Caio Prado Historia Economica do Brasil
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Caio Prado Historia Economica do Brasil

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e logo em seguida, a inflação.

O país conhecerá, pela primeira vez, um destes períodos finan-

ceiros áureos de grande movimento de negócios. Novas iniciativas

em empresas comerciais, financeiras e industriais se sucedem inin-

terruptamente; todos os índices de atividade sobem de um salto. A

circulação monetária é fantasticamente alargada pela faculdade e-

missora concedida ao Banco do Brasil e pelo abuso de emissão de

vales e outros títulos pelos demais estabelecimentos de crédito,

firmas comerciais e até simples particulares. Tudo isto terminará

num desastre tremendo — a crise de 1857, seguida logo por outra

mais grave em 1864. O Brasil estreava nos altos e baixos violentos

da vida financeira contemporânea. Mas ficarão algumas iniciativas

que marcam época no país: a primeira estrada de ferro inaugurada

em 1854
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, as primeiras linhas telegráficas construídas em 1852,

bem como outras.

A abolição do tráfico ainda terá outro efeito indireto: põe

termo ao longo conflito com a Inglaterra; e das relações políticas

que então se estabelecem com aquele país, resultará novo afluxo de

suas iniciativas e capitais para o Brasil. A expansão dos negócios

ingleses retomará seu ritmo normal e progressivo, que declinara

muito nos anos anteriores de atritos e desentendimentos. A opinião

inglesa olhará de novo com simpatia para esse país que afinal se

conformava com o neo-humanitarismo britânico despertado em princí-

pios do séc. XIX. Este incremento das atividades inglesas no Bra-

sil é mais um fator importante a ser levado em conta na fase que

ora se inaugura; como o declínio delas, no período anterior, não

pode deixar de ser computado entre os fatores de perturbação e do

desequilíbrio então verificado.

42 Um pequeno trecho de 18 km nas proximidades do Rio de Janeiro. No ano seguinte
inicia-se a construção da estrada de ferro que seria a maior e mais importante

do país: a D. Pedro II, hoje Central do Brasil, que liga o Rio de Janeiro com

São Paulo, e serve boa parte do Estado do Rio de Janeiro e Minas Gerais.

O IMPÉRIO ESCRAVOCRATA

E A AURORA BURGUESA

1850-1889

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Evolução Agrícola

NAS TRANSFORMAÇÕES ocorridas no Brasil no curso do séc. XIX,

nenhuma terá contribuído para modificar a fisionomia do país como

a verdadeira revolução que se opera na distribuição de suas ativi-

dades produtivas. Tal revolução já se pode observar em seus come-

ços na primeira metade do século; mas é na segunda que se caracte-

riza propriamente e se completa. E como e nela que sobretudo se

fundam os acontecimentos econômicos desta última fase, por aí co-

meçaremos a análise do período histórico que ora nos ocupa.

Dois fatos (aliás, intimamente relacionados) a constituem; um

de natureza geográfica: é o deslocamento da primazia econômica das

velhas regiões agrícolas do Norte para as mais recentes do Centro-

Sul (o Rio de Janeiro e partes limítrofes de Minas Gerais e São

Paulo). Outro é a decadência das lavouras tradicionais do Brasil —

da cana-de-açúcar, do algodão, do tabaco —, e o desenvolvimento

paralelo e considerável da produção de um gênero até então de pe-

quena importância: o café, que acabará por figurar quase isolado

na balança econômica brasileira.

O renascimento agrícola iniciado em fins do séc. XVIII e gran-

demente impulsionado, como vimos, depois da abertura dos portos e

da emancipação política do país, favorece sobretudo, de início, as

regiões agrárias mais antigas do Norte: as províncias marítimas

que se estendem do Maranhão até a Bahia. Elas voltam então a ocu-

par a posição dominante desfrutada no passado e que tinham parci-

almente perdido em favor das minas. Mas este novo surto do Norte

brasileiro não durará muito; já na primeira metade do séc. XIX o

Centro-Sul irá progressivamente tomando a dianteira nas atividades

econômicas do país. E na segunda, chega-se a uma inversão completa

de posições: o Norte, estacionário, senão decadente; o Sul, em

primeiro lugar, em pleno florescimento.

