Caio Prado Historia Economica do Brasil
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Caio Prado Historia Economica do Brasil

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que ao contrário do resto do país, aqui se

produz e se consome a manteiga; diferença com certeza atribuível

ao clima; só as temperaturas mais baixas do Rio Grande comportam

um produto tão facilmente deteriorável pelo calor. Quanto aos de-

mais subprodutos do boi, temos aqui, como nos demais casos simila-

res, o couro, os chifres e as unhas; encontramos ainda na exporta-

ção rio-grandense um gênero em que ela é única na colônia: o sebo,

empregado na indústria colonial para a fabricação da graxa que se

utiliza sobretudo na cordoaria e mais apetrechos dos navios, e na

manufatura de um grosseiro sabão. Esta produção de sebo se deve

sem dúvida à qualidade do boi, que não é só o musculoso animal do

sertão nordestino.

A par do gado bovino, criam-se no Rio Grande cavalos e sobre-

tudo muares. Na capitania só se empregam os primeiros, sendo des-

prezados os outros, e mesmo considerado deprimente montados. É in-

teressante fazer o paralelo entre as várias regiões do país nesta

matéria dos animais de trabalho utilizados. Encontramos o cavalo

no Norte, e a besta, no Centro; o cavalo reaparece no Sul. A topo-

grafia é certamente o fato decisivo nesta discriminação: às planí-

cies das chapadas do Norte e dos pampas meridionais, opõe-se a

montanha do Centro-Sul onde a besta, mais lenta, mas muito mais

forte e rude, presta melhores serviços. Mas quem a fornece é o Rio

Grande, e através dele, os países platinos. O Rio Grande exporta,

por terra naturalmente, de 12 a 15.000 bestas por ano em princí-

pios do século passado; mas é difícil apurar quantas destas são

naturais da capitania, e quantas contrabandeadas do Prata. De ca-

valos exportam-se apenas 4 ou 5 mil. O gado lanígero aparece em

certa quantidade; mas não para a produção de carne (a carne de

22 O gado platino dava de 16 a 20 arrobas de carne; o rio-grandense não ia além
de 8 a 10.

carneiro não se consome na colônia), mas de lã, com que se manufa-

turam os conhecidos ponchos de que se vestem os peões e as classes

baixas da população.

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Súmula Geral Econômica

no Fim da Era Colonial

A ERA colonial termina propriamente para o Brasil em 1808, em-

bora a separação oficial date de quatorze anos depois. É que na-

quela primeira data se transfere para a colônia o governo portu-

guês na pessoa do soberano reinante e de sua corte que fugiam aos

exércitos napoleônicos invasores do Reino europeu. Esta transfe-

rência tornará o Brasil efetivamente autônomo, e as conseqüências

do fato na sua economia são desde logo consideráveis. Convém por-

tanto, nas vésperas desse momento, fazer um balanço geral da obra

colonizadora, ver até que ponto chegara, e qual sua significação e

estrutura.

A colonização ocupava então, de uma forma efetiva, apenas uma

pequena parte do território que politicamente constituía o país.

Esta sua configuração política achava-se fixada pelos diferentes

tratados do séc. XVIII (em particular os de Madrid, de 1750, e de

Santo Ildefonso, de 1777), e sua imensidade, mais de 8 e meio mi-

lhões de km
2
, devia-se justamente à dispersão do povoamento que se

espalhara muito, deixando por isso grandes vácuos onde às vezes

nem o trânsito ou as comunicações denotavam a presença do colono.

Era apenas de 3 milhões o número de habitantes; como se vê, pouco

mais de 0,3 por km
2
.

