Caio Prado Historia Economica do Brasil
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Caio Prado Historia Economica do Brasil

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de produtividade.

Ao contrário do que se deu na agricultura e em outras ativida-

des da colônia (como na pecuária), a mineração foi submetida desde

o início a um regime especial que minuciosa e rigorosamente a dis-

ciplina. Já por ocasião daqueles insignificantes achados em São

Vicente e referidos acima, tinha-se promulgado um longo regulamen-

to sobre a matéria. Os seus princípios fundamentais permaneceriam

definitivamente, apesar das modificações posteriores: estabelecia-

se a livre exploração, embora submetida a uma fiscalização estrei-

ta, e a coroa reservava-se, como tributo, a quinta parte de todo

ouro extraído. Depois das descobertas feitas em Minas Gerais, a

antiga lei é substituída pelo Regimento dos superintendentes,

guardas-mores e oficiais deputados para as minas de ouro, datado

de 1702. Este regimento, com algumas modificações posteriores que

não lhe alteraram a feição essencial, manter-se-ia até o fim da

era colonial.

Em resumo, o sistema estabelecido era o seguinte: para dirigir

a mineração, fiscalizá-la e cobrar tributo (o quinto, como ficou

denominado), criava-se uma administração especial, a Intendência

de Minas, sob a direção de um superintendente; em cada capitania

em que se descobrisse ouro, seria organizada uma destas intendên-

cias que independia inteiramente de governadores e quaisquer ou-

tras autoridades da colônia, e se subordinava única e diretamente

ao governo metropolitano de Lisboa.

O descobrimento de jazidas era obrigatoriamente e sob penas

severas comunicado à intendência da capitania em que se fizera. Os

funcionários competentes (os guardas-mores) se transportavam então

ao local, faziam a demarcação dos terrenos auríferos, e em dia e

hora marcados e previamente anunciados, realizava-se a dis-

tribuição entre os mineradores presentes. Qualquer pessoa podia

comparecer e participar da distribuição, mas não se aceitava re-

presentação de terceiros. A distribuição se fazia por sorte e pro-

porcionalmente ao número de escravos com que cada pretendente se

apresentava; mas antes desta distribuição geral, o descobridor da

jazida tinha direito de escolher livremente sua data (era o nome

dado às propriedades mineradoras); e depois dele, a Fazenda Real

também reservava uma para si. Ela aliás nunca explorou suas minas,

e as vendia em leilão logo depois de adquiridas.

Entregues as datas aos contemplados, deviam eles dar início à

exploração no prazo de quarenta dias, sob pena de devolução. Tran-

sações com as datas não eram permitidas, e somente se autorizava a

venda na hipótese devidamente comprovada da perda de todos os es-

cravos. Neste caso o minerador só podia receber nova data quando

provasse que adquirira outros trabalhadores. Mas isto somente uma

vez, pois da segunda que alienasse sua propriedade perdia defini-

tivamente o direito de receber outra.

Como já referi, a Fazenda Real impusera sobre a mineração um

tributo avultado: a quinta parte de todo ouro extraído. A cobrança

deste quinto do ouro tem uma história longa e agitada. Os minera-

dores naturalmente sempre procuraram se furtar a um tão grande

desfalque da sua produção; e compreende-se como devia ser difícil

a fiscalização. Viveu-se por isso nas minas em luta constante: o

fisco reclamando e cobrando seus direitos, os mineradores dissimu-

lando o montante da produção... Tentaram-se meios indiretos para a

cobrança: assim a capitação dos escravos, isto é, um tributo fixo,

pago em ouro, que recaía sobre cada trabalhador empregado nas mi-

nas. Este sistema não deu resultado, porque se pagava o tributo

mesmo quando se tratava apenas de trabalhos preliminares de pes-

quisa que muitas vezes não produziam o fruto esperado. Depois de

muitas hesitações e variações, estabeleceu-se afinal um processo

que se tornaria definitivo. Criaram-se Casas de Fundição em que

todo o ouro extraído era necessariamente recolhido; aí se fundia,

e depois de deduzido o quinto e reduzido a barras marcadas com o

selo real (chamava-se isto "quintar ouro") era devolvido ao pro-

prietário. Somente nestas barras quintadas (de que até hoje se

conservam muitos exemplares) podia o ouro circular livremente. O

manuseio do ouro sob outra forma — em pó ou em pepitas, como é en-

contrado na natureza, ou em barras não marcadas — era rigorosa e

severamente proibido.
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 Quem fosse encontrado com ele sofria penas

