Caio Prado Historia Economica do Brasil
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Caio Prado Historia Economica do Brasil

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aqui algumas outras de segundo pla-

no. Teremos assim um quadro aproximadamente completo da economia

colonial.

INDÚSTRIAS EXTRATIVAS

Além da mineração do ouro e dos diamantes, e da coleta de pro-

dutos naturais na Amazônia, é interessante lembrar algumas outras

produções extrativas que representam certo papel na economia colo-

nial, mas que, por sua particularidade e vulto reduzido, não pode-

riam ser aqui tratadas com desenvolvimento. São elas a da madeira,

da pesca da baleia, do sal e salitre, e finalmente da erva-mate.

De madeiras, já vimos a utilização do pau-brasil, que consti-

tuiu a primeira exploração regular do território brasileiro. Tal

importância é insignificante. Madeiras para construção também fo-

ram sempre exploradas. Encontram-se espécies de esplêndida quali-

dade nas matas do litoral e na Amazônia. As desta última, contudo,

se acham de tal forma dispersas em florestas densas onde preponde-

ram outras espécies não utilizáveis e basta vegetação subarbores-

cente, que o seu aproveitamento econômico é difícil. Serviram por

isso muito mais as matas litorâneas de melhor qualidade e acesso

mais fácil. Sua utilização (além do consumo local) é sobretudo pa-

ra a construção naval, e houve estaleiros de relativa importância

na Bahia e no Maranhão. Em fins do séc. XVIII as madeiras do Bra-

sil passam a um importante plano das cogitações da administração.

Desleixadas até então, apesar das leis que restringiam o desperdí-

cio e que nunca foram efetivamente aplicadas, elas avultam por es-

ta época nas providências administrativas da metrópole; sobretudo

porque se tratava de reconstruir a decadente e já quase extinta

marinha portuguesa. Liga-se isto ao grande programa de reformas e

reerguimento do Reino, lançado por Pombal (que governou como mi-

nistro onipotente de D. José I de 1750 a 1777), continuado parci-

almente e mal depois dele, e que procurava aproveitar-se da posi-

ção singular do Reino nos mares, livre das hostilidades em que se

debatiam as demais e mais poderosas potências ultramarinas da Eu-

ropa. Para aquela restauração naval portuguesa, a colônia america-

na devia contribuir com suas madeiras. E de fato assim se fez, ob-

servando-se no Brasil um recrudescimento de atividades neste ter-

reno, tanto no corte de madeiras como na construção de embarca-

ções, algumas de certo vulto. A indústria, no entanto, não tomou

pé. Por falta de técnica e de organização eficiente, manteve-se

estacionária depois do primeiro surto, e vegetou daí por diante. O

aproveitamento das madeiras do Brasil tornar-se-á mais intenso de-

pois de 1810, quando é dada aos ingleses a autorização de explorar

as matas da colônia.

A pesca da baleia teve na colônia seus dias de grandeza. Exis-

tiam na segunda metade do séc. XVIII diferentes armações para a

pesca espalhadas da Bahia até Santa Catarina, sendo estas últimas

as mais importantes. Constitui a pesca monopólio da coroa, conce-

dendo-se por contrato a concessionários privilegiados. Chegou a

ter certa importância, mas decaiu nos últimos anos do século quan-

do os baleeiros ingleses e norte-americanos começaram a operar nas

ilhas Falkland, impedindo que as baleias nas suas migrações hiber-

nais chegassem, como era dantes seu costume, até as costas do Bra-

sil. Reduziram eles aliás, consideravelmente, a espécie pela de-

vastação praticada em larga escala e com processos aperfeiçoados

de pesca. Em 1801, não encontrando mais pretendentes ao contrato

das baleias, a coroa abandona o monopólio, tornando-se a pesca li-

vre. Ela ainda se manteve, embora sempre em declínio acentuado,

até desaparecer lá pelo terceiro decênio do século passado.

