Caio Prado Historia Economica do Brasil
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Caio Prado Historia Economica do Brasil

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ocupa. Sua base econômica será sempre a pecuária, e os grandes

focos de irradiação continuarão sendo Bahia e Pernambuco. Partindo

do primeiro e alcançando em meados do séc. XVII o rio São Francis-

co, a disposição das fazendas de gado tomará daí por diante duas

direções. Uma delas subirá pelo rio acompanhando seu curso. Tor-

nar-se-á mais acentuada e rápida quando começa o povoamento das

minas, que servirão de mercado para a carne produzida nas fazendas

do alto rio: Estas sofrerão, é verdade, a concorrência da região

muito mais favorecida que fica para o sul das minas e que descre-

vemos no capítulo anterior. Além disto, a administração pública,

sempre ocupada em) evitar possíveis descaminhos do ouro, procurará

fechar as comunicações com o Norte: concentrará sua fiscalização

no caminho do Rio de Janeiro, e esta devia ser a única via de a-

cesso para as minas. Embora não consiga realizar inteiramente seu

objetivo, embaraçará contudo grandemente as relações comerciais

que se faziam com o Norte, dificultando assim o fornecimento de

gado feito pelas fazendas dessa região.

A outra direção que toma a progressão das fazendas de gado de-

pois de atingido o rio São Francisco, é para o Norte. O rio é

transposto, e em fins do séc. XVII começa a ser ocupado o interior

do atual Estado do Piauí. As condições naturais já são aí melhores

que no setor ocupado anteriormente: pluviosidade mais elevada e

melhor distribuída, cursos de água permanentes. Daí também uma

forragem natural de melhor qualidade. As fazendas do Piauí tornar-

se-ão logo as mais importantes de todo o Nordeste, e a maior parte

do gado consumido na Bahia provém delas, embora tivesse de percor-

rer para alcançar seu mercado cerca de mil e mais quilômetros de

caminho.

A progressão das fazendas não cessará no Piauí: elas trans-

porão o rio Parnaíba, e irão confluir no Maranhão com aquelas que

do litoral subiam pelo rio Itapicuru. Para leste também trans-

bordarão no Ceará, onde o movimento confundir-se-á com o outro que

em direção contrária vinha de Pernambuco acompanhando grosseira-

mente o contorno do litoral.

Completa-se assim a ocupação de todo o interior nordestino.

Ocupação muito irregularmente distribuída. De uma forma geral, es-

cassa e muito rala: o pessoal das fazendas de gado, únicos esta-

belecimentos da região, não é numeroso, como já foi descrito. Don-

de também um comércio, afora a condução de gado, pouco intenso;

resultando disso aglomerações urbanas insignificantes e largamente

distanciadas umas das outras. Mas dentro desta baixa densidade de-

mográfica geral, o povoamento e as atividades econômicas se con-

centram mais em algumas áreas. Os fatores naturais, em particular

a ocorrência de água, tão preciosa neste território semi-árido,

têm aí um papel relevante. É sobretudo na margem dos poucos rios

perenes que se condensa a vida humana: no São Francisco, nos rios

do Piauí e do alto Maranhão. Intercalam estas regiões mais favore-

cidas extensos desertos a que somente as vias de comunicações em-

prestam alguma vida. Ao longo delas estabelecem-se alguns morado-

res, apesar das dificuldades locais, para prestarem concurso aos

viajantes e às boiadas que transitam na proximidade, ou para reco-

lherem a baixo preço alguma rês estropiada pelas longas caminha-

das, e constituírem assim uma pequena fazenda. As "cacimbas" (po-

ços dágua) congregam quase todo resto do povoamento; assim, onde o

lençol de águas subterrâneas é mais permanente e resiste mais às

secas prolongadas, bem como onde ele é mais acessível aos proces-

sos rudimentares de que dispõe a primitiva e miserável população

local, o povoamento se adensa. "Olho-d'água" é uma designação que

aparece freqüentemente na toponímia do interior nordestino: a a-

tração do líquido é evidente.

