Caio Prado Historia Economica do Brasil
280 pág.

Caio Prado Historia Economica do Brasil

Disciplina:Formação Econômica do Brasil653 materiais8.044 seguidores
Pré-visualização50 páginas
vegetação equatorial

não lhe dá tréguas. A luta exige esforços quase ilimitados se qui-

ser ir além da dócil submissão às contingências naturais. E tais

esforços, a colonização incipiente não os podia fornecer. A agri-

cultura, que requer um certo domínio sobre a natureza, apenas se

ensaiou. A conquista do vale amazônico tinha de contar com outros

fatores.

E foi o que se verificou. Encontraram os colonos na sua flo-

resta um grande número de gêneros naturais aproveitáveis e utili-

záveis no comércio: o cravo, a canela, a castanha, a salsaparrilha

e sobretudo o cacau. Sem contar as madeiras e produtos abundantes

do reino animal: peixes, caça, a tartaruga. Na extração destes

produtos encontrará a colonização amazônica sua base econômica. A

mão-de-obra também foi relativamente fácil. Os indígenas eram nu-

merosos, e embora de nível cultural baixo, facilmente se conforma-

ram com o trabalho que deles se exigia; o que, vimo-lo anterior-

mente, só foi o caso em forma muito limitada em outros lugares.

Explica-se a diferença. No vale amazônico os gêneros de ati-

vidade se reduzem praticamente a dois: penetrar a floresta ou os

rios para colher os produtos ou capturar o peixe; e conduzir as

embarcações que fazem todo o transporte e constituem o único meio

de locomoção. Para ambos estava o indígena admiravelmente prepara-

do. A colheita, a caça, a pesca já são seus recursos antes da vin-

da do branco: como pescador, sobretudo, suas qualidades são notá-

veis, e os colonos só tiveram neste terreno que aprender com ele.

Remador, também é exímio: ninguém, como o índio, suporta os longos

trajetos, do raiar ao pôr do sol, sem uma pausa; ninguém espreita

e percebe, como ele, os caprichos da correnteza, tirando dela o

melhor partido: ninguém compreende tão bem o emaranhado dos canais

que formam esta rede complicada e variável de época para época em

que se dividem e subdividem os rios amazônicos. Empregado assim em

tarefas que lhe são familiares, ao contrário do que se deu na a-

gricultura e na mineração (nesta última, aliás, nunca foi ensaia-

do), o índio se amoldou com muito mais facilidade à colonização e

domínio do branco. Não se precisou do negro.

A infiltração pelo vale acima do rio Amazonas inicia-se fran-

camente na segunda metade do séc. XVII. Sua vanguarda serão as or-

dens religiosas, em particular jesuítas e carmelitas. Não é aqui o

lugar próprio para indagar quais os objetivos que animavam os mis-

sionários; se o puro zelo religioso da conversão de almas pagãs,

se outros projetos mais amplos e não confessados. Quanto aos jesu-

ítas, parece fora de dúvida que tinham na América um plano de

grandes proporções: nada menos que assentar nela um imenso império

temporal da Igreja Católica e sob sua direção. Não se explica de

outra forma a empresa sistemática, e em parte realizada, de con-

quistar todo o coração do continente sul-americano; o que se reve-

la nesta linha estratégica de missões que se estendem do Uruguai e

Paraguai, pelos Moxos e Chiquitos da Bolívia, até o alto Amazonas

e Orenoco. Reunidas estas missões, de origem espanhola, às portu-

guesas que subiram pelo Amazonas, o conjunto apresenta-se como um

bloco imenso e coeso de territórios plantados em cheio na América.

Nem se pode dizer que os jesuítas realizavam o objetivo tradicio-

nal de todas as missões religiosas, isto é, abrir caminho entre

populações indígenas para o avanço dos colonos europeus. Lutaram

contra estes com todas as armas, inclusive a força, tentando de-

sesperadamente afastá-los e manter sua hegemonia própria.