A explicação geral disto encontra-se sobretudo na decadência

das lavouras tradicionais daquele primeiro setor; decadência para

que não se encontrou, como se deu no Sul com o café, um substituto

adequado. Decadência aquela cuja causa precípua se encontra na

desfavorável conjuntura internacional. No que diz respeito à cana,

aparece no séc. XIX um sucedâneo para a produção do açúcar que a

levará de vencida: a beterraba. Os países europeus, e também os

Estados Unidos, que são os grandes consumidores de açúcar e prin-

cipais mercados para a produção dos trópicos americanos, tornam-

se, com a utilização da beterraba, de consumidores em produtores;

e não somente para suas necessidades próprias, mas ainda com ex-

cessos exportáveis. Estes se procurarão escoar com bonificações e

prêmios concedidos aos produtores, despesas estas de que se res-

sarcem os respectivos governos taxando pesadamente as importações

do açúcar de cana. Será uma concorrência tremenda cuja história é

conhecida e que vai dar nos primeiros grandes acordos internacio-

nais em matéria de produção econômica; acordos aliás que nunca se

cumpriam regularmente.

A crise dos países produtores de cana é geral. As colônias a-

inda gozarão de certas regalias nos mercados de suas metrópoles

respectivas. Mas os produtores independentes não contarão com ou-

tra coisa que suas próprias forças. O Brasil, entre eles, será

particularmente atingido. Desvantajava-o uma posição geográfica

excêntrica; mas sobretudo o nível rudimentar de sua técnica de

produção, a que já me referi anteriormente. A sua contribuição ao

mercado internacional irá assim, em termos relativos, em declínio:

já em meados do século estará colocado em quinto lugar entre os

produtores mundiais de cana-de-açúcar, com menos de 8% da produção

total
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. O declínio em termos absolutos virá pelos fins do século.

Dentro do Brasil, é o Norte que sofrerá mais com esta si-

tuação. Além da concorrência externa, ele suporta a do Sul, para

onde terras virgens e frescas atraem o povoamento e as atividades.

As velhas regiões setentrionais, exploradas havia séculos, já co-

meçavam a sentir os efeitos de uma longa utilização imprevidente e

depredadora que devastava os recursos da natureza sem nada lhes

restituir. Já me referi anteriormente a este caráter primitivo da

agricultura brasileira e que não se corrigirá tão cedo.

As outras produções clássicas do Norte sofrerão igualmente. O

seu algodão, que num momento se colocara entre os grandes forneci-

mentos mundiais, será deslocado do comércio internacional pela

produção norte-americana e a oriental. Quanto ao tabaco, as res-

trições opostas ao tráfico africano e que lhe tiram um dos princi-

pais mercados
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, o prejudicam grandemente. Trata-se aliás de um gê-

nero de segunda importância econômica.

Entre os fatores que contribuíam para a decadência do Norte é

preciso contar também a cessação, em 1850, da corrente de escravos

importados da África. Abalado já pela conjuntura internacional

desfavorável e pelo esgotamento de suas reservas naturais, o Norte

sofrerá consideravelmente com este novo golpe que o privava de

mão-de-obra fácil e relativamente barata. O Sul seria menos atin-

gido porque se encontrava em fase ascendente de progresso e se re-

fará mais rapidamente. Poderá mesmo resolver momentaneamente o seu

problema importando escravos do Norte depauperado, embora agravan-

do assim ainda mais a situação deste. E recorrerá afinal à imigra-

ção européia, o que o Norte não pôde fazer porque nem as condições

econômicas, nem o seu clima acentuadamente tropical