Sobre o sal já fiz referência à exploração das salinas do rio

São Francisco (cap. 8). Sal de rocha também se extraía em Mato

Grosso, mas em escala ínfima. Mais importante é a produção de sal

marinho, que se fazia em vários pontos da costa, desde o Maranhão

até o Rio de Janeiro. O sal constituía monopólio da coroa, tendo

sido um dos mais pesados e onerosos que a colônia teve de supor-

tar, pois afeta um gênero de primeira necessidade, encarecendo-o

consideravelmente. Para defender o monopólio e proteger produção

similar portuguesa (a indústria salineira foi uma das mais impor-

tantes de Portugal) dificultava-se o mais possível a produção bra-

sileira, e esta só se fazia contra obstáculos enormes e persegui-

ção tenaz. Se se manteve apesar disto, é que a falta de sal e seu

preço, bem como o abuso e desleixo dos contratadores eram tais que

a repressão ao contrabando se tornava difícil, e de uma forma com-

pleta, impossível.

Explorou-se também na colônia o salitre. Desde meados do séc.

XVIII encontram-se iniciativas oficiais neste sentido no interior

da Bahia onde se descobrem ocorrências, se bem que pobres, do mi-

neral. Mas não tiveram sucesso. Mais. tarde, por iniciativa parti-

cular, extraiu-se o salitre em escala comercial nas margens de um

pequeno afluente do rio São Francisco, na Bahia; e também na parte

setentrional de Minas Gerais. A produção, sobretudo deste último

setor, chegou a certo vulto, e fornecia as manufaturas reais de

pólvora que havia em Vila Rica (hoje cidade de Ouro Preto) e no

Rio de Janeiro. Exportava-se também, o que foi proibido em 1810,

com grave dano da indústria, que aliás já se achava decadente pelo

esgotamento das jazidas.

A erva-mate (Ilex paraguayensis, St. Hilaire)
23
 é encontrada em

estado nativo nas matas do rio Paraná, bem como nos Campos Gerais

do sul da colônia (território do atual Estado do Paraná). Foi ex-

plorada desde o séc. XVII pelos jesuítas, que tiveram aí algumas

das suas missões indígenas. A colheita e preparação da erva-mate

tomou depois vulto, e constituía uma das principais ocupações no

distrito de Curitiba. Interessante notar que o consumo do produto

se vulgarizou muito mais nos países platinos; Buenos Aires e Mon-

tevidéu serão os principais compradores da produção brasileira. No

Brasil, afora as regiões produtoras, ele era desconhecido; e até

hoje ainda se consome muito pouco no país.

ARTES E MANUFATURAS

É preciso reservar aqui um parágrafo especial às artes mecâ-

nicas e às manufaturas. Não que tivessem importância apreciável,

23 A infusão das folhas da erva-mate constitui uma bebida semelhante ao chá, de
largo consumo no sul do Brasil, nos países platinos e no Paraguai.

pois a maior parte dos produtos manufaturados de consumo da colô-

nia se importavam do exterior, e a produção local é insignifican-

te; mas porque representam uma função particular com característi-

cas próprias, bem como porque compreendem uma categoria à parte e

individualizada da sociedade colonial.

Precisamos começar nesta matéria por distinguir os centros ur-

banos da zona rural. Os ofícios mecânicos se exercem diferentemen-

te nestes dois setores. Fora das grandes aglomerações, de que me

ocuparei depois, as artes mecânicas e industriais constituem um

simples acessório dos estabelecimentos agrícolas ou de mineração.

Para o manejo destes, ou para atender às necessidades de seus nu-

merosos moradores — proprietário e sua família, escravos e outros

trabalhadores — torna-se necessário por motivo das distâncias que

os separam dos centros populosos, mercê da extensão dos domínios,

ou por outras considerações de ordem prática e econômica, a pre-

sença de toda uma pequena indústria de carpinteiros, ferreiros e

outros, bem como, freqüentemente, até de manufaturas de pano e

vestuário. Em certas regiões ainda, como em Minas Gerais, onde há

ocorrências de minérios de ferro, encontra-se mesmo, por vezes,