A maior concentração do povoamento é na faixa costeira; mas

esta mesmo largamente dispersa. O que havia eram núcleos de maior

ou menor importância distribuídos desde a foz do rio Amazonas até

os confins do Rio Grande do Sul. Mas entre estes núcleos medeava o

deserto, que em regra não servia nem ao menos para as comunicações

que se faziam de preferência por mar. Três daqueles núcleos são de

grande importância: concentram-se em torno de Pernambuco, Bahia e

Rio de Janeiro. Dois outros seguem num segundo plano: Pará e Mara-

nhão. Vem depois uma infinidade de outros de expressão pequena, se

não ínfima, e distribuindo-se com freqüência vária entre aqueles

núcleos maiores acima referidos, e para o sul do Rio de Janeiro.

Se não havia continuidade neste povoamento, havia pelo menos uma

sucessão regular de centros povoados, um colar de núcleos coloni-

ais que mantinham a coesão desta longa faixa de território litorâ-

neo de quase 6.000 km de extensão.

Para o interior, a irregularidade do povoamento é muito maior.

O que encontramos são apenas manchas demográficas, largamente dis-

persas e distribuídas, à primeira vista, sem regra alguma. No Ex-

tremo-Norte (na Amazônia), vimos o povoamento infiltrar-se ao lon-

go dos cursos dágua numa ocupação linear e rala. No sertão nordes-

tino são as fazendas de gado que concentram a população nas regi-

ões de maiores recursos naturais, em particular da água, tão es-

cassa neste território semi-árido. No Brasil central, o povoamento

se condensa em torno das explorações auríferas que se espalham

largamente sobre 2.000.000 km
2
 de superfície, concentrando-se mais

em três áreas distintas: Minas Gerais em primeiro e principal lu-

gar; Goiás e Mato Grosso (norte), nesta mesma ordem, depois. Para

o sul dos centros mineradores encontramos em primeiro lugar São

Paulo, misto de zona agrícola e centro de comunicações que embora,

até o fim da colônia, de importância secundária, começava já a se

destacar e seria mais tarde a zona mais próspera, mais rica e mais

povoada do Brasil. Finalmente para o sul, o povoamento quase desa-

parece no planalto interior para ir reaparecer no Extremo-Sul onde

se localizam as estâncias de gado do Rio Grande.

É esta, em linhas gerais, a distribuição do povoamento brasi-

leiro nos primeiros anos do século passado. Os diferentes setores

que o compõem têm uma atividade econômica variável, vimo-lo já nos

capítulos anteriores: as grandes lavouras tropicais, a cana-de-

açúcar, o tabaco, o arroz, o anil, o algodão, ao longo do litoral;

aquelas primeiras mais próximas do mar, a última um pouco mais ar-

redada para o interior; a colheita de produtos naturais (sobretudo

o cacau) no Extremo-Norte; a mineração do ouro e dos diamantes no

Centro-Sul; a pecuária no sertão do Nordeste e no Extremo-Sul. Es-

tes são em suma, desprezados os pormenores, os gêneros de vida e-

conômica da população colonial. Um traço os aproxima e sintetiza:

é o caráter geral da economia brasileira, já assinalado na intro-

dução deste livro, e que permanece apesar de todas as vicissitudes

e incidentes de sua evolução; e que vem a ser a exploração dos re-

cursos naturais de um amplo território em proveito do comércio eu-

ropeu. Não se chegara a constituir na era colonial uma economia

propriamente nacional, isto é, um sistema organizado de produção e

distribuição de recursos para a subsistência material da população

nela aplicada; mas ficara-se, modificando apenas a extensão do

processo, nesta exploração comercial de um território virgem em

proveito de objetivos completamente estranhos à sua população, e

em que essa população não figura senão como elemento propulsor

destinado a mantê-la em funcionamento.

Este é o traço que sintetiza a economia brasileira no momento

em que o país alcança a sua autonomia política e administrativa.

Todas as suas atividades giram em torno deste fim precípuo de for-

necer ao comércio internacional alguns produtos tropicais de alto

valor mercantil, metais e pedras preciosas. O mais é secundário,

acessório, e serve apenas para tornar possível a realização daque-

le fim. Nos capítulos anteriores já abordei as principais daquelas

atividades que constituem o nervo econômico da colonização. Mas

não é sem interesse sintetizar