Caio Prado Historia Economica do Brasil
280 pág.

Caio Prado Historia Economica do Brasil

Disciplina:Formação Econômica do Brasil602 materiais7.831 seguidores
Pré-visualização50 páginas
uma pequena metalurgia para consumo interno do estabelecimento.

Esta pequena indústria doméstica entregue a escravos mais há-

beis,
24
 ou às mulheres da casa — como fiação, tecelagem e costura —

, embora obscura e passando à primeira vista despercebida, tem seu

papel na vida da colônia, pois completa essa autonomia dos grandes

domínios rurais, já assinalada mais acima noutros setores, e que

representa traço tão característico e importante da vida econômica

e social da colônia. Além disto, constitui o embrião de uma indús-

tria de mais vulto e expressão que infelizmente a política da me-

trópole, bem como outros fatores que assinalarei adiante, fizeram

gorar no seu nascedouro.

Como atividades autônomas, os ofícios aparecem, fora dos cen-

tros urbanos, nestes artesãos ambulantes que de porta em porta o-

ferecem seus serviços. Destes, os mais freqüentes são os ferreiros

que se ocupam sobretudo em calçar as bestas das tropas que cir-

culam pelo interior. Mas é naturalmente nos centros urbanos de

maior importância que as profissões mecânicas são mais numerosas;

profissões propriamente, desligadas de outras atividades e autôno-

mas, como não se dá em regra no campo.

Ocupam-se nelas, geralmente, os mulatos, que são, ao que pa-

rece, os mais hábeis entre os nacionais. Como é regra universal da

época, encontram-se as profissões organizadas em corporações. Nada

há de particular neste terreno que nos diga respeito: as cor-

porações são dirigidas por juízes e escrivães eleitos por seus pa-

res, e funcionam, no mais, em princípio pelo menos, como suas si-

milares da Europa. Em princípio apenas, porque os laços são menos

estreitos, a regulamentação mais frouxa e a fiscalização menos ri-

gorosa; em suma, uma liberdade profissional muito mais ampla e a-

inda desconhecida na Europa.

Os artesãos coloniais fazem-se geralmente auxiliar por escra-

24 No caso da metalurgia, sabe-se que muitos povos africanos a praticavam no seu
continente. Os escravos trouxeram para cá sua habilidade nativa que prestou

grandes serviços aos colonos.

vos. Não pode haver dúvida de que tal oportunidade que lhes ofere-

ce o regime servil vigente tenha tido influência muito prejudicial

na formação profissional da colônia, pois contribui para dispensar

a aprendizagem de meninos e adolescentes, o que neste terreno, co-

mo se sabe, sempre teve em toda parte, e ainda tem, papel conside-

rável na educação das novas gerações de artesãos e no desenvolvi-

mento das artes mecânicas. Outra categoria de artífices — embora

mais freqüente em atividades brutas e de esforço puramente físico

— são "os escravos de serviço", isto é, que seus senhores alugam,

fazendo disto um ramo particular de negócio muito difundido nas

grandes cidades coloniais. Existem mesmo escravos educados e pre-

parados especialmente para este fim.

Pequenas indústrias indispensáveis, bem como outras que cons-

tituem especialidades locais, disseminam-se pela colônia. São, en-

tre elas, as olarias para a fabricação de telhas
25
 e as caieiras

para a preparação da cal. No litoral empregam-se nesta preparação

como matéria-prima as conchas de ostreiras, os sambaquis, que são

abundantes em alguns setores da costa brasileira até hoje.

A cerâmica é largamente disseminada. É uma arte que os índios

conheciam, e embora perdessem com o contacto dos brancos muito da

sua habilidade e espontaneidade nativas, foram nela empregados em

grande escala pela colonização. Os curtumes se disseminam nas re-

giões ou centros de grande comércio de gado: Rio Grande do Sul,

Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro. Acrescentem-se a esta lista de

indústrias algumas manufaturas de cordoaria, como as do alto Ama-

zonas, onde se emprega na fabricação a fibra da piaçabeira, consi-

derada mais resistente que o cânhamo; os cabos e cordas aí produ-

zidos se empregavam nos arsenais de Belém, e se exportavam mesmo

em pequena quantidade para o exterior.

