Caio Prado Historia Economica do Brasil
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Caio Prado Historia Economica do Brasil

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nica e suas operações navais. A Inglaterra lutou por isso até o

fim para conservar Portugal na sua órbita de influência. Não pôde

contudo oferecer-lhe auxílio eficaz contra os exércitos franceses

que se apossam, quase sem resistência, do pequeno Reino.

Mas esta derrota será bem aproveitada pelos ingleses. Perdendo

o Reino europeu, tratarão de compensar-se com sua grande colônia

americana. Situação contemporânea e semelhante é a da Espanha com

a ascensão de José Bonaparte a seu trono. A Inglaterra voltar-se-á

imediatamente para as colônias espanholas, e estava se preparando

para intervir nelas quando a revolução na península modificou os

planos primitivos. É aliás o próprio exército que se aprontava na

Irlanda com destino à América que servirá na guerra peninsular.

Assim mesmo tentará aquelas duas pequenas expedições contra Buenos

Aires e Montevidéu que a história registra.

O plano inglês de compensar-se de suas derrotas no continente

europeu com a conquista das colônias ibero-americanas é óbvio. No

caso do Brasil, as circunstâncias favoreceram e facilitaram este

plano. Não precisará aí de exércitos e de intervenções armadas,

pois o soberano português, temendo a sorte de Fernando VII de Es-

panha, entendeu mais conveniente aceitar o oferecimento inglês e

embarcar sob proteção britânica para o Brasil. Conservava com isto

sua coroa e títulos, mas terá cedido ao aliado inglês a sua inde-

pendência e liberdade de ação. A monarquia portuguesa não será daí

por diante mais que um joguete nas mãos da Inglaterra. O soberano

permanecerá no Rio de Janeiro sob a guarda de uma divisão naval

inglesa, aí estacionada permanentemente; e na Europa, serão os in-

gleses que se incumbirão de dirigir a luta contra a ocupação fran-

cesa. Um general inglês, Beresford, será o comandante supremo do

exército português e o efetivo governador do Reino libertado em

1809.

A Inglaterra se prevalecerá largamente deste domínio; no que

se refere ao Brasil, cuidará zelosamente de preservar a liberdade

do seu comércio de que se fizera a grande beneficiária. A abertura

dos portos brasileiros representa assim uma concessão que embora

de caráter provisório, estava assegurada pelos dominantes interes-

ses ingleses. Fazia-se impossível o retorno ao passado. E o Brasil

entra assim definitivamente na nova etapa do seu desenvolvimento.

Desfazia-se a base essencial em que assentava o domínio metropoli-

tano e que consistia, vimo-lo anteriormente, precisamente no mono-

pólio do comércio colonial. Com a abertura dos portos brasileiros

e a concorrência estrangeira, sobretudo inglesa, contra que Portu-

gal não se achava em condições de lutar, estava abolido de um gol-

pe o que havia de realmente substancial na dominação metropolita-

na. Daí por diante esta se pode considerar virtualmente extinta.

A situação ainda se agrava com o tratado de comércio firmado

com a Inglaterra em 1810. O soberano português concede aí tais fa-

vores à sua aliada, que praticamente exclui Portugal do comércio

brasileiro. No decreto de abertura dos portos fixara-se um direito

geral de importação para todas as nações de 24% ad valorem. As

mercadorias portuguesas seriam beneficiadas pouco depois com uma

taxa reduzida de 16%. Pelo tratado de 1810, a Inglaterra obterá

uma tarifa preferencial de 15%, mais favorável portanto que a pró-

pria outorgada a Portugal. Tão estranha e absurda situação, que

mostra a que ponto chegara a subserviência do soberano português e

o predomínio da Inglaterra nos negócios da monarquia, manter-se-á

até 1816, quando se equipararão as tarifas portuguesas às ingle-

sas. Mas mesmo nestas condições de igualdade, Portugal não poderá

lutar, com seus parcos recursos, contra o admirável aparelhamento

comercial da Inglaterra, amparada por uma indústria nacional então

sem paralelo no mundo e uma marinha mercante sem concorrentes. O

comércio e a navegação portugueses serão praticamente excluídos do

Brasil.

