Caio Prado Historia Economica do Brasil
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Caio Prado Historia Economica do Brasil

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em nosso assunto; viria o colapso e viria também a

Providência salvadora. Esta chegaria até nós sob a forma de um gê-

nero para cuja produção a Natureza nos aparelhara admiravelmente:

café. Desbaratar-se-ia com ele mais uma grande parcela dos dons

com que a Natureza nos dotara. Mas onde não havia mais destes dons

a gastar, a Providência falhou, e veio o colapso.

Não eram contudo tão sombrias ainda, ao inaugurar-se o século

passado, as perspectivas da agricultura colonial. Pelo contrario,

vimos que a conjuntura internacional e doméstica a favorecia lar-

gamente. Os nossos produtos estavam valorizados os possíveis con-

correntes debilitados, e internamente a decadência da mineração

punha à disposição dela energias e atividades desocupadas. Tudo

sorria, e ela parecia marchar vitoriosa.

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Incorporação do Rio Grande do Sul

Estabelecimento da Pecuária

A EXTREMIDADE meridional do território que hoje constitui o

Brasil, permaneceu durante muito tempo fora de sua órbita. Entrará

para a história política e administrativa da colônia em fins do

séc. XVII; mas economicamente só começará a contar no período que

ora nos ocupa, isto é, segunda metade do séc. XVIII. Antes disto é

apenas um território arduamente disputado por espanhóis e portu-

gueses, de armas na mão, e não terá outra forma de ocupação que a

militar. Até aquele final do séc. XVII as fronteiras meridionais

do Brasil se conservam não apenas indecisas, mas desconhecidas e

descuidadas. Tratava-se de uma área deserta e que parecia sem

grande interesse; e por isso ninguém se preocupou em fixar aí o

local onde se tocavam as possessões espanholas e portuguesas. A

linha imaginária do acordo de Tordesilhas (1496) devia passar mais

ou menos na altura da ilha de Santa Catarina; mas nenhuma das duas

coroas ibéricas tratou jamais de a determinar com rigor. Durante a

dominação castelhana em Portugal (1580-1640), a questão não tinha

naturalmente especial interesse, pois tudo pertencia ao mesmo so-

berano. Mas depois da restauração, o rei de Portugal, grandemente

preocupado com sua colônia americana (já assinalei que era a últi-

ma possessão ultramarina de valor que lhe sobrava), tratou seria-

mente de fixar-lhe as fronteiras, sobretudo neste setor meridional

onde os estabelecimentos portugueses e espanhóis mais se aproxima-

vam uns dos outros, e onde portanto os choques eram mais de temer.

Ao se separarem as duas coroas, os limites da ocupação efetiva

eram, quanto aos portugueses, ao sul da capitania de São Vicente

(depois São Paulo). Eles tinham alcançado, embora só nas proxi-

midades da costa, o território hoje ocupado pelo Estado do Paraná.

Os espanhóis, do seu lado, estabelecidos em Buenos Aires, no Rio

da Prata, não tinham ainda passado, para o norte, além deste pon-

to; salvo pelo interior do continente, subindo ao longo dos rios

Paraná e Paraguai. Um grande vácuo, portanto, separava as duas na-

ções; todo o território a leste do rio Paraná, compreendido entre

o Rio da Prata ao sul e paralelo de 26° ao norte, permanecia de-

serto e inocupado, embora fosse percorrido intermitentemente, des-

de princípios do séc. XVII, pelas bandeiras paulistas preadoras de

índios.

Caberá aos portugueses a iniciativa de estender a soberania de

sua metrópole sobre este território. Em 1680, uma expedição parti-

da do Rio de Janeiro vai plantar a bandeira portuguesa e com ela

uma forte guarnição militar, na margem setentrional do Rio da Pra-

ta, bem defronte de Buenos-Aires. Data de então a fundação da fa-

mosa Colônia do Sacramento, hoje cidade uruguaia de Colônia, que

durante século e meio seria a causa de vivas disputas entre portu-

gueses e espanhóis, primeiro, brasileiros e argentinos, depois.