Mas seja como for, os padres realizaram uma grande tarefa eco-

nômica no vale amazônico. A eles cabe a iniciativa do desbra-

vamento de todo este território imenso, semeando suas missões num

raio de milhares de quilômetros. Estas missões, no aspecto que nos

interessa aqui, constituem importantes empresas comerciais. Reuni-

dos os índios em aldeias — para o que os padres contavam com dons

de persuasão que fazem honra a seu instinto psicológico e habili-

dade política, — eram eles submetidos a um regime disciplinado e

rigoroso de trabalho e de vida em geral. Conseguiam os padres o

que os colonos leigos foram sempre incapazes de obter. Debaixo da

ordem de diretores e mestres, os indígenas construíam as instala-

ções da missão — as casas de habitação, a igreja com sua escola

anexa, os armazéns e depósitos. Depois destes trabalhos prelimina-

res, enquanto uma parte dos nativos se destinava à cultura dos gê-

neros alimentícios necessários à sustentação da comunidade, os ou-

tros partiam para expedições de colheita dos produtos da floresta,

de caça e de pesca. Os gêneros assim obtidos eram exportados, pa-

gando-se com isto não somente a manutenção das missões (que aliás

quase se bastavam a si mesmas), mas deixando saldos apreciáveis

que com os de outras procedências, iriam enriquecer consideravel-

mente as Ordens respectivas e dar-lhes, na primeira parte do séc.

XVIII, grande poder e importância financeira.

Os colonos leigos vieram atrás dos padres. Tiveram de enfren-

tar da parte destes uma grande resistência, e pouco realizaram até

meados do séc. XVIII. Nesta época, a administração portuguesa que

por iniciativa do Marquês de Pombal, ministro de D. José I, se li-

bertara da influência jesuítica até então dominante na corte, re-

solve abrir luta contra o poder excessivo dos padres na América,

que ameaçava subtrair à coroa portuguesa o domínio efetivo de

grande parte da colônia. Em 1755 é abolido o poder temporal dos

eclesiásticos nas missões indígenas. As aldeias são entregues a

administradores leigos, e os padres conservaram apenas os poderes

espirituais. Aliás pouco depois (1759) os jesuítas, que resistiram

à secularização das aldeias, são expulsos de todos os domínios

portugueses. Os carmelitas e outras ordens se mostraram mais dó-

ceis e foram conservados.

As reformas de Pombal não ficam nisto. A escravidão dos índios

é definitiva e integralmente abolida; eles são em tudo equiparados

aos colonos brancos, e seu trabalho obrigatoriamente pago com sa-

lários em moeda e fixados pelas autoridades. Tudo isto sob a fis-

calização de diretores leigos nomeados para as aldeias.

Haverá ainda, naturalmente, fricções e abusos dos colonos

brancos. Os diretores de índios nem sempre saberão cumprir seu de-

ver, e em muitos casos eles mesmos se tornarão os exploradores do

trabalho indígena. Mas de uma forma geral, pode-se dizer que a es-

cravidão estava abolida. A exploração de que os índios serão víti-

mas daí por diante, já não é a de escravos, mas de semi-

assalariados, embora ainda com muitos traços servis.

Com a secularização das aldeias indígenas, o colono leigo in-

filtrar-se-á por toda parte aproveitando a ausência dos padres

seus adversários. Os índios domesticados e já mais ou menos prepa-

rados que as habitam, representam para ele mão-de-obra abundante à

sua disposição; é nelas que se fixará de preferência, e é por isso

que a quase totalidade das atuais cidades da Amazônia tem sua ori-

gem em antigos aldeamentos missionários.

Vejamos como se distribui este povoamento cuja estrutura não

se modificou com a substituição do padre pelo colono. Ele se amol-

da às contingências da colheita natural. As espécies vegetais uti-

lizadas no seu estado nativo precisam naturalmente ser procuradas

lá onde o acaso as colocou; e aí, além de irregular, a freqüência

não é em regra elevada. Daí, a considerável dispersão amazonense,

cuja população, que em fins do séc. XVIII não alcançava uma cente-

na de mil habitantes (incluídos os índios domesticados), já se es-

palha, embora numa ocupação linear e rala, ao longo de milhares