Caio Prado Historia Economica do Brasil
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Caio Prado Historia Economica do Brasil

Disciplina:Formação Econômica do Brasil558 materiais7.628 seguidores
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os estrangeiros que se atingem com a nova

política econômica. As restrições alcançam também os súditos por-

tugueses, os colonos do Brasil em particular. Já citei acima o

sistema de frotas, isto é, da navegação conjunta para o Brasil es-

tabelecida de uma forma geral e definitiva em 1660 quando se proí-

bem as viagens isoladas; tanto na ida como na volta, os navios de-

viam viajar em comboio que, em época fixa, se organizava e seguia

seu destino. Isto foi estabelecido em parte para fugir ao ataque

de corsários que então infestavam os mares; mas também para faci-

litar a fiscalização do comércio e evitar contrabandos.

Já antes disto tinha sido adotado um sistema de monopólio co-

mercial mais amplo. Trata-se das companhias privilegiadas, já ado-

tadas por ingleses e holandeses em suas possessões, e que con-

sistia em reservar a certas pessoas o direito exclusivo de reali-

zar o comércio externo da colônia. A primeira companhia privilegi-

ada é estabelecida no Brasil em 1647.
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 É-lhe concedido privilégio

do comércio em toda extensão da costa desde o Rio Grande do Noite

até São Vicente; isto é, o setor mais rico da colônia. Este privi-

légio teria a duração de vinte anos, prorrogável por mais dez à

vontade dos concessionários. Além de muitas outras vantagens, te-

ria a Companhia o monopólio de todo vinho, azeite, farinha de tri-

go e bacalhau necessários ao consumo do Brasil. Esta última con-

cessão levantou tamanhos protestos, e prejudicou tanto os colonos

pela deficiência de fornecimentos, que foi abolida doze anos de-

pois, em 1659, embora se indenizasse largamente a Companhia pelo

prejuízo sofrido.

A parte da colônia que ficava para fora do privilégio, Pará e

Maranhão, terá também a sua companhia em 1682. É a Companhia do

Maranhão e Pará, que gozará de iguais concessões. E provocará por

isso no Maranhão uma revolta de conseqüências muito sérias (a cha-

mada "revolta de Beckmann").

Esta política de privilégios e monopólios ainda se encontrará

em outros setores. Um monopólio que particularmente afetará a po-

pulação colonial será o do sal. A venda deste gênero será re-

servada no Brasil com exclusividade a certos comerciantes; e, para

impedir o contrabando, proíbe-se sua produção no Brasil (1665). A

partir de 1647 encontramos também uma sucessão de medidas contra a

fabricação da aguardente, que se acreditava fazer concorrência aos

vinhos produzidos em Portugal. É de notar que neste caso a metró-

pole estava de mãos dadas com os senhores de engenho; a estes não

interessava muito a fabricação de aguardente, e a medida proibiti-

va forçava os proprietários mais modestos que não tinham recursos

para instalar engenhos de açúcar, a lhes venderem sua cana. Estas

medidas contudo nunca tiveram execução integral, difícil de obter

dada a abundância da matéria-prima e simplicidade da fabricação de

um produto de largo e muito disseminado consumo.

À medida que a população colonial vai crescendo e procura ou-

tras iniciativas em que aplicar suas atividades, a política de

restrições econômicas se acentua. Procura-se impedir a produção de

qualquer gênero que não interessasse diretamente à metrópole e seu

comércio, ou que fizesse concorrência à sua produção nacional. As-

sim se deu com o cultivo da oliveira, da vinha (duas das princi-

pais riquezas de Portugal), e das especiarias (em particular da

pimenta e da canela) que vinha interferir com o comércio asiático

e os interesses metropolitanos no Oriente. E quando em 1688 corre

a notícia da descoberta de jazidas de ferro no Maranhão — notícia

aliás falsa, — declara-se em Carta Régia que não convinha sua ex-

ploração, pois isto seria em grave dano ao comércio do Reino por

ser o ferro a melhor mercadoria com que negociava na colônia.
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Não precisamos ir adiante nesta enumeração. O que ficou dito

basta para caracterizar a nova política econômica da metrópole

portuguesa, que ao liberalismo do passado substituía um regime de

7 Notemos que seus participantes, segundo declaração expressa da lei de conces-
são, são "da nação hebiéia".
8 O ferro não era produzido em Portugal; mas era através do seu comércio que che-
gava ao Brasil.

