Caio Prado Historia Economica do Brasil
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Caio Prado Historia Economica do Brasil

Disciplina:Formação Econômica do Brasil653 materiais8.044 seguidores
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os confli-

tos internacionais se agravam, arrastando as monarquias ibéricas,

elas não resistirão ao choque, e seu império se desagrega. Desta

desagregação sairá a independência das colônias americanas; e para

o mundo em geral, uma nova ordem. Terá sido removido afinal este

obstáculo de dois impérios imensos que fechados hermeticamente

dentro de um conservantismo colonial obsoleto, estavam obstruindo

a marcha dos acontecimentos mundiais. Aos estanques impérios ibé-

ricos substituir-se-ão as livres nações ibero-americanas, abertas

ao comércio e intercurso do universo. Desafogava-se o mundo, livre

daqueles tropeços imensos que lhe embargavam o desenvolvimento.

A par destas forças exteriores e gerais que condicionam a li-

bertação do Brasil, existem outras, internas, que lhes vieram ao

encontro. Analisei no capítulo anterior a situação da colônia re-

lativamente à sua metrópole, e por aí já se pôde verificar que

Portugal chegara nestas relações ao limite extremo de sua capaci-

dade realizadora e colonizadora. A sua obra, neste terreno, acha-

va-se terminada; e o Reino se tornara em simples parasito de sua

colônia. Protegido pelo monopólio comercial, impunha-se como in-

termediário forçado das suas transações, tanto na exportação como

na importação. Simples intermediário, de fato, porque o Reino não

era nem consumidor apreciável dos produtos coloniais que se desti-

navam sobretudo a outros mercados, nem fornecedor dos artigos con-

sumidos no Brasil. Simples intermediário imposto e parasitário.

Não é difícil avaliar como seria pesado para a colônia este

domínio de uma metrópole empobrecida, e de recursos econômicos mí-

nimos. Nem aquele papel medíocre de mero intermediário ela estava

em condições de preencher satisfatoriamente. A arruinada marinha

mercante portuguesa atendia muito insuficientemente às necessida-

des da colônia; o que explica aliás o escandaloso contrabando re-

ferido anteriormente e a tolerância com que era admitido. E para

proteger e manter este ineficiente comércio, Portugal via-se na

contingência de impor à colônia as mais drásticas e severas medi-

das restritivas; impedir que ela substituísse com produção própria

tudo quanto alimentava o comércio marítimo metropolitano: manufa-

turas, sal e outros gêneros vitais para a economia brasileira. Sem

contar outros privilégios e monopólios que embaraçavam considera-

velmente seu progresso.

O regime colonial representa assim no momento que nos ocupa,

um obstáculo intolerável oposto ao desenvolvimento do pais. A si-

tuação se tornara tanto mais grave que por efeito dos estímulos

que vimos anteriormente, as forças produtivas do Brasil se encon-

travam em franca expansão; sentiam-se assim muito mais vivamente,

às restrições de que o país era vítima. Será pelo favor de cir-

cunstâncias internacionais que este sistema de restrições cairá

por terra; a começar pelo monopólio do comércio externo que é abo-

lido em virtude de circunstâncias quase fortuitas. Mas, iniciada

por aí a desagregação do regime colonial, o resto não tardará. Se-

rá toda a estrutura que nos vinha de três séculos de formação co-

lonial que é abalada: depois do monopólio do comércio externo e

dos demais privilégios econômicos, virão os privilégios políticos

e sociais, os quadros administrativos e jurídicos do país. Mais

profundamente ainda, será abalada a própria estrutura tradicional

de classes e mesmo o regime servil. Finalmente é o conjunto todo

que efetivamente fundamenta e condiciona o resto que entra em cri-

se: a estrutura econômica básica de um país colonial que produz

para exportar e que se organizara, não para atender a necessidades

próprias, mas para servir a interesses estranhos. É na base das

contradições geradas por este sistema que resultará a paulatina

transformação do regime, em todos seus aspectos, de colônia em na-

ção.

