Caio Prado Historia Economica do Brasil
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Caio Prado Historia Economica do Brasil

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Região muito acidentada, não

lhe faltam encostas bem protegidas contra o vento (fator importante

numa planta arbustiva de grande porte como o cafeeiro) e convenien-

temente expostas. A mata virgem que a revestia deu solos magnífi-

cos. O vale do Paraíba tornou-se assim um grande centro condensador

de lavouras e de população; em meados do séc. XIX reúne-se aí a

maior parcela da riqueza brasileira. Subindo pelo rio, os cafezais

invadem e ocupam largamente a parte oriental da província de São

Paulo. Tomam-lhe também a vertente setentrional, estendendo-se pela

região fronteiriça de Minas Gerais.

Até o terceiro quartel do século passado, toda esta área que

abrange a bacia do Paraíba e regiões adjacentes será o centro por

excelência da produção cafeeira do Brasil. Geograficamente forma

uma unidade: assinalei suas características naturais e que lhe são

comuns: altitudes médias, clima temperado, relevo acidentado, re-

vestimento natural de florestas subtropicais. Comercialmente, ori-

enta-se para o Rio de Janeiro, que é o porto de escoamento do pro-

duto, e por isso seu centro financeiro e controlador. Pouco depois

da metade do século passado, esta área representa o setor mais ri-

co e progressista do país, concentrando a maior parcela de suas

atividades econômicas. Atinge também, pela mesma época, o auge do

seu desenvolvimento; logo virá o declínio. Repetia-se mais uma vez

o ciclo normal das atividades produtivas do Brasil: a uma fase de

intensa e rápida prosperidade, segue-se outra de estagnação e de-

cadência. Já se vira isto (sem contar o longínquo caso do pau-

brasil) na lavoura da cana-de-açúcar e do algodão no Norte, nas

minas de ouro e diamantes do Centro-Sul. A causa é sempre se-

melhante: o acelerado esgotamento das reservas naturais por um

sistema de exploração descuidado e extensivo. Isto será particu-

larmente sensível no caso que temos agora presente. Esses terrenos

de fortes declives onde se plantaram os cafezais, não suportarão

por muito tempo o efeito do desnudamento de florestas derrubadas e

da exposição do solo desprotegido à ação das intempéries. O traba-

lho da erosão foi rápido. Agira-se sem o menor cuidado e resguar-

do: a mata foi arrasada sem discernimento, mesmo nos altos; plan-

tou-se o café sem atenção a "outra idéia que um rendimento imedia-

to. O desleixo se observa na própria distribuição das plantas em

que se adotou o plano simplista e mais cômodo e expedito de filei-

ras em linha reta, perpendiculares à encosta: não havia disposição

mais favorável à ação da erosão. O resultado de tudo isto foi de-

sastroso: bastaram uns poucos decênios para se revelarem rendimen-

tos aceleradamente decrescentes, enfraquecimentos das plantas, a-

parecimento de pragas destruidoras. Inicia-se então a decadência

com todo seu cortejo sinistro: empobrecimento, abandono sucessivo

das culturas, rarefação demográfica.

Isto não aparecerá nos dados em conjunto do país porque outra

região viera já substituir aquela área tão próspera e agora fadada

ao aniquilamento. É o oeste da província de São Paulo, centrali-

zando-se em Campinas e estendendo-se numa faixa daí para o norte

até Ribeirão Preto. Esta região era até fins do séc. XVIII muito

pouco povoada. Atravessava-a o caminho que de São Paulo conduzia

para Goiás, e ao longo do qual se tinham espalhado pequenos nú-

cleos destinados quase unicamente a amparar os transportes e comu-

nicações que se faziam por aí. E era este o único sinal de ocupa-

ção humana. Naquela época se inicia um povoamento e exploração

mais ativos; sua base econômica será então quase só a cana-de-

açúcar. Assinalam-se culturas cafeeiras em Campinas e suas proxi-

midades já antes de 1800; mas coisa de pouca importância, e que

será assim até meados do século. É neste momento que a região toma

francamente tal caminho voltando-se com grande atividade para o

café. Em pouco tempo se torna o grande centro produtor do país.

