Caio Prado Historia Economica do Brasil
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Caio Prado Historia Economica do Brasil

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os estrangeiros uma hos-

tilidade geral. É o caso em particular dos ingleses, mais numero-

sos e de espírito mercantil mais acentuado, e que cedo se tornam

verdadeiros árbitros da vida econômica do país. Além do comércio

que lhes caberá nos seus setores mais importantes, serão deles as

primeiras grandes empresas e iniciativas, como na mineração; e são

deles ainda os empréstimos públicos que teriam tamanho papel na

evolução econômica do Brasil. É em grande parte em função dos in-

teresses comerciais ingleses que se disporá a nova economia brasi-

leira.

Ainda ocorrem outras circunstâncias provocadoras de desa-

justamento e derivadas da nova situação criada com a transferência

da corte portuguesa para o Rio de Janeiro. A súbita transformação

dos hábitos, a introdução de um conforto e luxo desconhecidos ain-

da na colônia e trazidos por estrangeiros e seus costumes, bem co-

mo pelo exemplo de uma corte e seus fidalgos que todo mundo quer

naturalmente imitar, desequilibrarão as finanças de certas classes

da população que conformadas até então com a mediocridade da vida

colonial, tomam-se subitamente de aspirações e sentem necessidades

antes ignoradas, embora estivessem muitas vezes mal preparadas pa-

ra isto. A vaidade, sobrepondo-se a quaisquer outras considera-

ções, contará com um fator econômico de primeira ordem. Não serão

poucos aqueles que se arruinarão na ânsia de se aproximarem da

corte e nela figurarem, alcançarem títulos, condecorações e honra-

rias. Situação que o Rei, sempre em aperturas financeiras, não

deixará de explorar largamente.

Será este mais um fator a ser contado nas agitações e intran-

qüilidade que acompanham o processo da emancipação política da co-

lônia e se prolongam depois até meados do século. Mas não é apenas

no setor privado que observaremos o desequilíbrio financeiro que

provoca a irrupção de novas necessidades antes desconhecidas e que

se tornam em pesado fardo. Mais grave ainda será o que se passa

nas finanças públicas. Transferindo-se para o Brasil, o governo

metropolitano trará consigo um complexo aparelhamento administra-

tivo que substituirá bruscamente, sem transição de qualquer espé-

cie, a reduzida administração que até então existia na colônia.

Instalam-se aqui grandes repartições públicas e serviços da cor-

te.
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 Centenas de funcionários, sem contar a chusma de palacianos

que cercam o Trono e vivem direta ou indiretamente à custa das

rendas públicas. As pobres finanças da colônia não estavam apare-

lhadas para tamanhos gastos. Há que acrescentar as guerras em que

se empenhou o soberano português logo à sua chegada: no Prata (o-

cupação da Banda Oriental, hoje República do Uruguai), na Guiana

francesa (ocupada em 1809).

Parte das novas despesas representava necessidades impostas

pela criação de serviços indispensáveis: ampliação das forças ar-

33 Notemos aliás a sua ineficiência na maior parte das vezes. Organizadas para um
pequeno reino como Portugal, e para um vasto império ultramarino, não se amolda-

vam evidentemente às necessidades brasileiras, um grande pais é verdade, mas se-

midespovoado e primitivo. Condições tão especiais exigiam soluções administrati-

vas também novas. Isto não se fez; a administração da corte no Brasil será idên-

tica à de Lisboa. O seu elevado custo não será assim compensado por um rendimen-

to paralelo.

madas, instrução pública, higiene, povoamento, abertura de novas

estradas, obras de urbanismo no Rio de Janeiro, etc. Boa parte

contudo, provavelmente a maior, não era mais que desperdício e

destinava-se a sustentar os fidalgos que tinham acompanhado o so-

berano no exílio e que este entendia acertado premiar. Era eviden-

temente fardo excessivo para as débeis forças econômicas da colô-

nia.