A lista poderia ser alongada; mas o que aí está serve para dar

uma idéia do caráter da indústria colonial em princípios do século

passado. Destaquemos dois setores mais importantes: as manufaturas

têxteis e do ferro. Em ambas a colônia contava com matéria-prima

abundante e um mercado local relativamente grande. Já assinalei

estas indústrias nos grandes domínios, incluídos na sua organiza-

ção e produzindo só para eles. Mas iniciadas aí, sua tendência era

para se libertarem destes estreitos limites domésticos, tornarem-

se autônomas, verdadeiras manufaturas próprias e comercialmente

organizadas. Isto é particularmente o caso da indústria têxtil.

Sobretudo em Minas Gerais, e também na capital, Rio de Janeiro,

aparecem na segunda metade do séc. XVIII manufaturas autônomas e

relativamente grandes. Mas seu progresso não será de longa dura-

ção. Temendo por motivos políticos o desenvolvimento da indústria

colonial, e alarmada também com a concorrência que iria fazer ao

comércio do Reino, a metrópole manda extinguir em 1785 todas as

manufaturas têxteis da colônia com exceção apenas das de panos

grossos de algodão que serviam para vestimenta dos escravos ou se

empregavam em sacaria. Era o golpe de morte na indústria da colô-

25 Mas não de tijolos cozidos que não são empregados na construção colonial; em
lugar deles emprega-se simples barro amassado, sustentado por um engradamento de

madeira, nas mais rústicas, ou taipa (barro amassado e armado com formas), nas

melhores; bem como o adobe, que é o tijolo cru apenas seco ao sol.

nia; e isto apesar da exceção que a lei incluíra, à sombra da qual

se pôde manter um fio de vida precária e incerta.

Quanto à indústria do ferro, não ficou ela atrás na persegui-

ção que lhe moveu a administração colonial. Favorecia-a, em certas

regiões de Minas Gerais, não só a abundância de minérios ricos e

facilmente exploráveis, como o alto preço do ferro e das ferramen-

tas, onerados como estavam por direitos elevadíssimos de entrada

no país e na capitania, bem como pela dificuldade de transporte da

mercadoria. Estas circunstâncias muito estimulavam a indústria,

proporcionando-lhe bastante perspectivas; o consumo de ferro na

mineração era avultado. E não fosse a tenaz oposição oficial, ela

teria com certeza tomado importância. Mas esta foi tremenda; o

simples fato de saber fundir o metal era suficiente muitas vezes

para tornar alguém suspeito de idéias extremadas e subversivas,

sujeitando a vítima a toda sorte de perseguições. Temia-se a con-

corrência numa mercadoria que embora não fosse natural do Reino,

dava grandes lucros ao seu comércio; e se temia também a sempre

perigosa independência econômica da colônia, prelúdio da política.

A metalurgia foi entretanto mais feliz que a manufatura de te-

cidos, e beneficiou-se antes desta aragem de liberalismo e maior

clarividência nos assuntos coloniais que começa a soprar na me-

trópole desde os últimos anos do séc. XVIII. Já em 1795 permite-se

francamente o estabelecimento das manufaturas de ferro. Mas depois

de sofrer tamanha perseguição, não era de esperar desde logo um

surto de grandes proporções. Contudo as forjas em que se trabalha-

va com ferro indígena, e também com o importado, se multiplicaram

em Minas Gerais produzindo instrumentos de trabalho e ferraduras,

os gêneros de maior consumo no ramo.

Lembremos ainda o caso similar do ofício de ourives, que tam-

bém sofreu tenaz oposição porque facilitava o descaminho do ouro,

permitindo fraudar o pagamento do quinto. O exercício da profissão

foi proibido em Minas Gerais em 1751, sendo todos os ourives man-

dados sair da capitania. Em