Caio Prado Historia Economica do Brasil
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Caio Prado Historia Economica do Brasil

Disciplina:Formação Econômica do Brasil558 materiais7.628 seguidores
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Brasil em terre-

nos auríferos), datam de 1729. A princípio adotou-se para com a

extração dos diamantes o mesmo sistema que vigorava na do ouro: a

livre extração com pagamento do quinto. Mas era difícil calcular e

separar o quinto de pedras muito diferentes umas das outras, em

tamanho e qualidade; e como além disto ocorressem apenas em áreas

limitadas, adotou-se logo outro processo mais conveniente à per-

cepção do tributo — em todas as matérias da sua administração, a

metrópole portuguesa sempre colocava este assunto em primeiro e

quase único lugar. Demarcou-se cuidadosamente o território em que

se encontravam os diamantes, isolando-o completamente do exterior.

Este território, que se chamou o Distrito Diamantino, é o que cir-

cunda a atual cidade de Diamantina, em Minas Gerais. E a explora-

ção foi outorgada como privilégio a determinadas pessoas que se

obrigavam a pagar uma quantia fixa pelo direito de exploração. Em

1771 modifica-se este sistema, passando a Real Fazenda a fazer ela

mesma, diretamente, a exploração. Organizou-se uma Junta da admi-

nistração geral dos diamantes, sob a direção de um intendente, pa-

ra ocupar-se da matéria. Esta administração, como se dava com as

Intendências do ouro, independia completamente de quaisquer auto-

ridades coloniais, e somente prestava contas ao governo de Lisboa.

Sua autonomia ainda era maior, porque se estendia soberana sobre

todo um território. Verdadeiro corpo estranho enquistado na colô-

nia, o Distrito Diamantino vivia inteiramente isolado do resto do

país, e com uma organização sui generis: não havia governadores,

câmaras municipais, juízes, repartições fiscais ou quaisquer ou-

tras autoridades ou órgãos administrativos . Havia apenas o Inten-

dente e um corpo submisso de auxiliares que eram tudo aquilo ao

mesmo tempo, e que se guiavam unicamente por um regimento colocado

acima de todas as leis e que lhes dava a mais ampla e ilimitada

competência. Na área do Distrito ninguém podia estabelecer-se, nem

ao menos penetrar ou sair sem autorização especial do Intendente,

e a vida de seus habitantes (que pelo final do séc. XVIII montavam

a 5.000 pessoas) achava-se inteiramente nas mãos daquele pequeno

régulo que punha e dispunha dela a seu talante. Seus poderes iam

até o confisco de todos os bens e decretação da pena de morte ci-

vil
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 sem forma de processo ou recurso algum. Um naturalista alemão

que em princípio do séc. XIX visitou o Distrito,
11
 assim se refere

a ele: "Única na história esta idéia de isolar um território no

qual todas as condições da vida civil de seus habitantes ficassem

sujeitas à exploração de um bem da coroa".

Além do Distrito Diamantino, outras áreas da colônia onde se

encontram diamantes também foram destacadas e isoladas, proibindo-

se o acesso a qualquer pessoa: rio Jequitinhonha (Minas Gerais);

rio Claro e Pilões (Goiás); sudoeste da Bahia; alto Paraguai (Mato

Grosso). Estas áreas não foram aproveitadas e se conservaram de-

sertas.

A decadência da mineração dos diamantes, que é mais ou menos

paralela à do ouro, tem também causas semelhantes. Veio agravá-la

um fator: a depreciação das pedras, devido ao seu grande afluxo no

mercado europeu. O governo português tentou impedir a queda dos

preços restringindo a produção e a venda; mas seus crônicos aper-

tos financeiros obrigavam-no freqüentemente a abrir mãos das res-

trições e lançar inoportunamente no mercado grandes quantidades de

pedras. O seu valor veio assim, de queda em queda, até princípios

do séc. XIX. Ao mesmo tempo, uma administração inepta e ineficien-

te foi incapaz de racionalizar a produção e reduzir o custo da ex-

tração; tudo se conservou até o fim na mesma rotina de sempre. O

desastre foi completo, e a exploração de diamantes deixou inteira-

mente de contar como atividade econômica de alguma expressão desde

fins do séc. XVIII.