O império independente, que sob muitos aspectos não será mais

que um prolongamento da situação anterior (conservar-se-á até mes-

mo a dinastia reinante em Portugal, sendo coroado imperador o her-

deiro presuntivo da coroa portuguesa), nada alterará neste assunto

de que nos ocupamos. Permanecerão os mesmos quadros administrati-

vos, na maior parte das vezes até as mesmas pessoas; e os proces-

sos não se modificarão. Tudo isto até certo ponto se explica — em-

bora sem eliminar os danos financeiros e econômicos resultantes.

Não era evidentemente possível governar e administrar um nação in-

dependente e soberana, prenhe de necessidades até então inatendi-

das, com o rudimentar aparelhamento administrativo da colônia, on-

de a justiça era um mito, a ordem legal precária, as forças arma-

das reduzidas e sem organização eficiente, a saúde pública, a ins-

trução, os serviços de fomento quase nulos, as relações externas

inexistentes. Foi preciso criar tudo isto ou desenvolver o exis-

tente; e em meio de agitações internas e guerras externas (em 1826

o Brasil teve de enfrentar as Províncias Unidas), que drenavam

fortemente as finanças do Estado. Os compromissos públicos ainda

se agravarão com os juros e amortizações de uma dívida contraída

na Inglaterra em 1825, no valor de 3.000.000 de libras, que se di-

lapidaram em despesas mal controladas (em boa parte comissões de

intermediários, agenciadores e banqueiros). Outros empréstimos ex-

ternos, aliás, virão a jacto contínuo.
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Para fazer face a este aumento considerável de gastos, o Te-

souro público não contava com grande coisa. O sistema financeiro

até então existente era excessivamente rudimentar e inelástico.

Seria preciso uma remodelação completa; mas isto não se fez. Em

parte por incapacidade (pois herdamos com os quadros admi-

nistrativos da metrópole, a rotina burocrática de uma nação deca-

dente como era Portugal); noutra, porque efetivamente não era fá-

cil organizar uma arrecadação eficiente num território tão vasto

como o brasileiro, e parcamente habitado por uma população dis-

persa e mal estruturada. A renda mais segura e fácil de ser cobra-

da era constituída pelos impostos alfandegários que de fato produ-

ziam a maior parte da arrecadação pública. Mas esta fora limitada

pelos tratados internacionais à taxa insignificante de 15% ad va-

lorem.

34 400.000 libras em 1829; 312.000 em 1839; 732.000 em 1843; 1.040.600 em 1852.
Isto para o período que nos ocupa. Depois virão outros mais. Estes empréstimos

eram realizados em condições onerosíssimas, verdadeiras operações de agiotagem.

O de 1829 bateu todos os recordes, pois se contratou ao tipo de 52! Das 400.000

libras do valor nominal do empréstimo, o Brasil não receberia mais do que

208.000. Os juros, nominalmente de 5%, alcançavam assim, de fato, quase 10%. Os

banqueiros ingleses (foram quase sempre a casa Rothschild), conluiadas com os

desonestos altos dignatários do Império, lançavam-se sem piedade sobre esta pre-

sa inerme que era a nação brasileira.

Nestas condições, o Brasil viverá em deficit orçamentário for-

çoso e permanente. Desde a transferência da corte em 1808, pelos

anos afora, as contas públicas saldar-se-ão cada ano, quase sem

exceção, em débito.
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 Isto se resolverá em regra pelo não pagamento

sumário dos compromissos. Funcionalismo em atraso, dívidas prote-

ladas, são fatos não somente comuns na vida financeira do Brasil,

mas antes a regra poucas vezes infringida. Outro expediente serão

as emissões de papel-moeda de curso forçado que se sucedem a jacto

contínuo; finalmente os empréstimos externos, pois dentro do país

nem havia capitais para cobrir as necessidades do Tesouro público,

nem este gozava de suficiente crédito para atrair prestamistas; os

credores brasileiros não dispunham dos meios de coação