Caio Prado Historia Economica do Brasil
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Caio Prado Historia Economica do Brasil

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delas, e graças às excelentes condições naturais, o gado

vacum se foi multiplicando rapidamente. É ele aliás, em grande

parte, que tornou possíveis estas lutas prolongadas, pois alimen-

tou com sua carne os exércitos em luta. Segue-se a 1777, quando se

assina a paz entre os contendores, um longo período de tréguas que

iria até as novas hostilidades dos primeiros anos do séc. XIX. Es-

tabelecem-se então as primeiras estâncias regulares, sobretudo na

fronteira, onde mercê das guerras se concentra a população consti-

tuída a principio quase exclusivamente de militares e guerrilhei-

ros. Distribuem-se aí propriedades a granel: queria-se consolidar

a posse portuguesa, garantida até então unicamente pelas armas. O

abuso não tardou, e apesar da limitação legal das concessões (3

léguas, equivalentes a 108 km
2
, para cada concessionário), formam-

se propriedades monstruosas. Um contemporâneo escreverá: "Um homem

que tinha a proteção do governo, tirava uma sesmaria {nome dado às

doações de terras) em seu nome, outra em nome do filho mais velho,

outras em nome do filho e filha que estavam no berço; e deste modo

há casa de quatro e mais sesmarias". Repetia-se a mesma coisa que

no século anterior se praticara com tanto dano no sertão do Nor-

deste, e enquistava-se nas mãos de uns poucos privilegiados toda a

riqueza fundiária da capitania. Mas embora eivada no seu nascedou-

ro de todos estes abusos, a pecuária se firma e organiza solida-

mente, prosperando com rapidez.

O principal negócio foi a princípio a produção de couros, que

se exportam em grande quantidade. A carne era desprezada, pois não

havia quem a consumisse; a parca população local e o pequeno mer-

cado de Santa Catarina não davam conta dos imensos rebanhos. A ex-

portação de gado em pé não ia, ainda em princípios do séc. XIX,

além de 10 a 12.000 cabeças por ano que se destinavam a Santa Ca-

tarina e Curitiba. Abatiam-se as reses para tirar-lhes o couro, e

abandonava-se o resto. Não havia mesmo organização regular alguma,

e o gado ainda semibravio e vivendo à lei da Natureza era antes

"caçado" que criado. Dono dele era aquele em cujas terras se en-

contrava. Até fins do século XVIII os couros formariam a maior

parte da exportação da capitania.

Aos poucos foi-se organizando aquele caos. É quando surge uma

indústria que livraria o Rio Grande do ônus que lhe conferia sua

posição excêntrica relativamente aos mercados consumidores de car-

ne do país. É a do charque (nome local da carne-seca). O seu apa-

recimento no comércio da colônia coincidiria com a decadência da

pecuária nos setores do Nordeste, incapazes já de atenderem às ne-

cessidades do mercado. Ele encontra assim as portas abertas, e

dispõe de vantagens consideráveis: um rebanho imenso que se trata-

19 Somente no Rio Grande as propriedades rurais têm este nome, derivado do caste-
lhano.

va apenas de aproveitar. Não se perderá a oportunidade: em 1793 a

capitania já exportava 13.000 arrobas de charque; nos primeiros

anos do século seguinte alcançará quase 600.000. Excluído o rush

do ouro, não se assistira ainda na colônia a tamanho desdobramento

de atividades.
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A indústria do charque, as "charqueadas", localizam-se num

ponto ideal: entre os rios Pelotas e São Gonçalo, nas proximidades

ao mesmo tempo dos grandes centros criatórios da fronteira", e do

porto para o comércio exterior da capitania, o Rio Grande, que em-

bora muito deficiente, é o único possível. Esta localização da in-

dústria dará origem ao centro urbano que seria o primeiro da pro-

víncia depois da capital; mas primeiro absoluto em riqueza e pres-

tígio social: Pelotas.