A mineração teve na vida da colônia um grande papel. Durante

três quartos de século ocupou a maior parte das atenções do país,

e desenvolveu-se à custa da decadência das demais atividades. O

afluxo de população para as minas é, desde o início do séc. XVIII,

considerável: um rush de proporções gigantescas, que relativamente

às condições da colônia é ainda mais acentuado e violento que o

famoso rush californiano do séc. XIX. Isto já seria o suficiente

para desequilibrar a vida do país e lhe transformar completamente

o aspecto. Em alguns decênios povoa-se um território imenso até

então desabitado, e cuja área global não é inferior a 2 milhões de

km
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. Povoamento esparso, bem entendido (em princípios do séc. XIX

não será superior a 600.000 habs., ou seja um quinto da população

total do Brasil de então), e distribuídos em pequenos núcleos se-

parados entre si por áreas desertas imensas. Esta será uma forma

característica ao povoamento do Brasil centro-sul que se perpetuará

até nossos dias. A sua significação econômica pode ser avaliada pe-

la dificuldade que representa estabelecer-se um sistema de trans-

10 Esta pena desapareceu do direito moderno; não vai até a execução capital, mas
significa a cessação de todos os direitos do indivíduo "como se a pessoa deixas-

se de existir", definem as leis da época.
11 Trata-se de Carl Friedrich Philip von Martius. (1794-1868), um dos grandes bo-
tânicos modernos.

portes eficiente e econômico em região tão irregularmente ocupada.

Será este o maior ônus legado pela mineração do séc. XVIII.

Mas de outro lado, o impulso desencadeado pela descoberta das

minas permitiu à colonização portuguesa ocupar todo o centro do

continente sul-americano. É este mais um fato que precisa ser con-

tado na explicação da atual área imensa do Brasil.

As transformações provocadas pela mineração deram como resul-

tado final o deslocamento do eixo econômico da colônia, antes lo-

calizado nos grandes centros açucareiros do Nordeste (Pernambuco e

Bahia). A própria capital da colônia (capital mais de nome, pois

as diferentes capitanias, que são hoje os Estados, sempre foram

mais ou menos independentes entre si, subordinando-se cada qual

diretamente a Lisboa) transfere-se em 1763 da Bahia para o Rio de

Janeiro. As comunicações mais fáceis das minas para o exterior se

fazem por este porto, que se tornará assim o principal centro ur-

bano da colônia.

De um modo geral, é todo este setor centro-sul que, graças em

grande parte à mineração, toma o primeiro lugar entre as di-

ferentes regiões do país; para conservá-lo até hoje. A necessidade

de abastecer a população, concentrada nas minas e na nova capital,

estimulará as atividades econômicas num largo raio geográfico que

atingirá não somente as capitanias de Minas Gerais e Rio de Janei-

ro propriamente, mas também São Paulo. A agricultura e mais em

particular a pecuária desenvolver-se-ão grandemente nestas regi-

ões. É de notar que o território das minas propriamente (sobretudo

das mais importantes localizadas no centro de Minas Gerais) é im-

próprio para as atividades rurais. O solo é pobre e o relevo ex-

cessivamente acidentado. Nestas condições, os mineradores terão de

se abastecer de gêneros de consumo vindos de fora. Servir-lhes-á

sobretudo o sul de Minas Gerais, onde se desenvolve uma economia

agrária que embora não contando com gêneros exportáveis de alto

valor comercial — como se dera com as regiões açucareiras do lito-

ral —, alcançará um nível de relativa prosperidade.

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A Pecuária e o Progresso do

Povoamento no Nordeste

A OCUPAÇÃO do interior nordestino, que vimos no capítulo 5 em

seu início, continua a processar-se ativamente no período que ora

nos