À parte a pecuária, reduzida é a atividade desta área extensa.

A agricultura é praticada subsidiarimente e em pequena escala para

subsistência das próprias fazendas. Existem no entanto algumas re-

giões de populações cultivadoras. Mas são raras. Destaca-se a ver-

tente norte da Chapada do Araripe, no Ceará, onde as águas brotam

com certa abundância dos flancos da montanha; formou-se aí um ver-

dadeiro oásis no agreste deserto cearense. Outra região agrícola

borda as margens do Parnaíba e seus afluentes principais. Em menor

escala, as do Jaguaribe, no Ceará. O gênero de vida determinou

nestas regiões agrícolas esparsas e raras um povoamento mais aden-

sado; acresce nelas o comércio, pois são todas pontos de contacto

e de trânsito de certa importância. Também no rio São Francisco

encontram-se outras atividades além da pecuária: no trecho médio

do seu curso exploram-se algumas pobres jazidas de sal de rocha

cujo produto serve para abastecer boa parte do sertão baiano, do

mineiro e até Goiás.

Em meados do séc. XVIII o sertão do Nordeste alcança o apogeu

do seu desenvolvimento. O gado nele produzido abastece, sem con-

corrência, todos os centros populosos do litoral, desde o Maranhão

até a Bahia. O gado é conduzido através destas grandes distâncias

em manadas de centenas de animais. Cruzando regiões inóspitas, on-

de até a água é escassa e não raro inexistente (contentando-se en-

tão os homens e os animais com as reservas líquidas de certas

plantas hidrófilas), o gado chega naturalmente estropiado a seu

destino. A carne que produz, além de pouca, é de má qualidade. As-

sim, somente a falta de outras fontes de abastecimento alimentar

explica a utilização para isto de tão afastadas e desfavoráveis

regiões. Em fins do século elas ainda sofrerão golpes mais seve-

ros. As secas prolongadas, que sempre foram aí periódicas, se mul-

tiplicam e estendem ainda mais,
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 dizimando consideravelmente os

rebanhos que se tornarão de todo incapazes de satisfazerem às ne-

cessidades de seus mercados consumidores. Serão substituídos pela

carne-seca importada do sul da colônia. Voltaremos noutro capítu-

lo, com mais vagar, sobre esta questão que interessa um setor do

12 Segundo as aparências, pois os estudos a respeito ainda não são completos, o
Nordeste brasileiro se acha num período de secação que se prolonga ainda em nos-

sos dias.

país que ainda não foi referido porque de fato até esta época se

conservara fora dos limites e da vida da colônia: o Rio Grande do

Sul.

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A Colonização do Vale Amazônico

e a Colheita Florestal

ENQUANTO SE processava a grande corrida para as minas, uma

lenta infiltração penetra a intrincada rede hidrográfica do Amazo-

nas. Já no primeiro período da história brasileira vemos a coloni-

zação portuguesa ocupar a foz do grande rio, onde a atual cidade

de Belém do Pará é fundada em 1616. São antes motivos políticos

que determinaram a fundação. Holandeses e ingleses tinham tentado,

antes de Portugal, estabelecer-se na região. Naquela data são to-

dos definitivamente expulsos, e os portugueses se instalam sem

concorrentes. A base econômica da colonização será a princípio,

como nos demais núcleos do litoral, a lavoura da cana-de-açúcar.

Mas a agricultura nunca progredirá aí; as condições naturais lhe

são desfavoráveis. Na mata espessa e semi-aquática que borda o

grande rio; em terreno baixo e submetido a um regime fluvial cuja

irregularidade, com o volume enorme de águas que arrasta, assume

proporções catastróficas, alagando nas cheias áreas imensas, des-

locando grandes tratos de solo que são arrancados às margens e ar-

rastados pela correnteza; nesta remodelação fisiográfica ininter-

rupta de um território longe ainda do equilíbrio, o homem se ames-

quinha, se anula. Além disto, a pujança da