Aos ingleses virão juntar-se, logo depois da paz na Europa

(1815), as demais nações, a França em particular. Mas o que Portu-

gal perdia, ganhava o Brasil. Aos precários recursos do pobre e

rotineiro comércio português, mantido até então unicamente pelo

privilégio do monopólio, substituem-se as largas possibilidades de

um livre intercâmbio com todas as nações do mundo.

Paralelamente, ocorrem outras circunstâncias determinadas pela

fixação da corte portuguesa no Rio de Janeiro que vão estimular as

atividades econômicas do Brasil. Tornado em centro da monarquia,

para aí aflui boa parte dos recursos e se concentram as atividades

do império português, que embora tão decadente de seu antigo es-

plendor, ainda conservava alguns domínios em todas as partes do

mundo: além da Europa e América, na África e Ásia. A corte e a

presença do soberano constituirão um ponto de referência e atração

que centraliza no Rio de Janeiro a vida política, administrativa,

econômica e financeira da monarquia. Também para boa parte da Amé-

rica meridional a capital brasileira será um centro de atração. As

colônias espanholas que compunham os antigos vice-reinados de Bue-

nos-Aires e do Peru, separadas da sua metrópole e ainda mal cons-

tituídas em nações independentes, orientam-se comercialmente, e

muitas vezes politicamente também, para o Rio de Janeiro que arvo-

rava o título prestigioso de sede de um trono europeu, e onde se

instalara o quartel-general diplomático e do comércio inglês nesta

parte do mundo. As íntimas relações do Brasil com aquelas colônias

deixaram um testemunho concreto e sensível na circulação monetária

do país que nesta época se constituirá em grande parte de pesos

espanhóis de prata cunhados no Peru e que se batiam no Brasil com

as armas e os valores portugueses.
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Além destes fatores que estimulam as atividades brasileiras, a

fixação da corte no Rio de Janeiro terá na política do soberano

influência muito favorável para a colônia. Ela será muitas vezes

impressionada pelo meio e pelo ambiente em que se tomam as delibe-

rações; pela ação dos interesses que cercam mais de perto o Rei, e

que embora portugueses de origem, se vão identificando com a colô-

nia pela longa permanência nela das principais personagens da mo-

narquia. A evolução no sentido de ligar-se cada vez mais a esta

nova pátria do exílio que é o Brasil, com o esquecimento paralelo

do Reino europeu, é sensível em muitos daqueles elementos mais

chegados ao trono e portanto de maior influência e prestígio polí-

ticos. A permanência da corte se prolongará por treze anos (1808-

1821). Até 1815, o estado de guerra na Europa atemorizará o tímido

29 Os pesos espanhóis eram obtidos com o valor de 960 réis; adquiriam-se contudo
por 820 a 830 réis, deixando pois uma boa margem de lucro para o Erário público.

Regente que não ousa por isso retornar à pátria abandonada, embora

ela estivesse livre de inimigos havia seis anos. Depois daquela

data, já os interesses de boa parte de sua larga comitiva de fi-

dalgos e funcionários estarão de tal forma ligados ao Brasil, que

se formará entre eles um forte partido oposto ao retorno. O Reino

europeu, empobrecido e devastado pela guerra, não oferecia mais

grandes atrativos; sobretudo em contraste com a colônia, jovem,

pujante e cheia de promessas tentadoras. Muitas daquelas altas

personagens terão adquirido propriedades no Brasil; outras casarão

nas mais ricas famílias da colônia orgulhosas de se ligarem com

grandes nomes da nobreza e da administração; boa parte organizará

aqui definitivamente sua vida... Um dos mais influentes políticos

portugueses da época, o Conde da Barca, que