monopólios e restrições destinados a dar maior amplitude possível

à exploração e aproveitamento da colônia, e canalizar para o Reino

o resultado de todas suas atividades. Procura-se compensar assim o

que se perdera no setor oriental, onde holandeses, ingleses e pou-

co depois franceses tinham para sempre desbancado os portugueses.

O que estes aspiravam para sua colônia americana é que fosse uma

simples produtora e fornecedora de gêneros úteis ao comércio me-

tropolitano e que se pudessem vender com grandes lucros nos merca-

dos europeus. Este será o objetivo da política portuguesa até o

fim da era colonial. E tal objetivo ela o alcançaria plenamente,

embora mantivesse o Brasil, para isto, sob um rigoroso regime de

restrições econômicas e opressão administrativa; e abafasse a mai-

or parte das possibilidades do país.

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A mineração e ocupação do

Centro-sul

O INTERESSE da metrópole pelo Brasil e o desenvolvimento con-

seqüente de sua política de restrições econômicas e opressão admi-

nistrativa tomarão considerável impulso sobretudo a partir de

princípios do séc. XVIII quando se fazem na colônia as primeiras

grandes descobertas de jazidas auríferas. A mineração do ouro no

Brasil ocupará durante três quartos de século o centro das aten-

ções de Portugal, e a maior parte do cenário econômico da colônia.

Todas as demais atividades entrarão em decadência, e as zonas em

que ocorrem se empobrecem e se despovoam. Tudo cede passo ao novo

astro que se levanta no horizonte; o próprio açúcar, que por sécu-

lo e meio representara o nervo econômico da colonização e sua pró-

pria razão de ser, é desprezado.

Os metais preciosos tinham preocupado os portugueses desde o

início da colonização. As prematuras descobertas castelhanas no

México e no Peru incendiaram as imaginações, e tornara-se crença

arraigada que qualquer território da América encerrava necessa-

riamente os preciosos metais. Com a esperança de encontrá-los, não

foram poucos os aventureiros que desde o primeiro momento da ocu-

pação do litoral brasileiro se tinham internado pelo território

desconhecido. Deles ficariam notícias vagas, pois quase todos se

perderam: quando escapavam dos obstáculos de uma natureza agreste,

iam acabar às mãos dos indígenas.

O fato é que não se encontravam os cobiçados metais. Ao con-

trário do que ocorrera no México e no Peru, os indígenas, de um

nível cultural muito baixo, não se tinham interessado por eles; e

sua presença não fora ainda revelada ao homem. Durante quase dois

séculos seriam procurados inutilmente.

Isto não é bem exato, porque já nos fins do primeiro século se

iniciara na capitania de São Vicente (São Paulo) uma pequena mine-

ração aurífera de lavagem; mas tão insignificante que passou quase

despercebida e teve um caráter estritamente local. É somente nos

últimos anos do séc. XVII que se realizam os primeiros achados de

importância. Devem-se àquelas expedições acima referidas às ban-

deiras paulistas que andavam devassando o interior da colônia à

cata de índios destinados ao cativeiro. Lá por 1696 fazem-se as

primeiras descobertas positivas de ouro no centro do que hoje

constitui o Estado de Minas Gerais (onde atualmente se acha a ci-

dade de Ouro Preto). Os achados depois se multiplicaram sem inter-

rupção até meados do séc. XVIII, quando a mineração do ouro atinge

no Brasil sua maior área de expansão geográfica, e alcança o mais

alto nível