

Mas não foi fácil vencer desde logo os hábitos adquiridos; apesar

das determinações legais, vemos manter-se ainda por muito tempo

uma liberdade de fato que se tornava agora em contrabando. Provam-

no as repetidas determinações legais coercitivas que mostram corno

eram desrespeitadas.

Portugal independente não só manterá a mesma política, mas

torna-la-ás mais severa. Penas rigorosas serão impostas em 1660

àqueles que permitissem ou facilitassem o comércio de navios es-

trangeiros no Brasil. A estes só seria facultado penetrar nos por-

tos da colônia por arribada forçada. Somente algumas potências ob-

terão certas facilidades, mais ou menos impostas ao soberano por-

tuguês que apenas ascendera ao trono e ainda não se consolidara

nele. Assim a Inglaterra, a Holanda, a França. Ser-lhes-á permi-

tido mandar seus navios ao Brasil; mas incorporados às frotas ou

comboios que se organizavam em Portugal com destino à colônia, e

fora dos quais era proibido navegar para lá. Encontraremos, ainda

em fins do séc. XVII e princípios do seguinte, alguns mercadores

estrangeiros estabelecidos no Brasil; um dos principais bairros do

Rio de Janeiro ainda conserva até hoje o nome de Flamengo, de uma

colônia de comerciantes daquela origem lá instalados. Haverá mes-

mo, nos principais centros, cônsules estrangeiros. Mas à medida

que avançamos pelo século XVIII tudo isto vai desaparecendo. Quan-

do chegamos pelos fins do período que nos ocupa, meados daquele

século, o comércio brasileiro e o direito de se estabelecer no pa-

ís estarão reservados exclusivamente aos nacionais portugueses.

Mas não são apenas