severas, que iam do confisco de todos os bens até o degredo perpé-

tuo para as colônias portuguesas da África.

Mas não ficaram nestas providências as medidas legais desti-

nadas a proteger os interesses da Fazenda Real. O ouro era mer-

cadoria muito facilmente escondida graças a seu alto valor em pe-

quenos volumes. E para obviar os descaminhos que apesar de toda

fiscalização ainda se verificassem, fixou-se uma certa quota anual

mínima que o produto do quinto devia necessariamente atingir. Esta

quota, depois de algumas oscilações, foi orçada em 100 arrobas

(cerca de 1.500 quilos). Quando o quinto arrecadado não chegava a

estas 100 arrobas, procedia-se ao derrame, isto é, obrigava-se a

população a completar a soma. Os processos para consegui-lo não

tinham regulamento especial. Cada pessoa, minerador ou não, devia

contribuir com alguma coisa, calculando-se mais ou menos ao acaso

suas possibilidades. Criavam-se impostos especiais sobre o comér-

cio, casas de negócio, escravos, trânsito pelas estradas, etc.

Qualquer processo era lícito, contanto que se completassem as 100

arrobas do tributo. Pode-se imaginar o que significava isto de vi-

olências e abusos. Cada vez que se decretava um derrame, a capita-

nia atingida entrava em polvorosa. A força armada se mobilizava, a

população vivia sob o terror; casas particulares eram violadas a

qualquer hora do dia ou da noite, as prisões se multiplicavam. Is-

to durava não raro muitos meses, durante os quais desaparecia toda

e qualquer garantia pessoal. Todo mundo estava sujeito a perder de

uma hora para outra seus bens, sua liberdade, quando não sua vida.

Aliás os derrames tomavam caráter de violência tão grande e sub-

versão tão grave da ordem, que somente nos dias áureos da minera-

ção se lançou mão deles. Quando começa a decadência, eles se tor-

nam cada vez mais espaçados, embora nunca mais depois de 1762 o

quinto atingisse as 100 arrobas fixadas. Da última vez que se pro-

jetou um derrame (em 1788), ele teve de ser suspenso à última hora

pois chegaram ao conhecimento das autoridades notícias positivas

de um levante geral em Minas Gerais, marcado para o momento em que

fosse iniciada a cobrança (conspiração de Tiradentes). E nunca

mais se recorreu ao expediente. A decisão firme de um povo é mais

forte que qualquer poder governamental.

Vejamos um outro aspecto da indústria mineradora: como se or-

9 Pequenas quantidades em pó, que não eram suficientes para completar uma barra,
podiam ser trocadas por certificados nas Casas de Fundição. Um número suficiente

de certificados era recambiado em ouro quintado.

ganiza e funciona a exploração das jazidas. Encontramos aí dois

tipos de organização: o primeiro é o das lavras, que se emprega

nas jazidas de certa importância. As lavras são estabelecimentos

de algum vulto, dispondo de aparelhamento especializado, e onde

sob direção única e trabalhando em conjunto, reúnem-se vários tra-

balhadores. A mão-de-obra é quase totalmente constituída de escra-

vos africanos; o trabalho livre é excepcional (embora ocorra, por

vezes, sobretudo pelos fins do século) e o índio não é empregado.

À organização em lavras, que corresponde ao período áureo da mine-

ração, quando ainda havia grandes recursos