A pecuária rio-grandense, no alvorecer do séc. XIX, não se a-

presenta em nível técnico muito superior ao do interior nordes-

tino. Estava-se ainda muito perto de suas tumultuarias origens que

vimos acima. O que às vezes obscurece a comparação é a superiori-

dade flagrante de suas condições naturais, a sua fartura, vista em

confronto com a miséria do Norte. Aquela superioridade empresta à

criação do Rio Grande um aspecto risonho que falta por completo em

sua concorrente. Além disto, estamos aqui num período ascensional,

enquanto lá, em plena fase de decomposição. Isto tudo precisa ser

levado em conta porque na realidade o papel do homem é idêntico

nas duas: o gado também vive aqui num estado semi-selvagem, num

quase abandono e à lei da natureza. Da forma em que veio do tempo

em que vagava sem dono, assim se incorporou às estâncias. Com a

industrialização e comercialização da carne, iniciadas lá por 1780

com as primeiras charqueadas, é que se começou a cogitar de alguma

coisa mais regular. Assim mesmo, ainda em 1810 observa-se que nas

melhores estâncias só uma quarta parte do gado era manso; o res-

tante vivia solto por ali, sem cuidado e em estado ainda bravio.

Vejamos mais de perto a organização das estâncias. Elas são,

como notei, muito grandes, resultado de abusos que não foi pos-

sível coibir. Algumas são de 100 léguas (3600 km
2
). Cada légua pode

suportar de 1.500 a 2.000 cabeças, densidade bem superior à que

encontramos no Norte e em Minas, o que mostra a qualidade dos pas-

tos. O pessoal compõe-se do capataz e dos peões, muito raramente

escravos; em regra, índios ou mestiços assalariados que constituem

o fundo da população da campanha. Seis pessoas no todo, em média,

para cada lote de 4 a 5.000 cabeças. Não há mesmo serviço perma-

nente para um pessoal mais numeroso; e nos momentos de aperto con-

correm peões extraordinários que se recrutam na numerosa população

volante que circula pela campanha, oferecendo seus serviços em to-

do lugar, participando do chimarrão e do churrasco
21
 aqui para ir

pousar acolá, sempre em movimento e não se fixando nunca. Hábitos

nômades e aventureiros adquiridos em grande parte nas guerras. Es-

ta gente socialmente indecisa concorre sobretudo ao "rodeio", o

20 Notemos que depois de 1805 o Rio Grande também exportará charque em grande
quantidade para Havana (Cuba).
21 Chimarrão é unia infusão de erva-mate, e constitui bebida popular muito difun-
dida no Sul. Churrasco é a carne de vaca assada no espeto, alimento de base na

região.

grande dia da estância que se repete duas vezes por ano, quando se

procede à reunião do gado, inspecção, marcação e castração. Isto

no meio de regozijos em que não faltam as carreiras de cavalos, o

grande esporte dos pampas.

Além disto, os serviços regulares são de pequena monta: quei-

mada dos pastos anualmente (para eliminação de pragas e para for-

necer ao gado a forragem mais tenra dos brotos novos); uma vigi-

lância relativamente fácil nestes campos despidos e limpos em que

a rês não se pode esconder como nas brenhas do Nordeste, e onde os

inimigos naturais são muito menos perigosos. O sal não é distribu-

ído regularmente: supre-o, em parte, o teor salino das pastagens

expostas aos ventos marítimos que sopram nestas planícies despro-

tegidas. Em suma, a pecuária rio-grandense nada tem de particular-

mente cuidadosa; é a natureza propícia que realiza o melhor, e o

homem confia mais nela que em seus esforços. E por isso a sua pro-

dução não é brilhante; o gado aí é largamente inferior ao platino,

cerca de 50% menos produtivo de carne apesar da semelhança das

condições naturais
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.

A indústria de lacticínios não é muito desenvolvida, e está

muito aquém da de Minas Gerais. Na exportação de fins do séc. XVI-

II o queijo figura nos quadros da capitania; mas no seguinte desa-

parece, e é substituído pela importação, embora em pequena quanti-

dade. Lembremos mais