Ela é fisicamente bem distinta da primeira de que nos ocupamos

mais acima. Estendida para além das serras do Mar e da Mantiqueira,

que formam os cordões montanhosos que separam o litoral do altipla-

no interior, apresenta-se com uma topografia em geral unida e ape-

nas ondulada. Isto terá grande influência na distribuição das la-

vouras de café. No primeiro setor que analisamos, a irregularidade

do terreno, a dispersão das encostas bem situadas com relação à ex-

posição ao sol e ao abrigo contra ventos excessivos, espalharam os

cafezais em pequenos núcleos separados e desarticulados entre si.

Já nesta nova região do oeste paulista, de relevo unido, as cultu-

ras se estendem em largas superfícies uniformes de plantações inin-

terruptas que cobrem a paisagem a perder de vista. Verdadeiro "mar

de café": este nome lhes foi dado e é merecido.

Resulta daí uma concentração maior da riqueza e densidade eco-

nômica mais elevada. E não é só. A dessemelhança topográfica das

duas áreas terá outras conseqüências econômicas de relevo. Embora

plantados com o mesmo descuido, os cafezais da nova região sofre-

rão menos da ação dos agentes naturais. A declividade menor do

terreno oferecerá certa proteção ao solo que conserva assim mais

longamente suas qualidades. Doutro lado, as comunicações e trans-

portes serão mais fáceis nesta zona de topografia regular e rique-

za mais concentrada. Enquanto no primeiro setor estabelecer-se-ão

a muito custo algumas deficientes e onerosas vias férreas, o novo

contará muito cedo com uma boa rede de estradas. São vantagens a-

preciáveis, a que vem juntar-se ainda a superior fertilidade de um

tipo de solo ímpar no Brasil, particularmente para a cultura do

café
47
.

Ainda resultará um importante efeito do deslocamento para oes-

te das principais lavouras cafeeiras, o que quer dizer da maior e

quase única fonte de riqueza do país naquele momento. Até então o

Rio de Janeiro fora o grande empório do comércio de café; e seu

grande progresso não deriva somente de sua qualidade de capital,

47 É a chamada "terra roxa", resultante da decomposição de rochas basálticas de
origem vulcânica.

mas também daquele fato. Agora a situação já é outra: a orientação

geográfica do oeste paulista não é para o Rio de Janeiro, mas para

a capital da província, São Paulo, e através dela, para o porto de

Santos. Data de então, e por tal motivo, o grande surto contempo-

râneo da cidade de São Paulo e do seu apêndice portuário e brecha

para o exterior que é Santos. Será o primeiro passo para a concor-

rência, hoje ainda em disputa, entre a ex-capital do Brasil e São

Paulo.

É de Campinas, como referi, que parte a expansão cafeeira que

se alastrará pelo oeste paulista. Um fato sobretudo orientará a

princípio a marcha: é a ocorrência dos citados solos de terra roxa

que se sucedem em manchas próximas umas das outras de Campinas pa-

ra o norte. Estas manchas aproveitar-se-ão até a última polegada;

e os cafezais recobri-las-ão uniforme e monotonamente por superfí-

cies que abrangem por vezes dezenas de quilômetros quadrados sem

interrupção. Paisagem agrícola até hoje ainda quase única no Bra-

sil, em regra tão irregular e desordenadamente explorado. Esta

"onda verde" de cafezais, como tão expressiva e apropriadamente se

denominou a expansão da lavoura que então fundamentava a riqueza

brasileira, marchará rapidamente, alcançando no penúltimo decênio

do século a região do rio Mogiguaçu na sua confluência com o Par-

do; aí se formará o núcleo produtor do melhor e mais abundante ca-

fé brasileiro. O "café de Ribeirão Preto" (centro da região) se

torna mundialmente famoso.

A marcha não se deterá; lança-se para