Caio Prado Historia Economica do Brasil
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Disciplina:Formação Econômica do Brasil558 materiais7.628 seguidores
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do estran-

geiro para forçar o governo à satisfação de seus compromissos. Mas

os empréstimos externos representam apenas alívio momentâneo: já

vimos seus efeitos nocivos sobre o balanço externo de contas; eles

não serão menos desfavoráveis com relação às finanças públicas,

sobrecarregando-o em proporção crescente de compromissos que logo

ultrapassam sua capacidade normal de pagamento. Em meados do sécu-

lo, o serviço das dívidas já absorvia quase 40% do total da recei-

ta.

Cada qual destes expedientes terá suas conseqüências sobre que

não é preciso insistir porque são as normais em casos semelhantes

e já muito conhecidas: descrédito público, desvalorização da moe-

da, inflação, encarecimento da vida, etc. Todos eles, cada qual

com sua quota própria, contribuirão para acentuar ainda mais e a-

gravar o geral desequilíbrio e instabilidade da vida econômica do

país.

Em suma, o que se verifica é que a transferência da corte por-

tuguesa para o Rio de Janeiro, a nova política por ela aqui inau-

gurada e a subseqüente emancipação da colônia, assinalam uma nova

fase bem caracterizada em nossa evolução econômica. Embora se con-

serve a estrutura anterior e fundamental que presidiu à formação e

evolução colonial brasileira (isto é, um organismo econômico pri-

mário, destinado a produzir alguns gêneros tropicais para o comér-

cio internacional), entramos então nitidamente num período dife-

rente do anterior. É aliás na base das contradições geradas por

aquela estrutura na nova situação e ordem para ela criada, que e-

voluirão os acontecimentos. Existe um desacordo fundamental entre

o sistema econômico legado pela colônia e as novas necessidades de

uma nação livre e politicamente emancipada. Todos os desajustamen-

tos que passamos em revista — e poderíamos acrescentar outros de

natureza política e social que não entram no programa deste livro

— não são mais, em última instância, que reflexos e resultantes

daquela contradição básica. Ela nos levará a uma evolução também

contraditória: de um lado, como vimos, assistiremos à ampliação

considerável das nossas forças produtivas e progresso material a-

centuado e rápido. Para este progresso concorrem também, é certo,

fatores estranhos; assim, em particular, o desenvolvimento técnico

35 Os números oficiais enganam freqüentemente quando indicam saldos, aliás raros.
Nestes casos, examinando-se as coisas mais de perto, verifica-se que na receita

são computadas importâncias provenientes de empréstimos; e as despesas aparecem

reduzidas pela transferência dos pagamentos de um ano para outro.

do séc. XIX que permitirá aparelhar convenientemente o país e im-

pulsionar suas atividades econômicas. A navegação a vapor (inaugu-

rada no Brasil em 1819), entre outros, terá considerável signifi-

cação neste país de larga extensão costeira, onde se concentra a

maior parte da população, e de transportes terrestres tão difí-

ceis. A mesma coisa se dirá da mecanização das indústrias que per-

mitirá ampliar as atividades agrárias e outras; também das estra-

das de ferro, embora somente apareçam já no fim do período que ora

nos ocupa em particular (1854). Assim mesmo contudo, a emancipação

do Brasil representa um ponto de partida bem nítido para o novo

surto econômico do país, porque dentro dos quadros políticos e ad-

ministrativos coloniais, e ligado a uma metrópole decadente que se

tornara puramente parasitária, ela não encontraria horizontes para

utilizar-se das facilidades que o mundo do séc. XIX lhe proporcio-

nava.

Mas a par daquele progresso econômico sofremos também, como

vimos, um desequilíbrio profundo que afeta todos os setores da

nossa vida e que se agrava sem cessar. Esta situação se prolonga

até meados do século, quando então, mercê de circunstâncias surgi-

das deste mesmo processo contraditório de evolução que acabamos de

ver, entramos numa nova etapa de relativo ajustamento. Mas antes

de analisarmos este reajustamento, acompanhemos a evolução da mais

profunda e larga contradição desencadeada em conseqüência da nova

situação criada pela transferência da corte: a questão do trabalho

escravo, que pela sua importância particular deixamos para um ca-

pítulo à parte.

103

Crise do Regime Servil

e Abolição do Tráfico

O SISTEMA de trabalho servil atravessa nesta fase que nos ocu-

pa uma crise muito séria; prelúdio, embora muito antecipado ainda,

de sua abolição final. O processo difícil e complicado da emanci-

pação política do Brasil, pondo em evidência todas as contradições

do regime anterior, vai polarizar as forças políticas e sociais em

gestação e desencadeia o embate, não raro de grande violência, en-

tre os diferentes grupos e classes em que se divide a sociedade

colonial. Os escravos, apesar de sua massa que representa cerca de

um terço da população total, não terão neste processo, ao contrá-

rio do ocorrido em situações semelhantes noutras colônias america-

nas, como por exemplo em São Domingos (Haiti), um papel ativo e de

vanguarda. Acompanharão por vezes a luta, participarão debilmente

de alguns movimentos, despertando aliás com isto grande terror nas

demais camadas da população. Mas não assumirão por via de regra

uma posição definida, nem sua ação terá continuidade e envergadu-

ra. Isto se deve sobretudo ao tráfico africano, que despejando

continuamente no país (e nesta época em grandes proporções) novas

e novas levas de africanos de baixo nível cultural, ignorantes a-

inda da língua e inteiramente desambientados, neutralizava a ação

dos escravos já radicados no país e por isso mais capazes de ati-

tudes políticas coerentes. É preciso levar em conta também a divi-

são reinante entre grupos de escravos oriundos de nações africanas

distintas e muitas vezes hostis umas às outras; coisa de que a ad-

ministração pública e os senhores sempre cuidaram muito, procuran-

do impedir a formação de aglomerações homogêneas. Na Bahia, por

exemplo, onde chegou a haver na massa escrava certa unidade nacio-

nal (aliás de nações sudanesas de nível cultural mais elevado), é

que vamos encontrar o maior número de agitações e revoltas servis.

Seja como for, a participação dos escravos nos movimentos da

época não terá vulto apreciável; e isto constituirá talvez o moti-

vo principal por que a estrutura fundamental da economia brasilei-

ra, assente como estava no trabalho deles, não sofre abalos sufi-

cientes para transformá-la desde logo. Contudo, mesmo esta débil

participação e até, na falta dela, a simples presença desta massa

de escravos surdamente hostis à ordem vigente num momento de agi-

tações e convulsão social, era o bastante para desencadear a crise

do sistema servil e pôr em equação o problema da escravidão.

Isto se observa particularmente na atitude que assumem, com

relação a ele os diferentes setores da opinião pública. A escra-

vidão vai aceleradamente perdendo sua base moral, não somente na

opinião comum, mas até em círculos conservadores. Logo depois da

Independência já a vemos alvo da crítica geral. Aceita-se e se

justifica, mas como uma "necessidade", um mal momentaneamente ine-

vitável. Ninguém ousa defendê-la abertamente; e seu desaparecimen-

to num futuro mais ou menos próximo é reconhecido fatal. A discus-

são se trava apenas em torno da oportunidade. Tal posição dúbia

explica aliás a atitude incoerente e contraditória das opiniões da

época: enquanto se critica a escravidão, sustenta-se energicamente

sua manutenção; reconhecem-se seus males, mas raros ousam ainda

combatê-la francamente e propor medidas efetivas e concretas para

sua extinção.

É que realmente a