Não entrarei nos pormenores desta luta que estala logo após a

fundação da colônia. Ela se sucederá com vitórias e reveses de uma

e outra parte, recuos e avanços contínuos das fronteiras. O portu-

gueses acabarão ficando sem a colônia, e seu território é cedido

expressamente pelo tratado de Madri de 1750. Mas a localização do

conflito naquele ponto afastado permitir-lhes-á ocupar com mais

folga o território que fica para trás, mais para o norte, e que se

incorporará assim ao Brasil. Isto se fará desde os princípios do

séc. XVIII. Além das tropas destacadas para a defesa, uma corrente

de povoadores oriunda de São Paulo se irá estabelecendo no terri-

tório que hoje forma o Rio Grande do Sul. Unicamente a oeste, nas

margens orientais do Rio Uruguai, fixaram-se as missões jesuíticas

de origem espanhola. Com alternativas várias, esta área, ocupada

primeiro pelas missões, também se tornará definitivamente brasi-

leira nos primeiros anos do séc. XIX.

A base econômica da colonização do Extremo-Sul será a pe-

cuária. Os campos imensos que o constituem, com uma vegetação her-

bosa que dá boa forragem, lhe são altamente favoráveis. O gado

multiplicar-se-á aí tão rapidamente que embora mais ou menos aban-

donado e sem trato especial algum, adquirirá uma densidade que não

tem paralelo em outra região da colônia. A agricultura somente se

estabelecerá nalguns pequenos setores próximos do litoral: cerca

do local onde hoje está a capital do Rio Grande, a cidade de Porto

Alegre; e em Santa Catarina, na ilha deste nome e na terra firme

que lhe fica fronteira.

Nestes pontos foi tentado um sistema de colonização original

para o Brasil e que oferece particularidades que o distinguem ni-

tidamente no conjunto da nossa colonização. Como não se tratava de

regiões aptas para a produção de gêneros tropicais de grande valor

comercial, como o açúcar ou outros, foi-se obrigado para conseguir

povoadores (providência necessária porque se tratava de territó-

rios contestados pela Espanha), a recorrer às camadas pobres ou

médias da população portuguesa, e conceder grandes vantagens aos

colonos que aceitavam irem-se estabelecer lá. O custo do transpor-

te será fornecido pelo Estado, a instalação dos colonos é cercada

de toda sorte de providências destinadas a facilitar e garantir a

subsistência dos povoadores: as terras a serem ocupadas são previ-

amente demarcadas em pequenas parcelas — uma vez que não se desti-

navam às grandes lavouras tropicais — fornecem-se gratuitamente ou

a longo prazo auxílios vários (instrumentos agrários, sementes,

animais de trabalho etc).

O recrutamento dos colonos se fez sobretudo nas ilhas dos Aço-

res que sempre constituíram um viveiro demográfico a braços com

excessos de populações que o exíguo território do arquipélago não

comportava. Foram escolhidos de preferência camponeses que emigra-

vam em grupos familiares, o que também é quase único na coloniza-

ção do Brasil. Por todos estes motivos, constitui-se nos pontos

assinalados um tipo de organização singular entre nós. A proprie-

dade fundiária é muito subdividida, o trabalho escravo é raro,

quase inexistente, a população é etnicamente homogênea. Nenhum

predomínio de grupos ou castas, nenhuma hierarquia marcada de

classes sociais. Trata-se em suma de comunidades cujo paralelo en-

contramos apenas, na América, em suas regiões temperadas, e foge

inteiramente às normas da colonização tropical, formando uma ilha

neste Brasil de grandes domínios escravocratas e seus derivados.

Uma ilha muito pequena, aliás, e sem importância apreciável no

conjunto da colônia. Mesmo computando apenas este setor meridional

de que nos ocupamos, seu papel é reduzido; o que contará nele são

as grandes fazendas de gado do interior, as estâncias.
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A organização econômica definitiva e estável do Rio Grande do

Sul foi protelada pelas guerras incessantes que vão até 1777. Mas

apesar