Todas estas transformações encontram-se mais ou menos maduras

quando pelo favor de circunstâncias de caráter internacional que

ocorrem nos primeiros anos do século passado, apresenta-se oportu-

nidade favorável à sua eclosão. Desencadeiam-se então as forças

renovadoras latentes que daí por diante se afirmarão cada vez mais

no sentido de transformarem a antiga colônia numa comunidade na-

cional e autônoma. Será um processo demorado — em nossos dias ain-

da não se completou —, evoluindo com intermitências e através de

uma sucessão de arrancos bruscos, paradas e mesmo recuos.

É esta a linha de desenvolvimento que caracteriza a evolução

brasileira desde princípios do século passado. Restringindo-nos

embora unicamente a seus aspectos econômicos (que são o objeto

deste trabalho), procuraremos acompanhá-la neste capítulo e nos

que seguem.

Em 1807, para forçar a adesão de Portugal ao bloqueio conti-

nental decretado contra a Inglaterra, os exércitos napoleônicos

invadem e ocupam o Reino. O Regente D. João, que governava em nome

de sua mãe demente, a Rainha D. Maria, resolve, depois de longas

hesitações entre a adesão ao sistema napoleônico e a fidelidade à

sua aliada tradicional, a Inglaterra, emigrar para sua colônia a-

mericana. Fugindo diante do invasor, transporta-se com sua corte,

grande parte do funcionalismo e uma comitiva imensa, (um total de

cerca de 10.000 pessoas) para o Rio de Janeiro, que se transforma

assim, de um momento para outro, em sede da monarquia portuguesa.

Este acontecimento, das mais largas conseqüências, seria o

precursor imediato da independência do Brasil. É impossível deter-

mo-nos aqui, sem sair do nosso assunto, nas diferentes reper-

cussões de ordem política e social que ocasionou a transferência

da corte portuguesa para o Rio de Janeiro. Interessam-nos somente

as econômicas; são aliás as mais importantes e fundamentais. Dei-

xando o Reino europeu ocupado pelos franceses, e fixando-se na co-

lônia, o soberano rompia efetivamente todos os laços que ligavam o

Brasil à sua metrópole. O mais seguiria quase automaticamente des-

ta situação imprevista e revolucionária.

É assim que o Regente, apenas desembarcado em terra brasi-

leira, e ainda na Bahia onde arribara em escala para o Rio de Ja-

neiro, assina o decreto que abre os portos da colônia a todas as

nações, franqueando-os ao comércio internacional livre. Destruía-

se assim, de um golpe, a base essencial em que assentava o domínio

colonial português. Medida de tamanho alcance, tomada assim de a-

fogadilho, explica-se pelas circunstâncias do momento, pois o co-

mércio português ultramarino achava-se virtualmente interrompido

pela ocupação inimiga do território metropolitano; e a menos de

isolar completamente o Brasil do mundo exterior, não havia senão

franqueá-lo ao comércio e à navegação de outros países. A medida

foi aliás tomada em caráter provisório (o texto do decreto o de-

clara expressamente); e isto já mostra que não foi ditada por ne-

nhuma alta consideração política ou por uma nova orientação impri-

mida deliberadamente aos negócios coloniais, mas por simples con-

tingências imperiosas do momento. Manter-se-á em vigor mesmo de-

pois que os exércitos napoleônicos são definitivamente expulsos do

território português (1809); mas isto é porque já não era mais

possível voltar atrás.

É preciso lembrar aqui o papel da Inglaterra em todos estes

acontecimentos. No conflito com Napoleão, que depois da ascensão

de José Bonaparte ao trono espanhol e do tratado de Tilsit reunira

a Europa toda no seu sistema de dominação continental, restara à

Inglaterra apenas o aliado português. Aliado precioso, não somente

pela brecha que por aí se abrira no bloqueio napoleônico, como pe-

la base que os portos portugueses ofereciam para a esquadra britâ-