Caio Prado Historia Economica do Brasil
280 pág.

Caio Prado Historia Economica do Brasil

Disciplina:Formação Econômica do Brasil602 materiais7.831 seguidores
Pré-visualização50 páginas
ocidente, e internando-

se, avança progressivamente para o Rio Paraná. Mas isto já será um

pouco mais tarde que o período que ora temos em vista. A ocupação

do Centro e Extremo-Oeste da província (Estado, depois da Repúbli-

ca proclamada em 1889) pertence sobretudo ao século atual.

Em matéria de organização, a lavoura cafeeira seguiu os moldes

tradicionais e clássicos da agricultura do país: a exploração em

larga escada, tipo "plantação" (a plantation dos economistas in-

gleses), fundada na grande propriedade monocultural trabalhada por

escravos negros, substituídos mais tarde, como veremos noutro ca-

pítulo, por trabalhadores assalariados. Contribuem para fixar este

sistema de organização as mesmas circunstâncias assinaladas para

as demais culturas brasileiras. Reforçam-nas aliás agora, a tradi-

ção já formada no país e seu regime social; sem contar que o cafe-

eiro, sendo uma planta de produção retardada, exige para seu cul-

tivo maior inversão de capitais. Torna-se assim ainda menos aces-

sível ao pequeno proprietário e produtor modesto.

A importância e extensão dos domínios cafeeiros será naturalmente

muito variável. De início encontram-se lavouras de algumas dezenas

de mil plantas no máximo. O primeiro setor explorado — o vale do

Paraíba e suas adjacências — não se prestava mesmo, devido à con-

formação irregular e variedade do terreno, a concentrações maio-

res
48
. Tratava-se além disto dos primeiros tempos da grande lavoura

cafeeira, e nem o capital nem a mão-de-obra disponíveis e a expe-

riência acumulada bastavam ainda para empresas de maior vulto. Es-

tas começarão a se formar com mais freqüência nas zonas novas do

oeste paulista. Instalam-se aí muito cedo propriedades que reúnem

centenas de milhares de plantas. E lá pelos fins do século, come-

çam a surgir fazendas imensas que ultrapassam o milhão
49
.

Além das plantações, a fazenda conta com diferentes insta-

lações e dependências que fazem dela um conjunto complexo, vultoso

e em grande parte auto-suficiente. É a repetição do que já se ob-

servara nos engenhos de açúcar. Assim, as destinadas ao preparo e

beneficiamento do produto: tanques onde o grão é lavado logo de-

pois da colheita, terreiros onde ele é exposto ao sol para secar,

máquinas de decorticação, triagem, etc. Além destas, a residência

do proprietário (em regra absentista, mais visitando sua proprie-

dade na época da colheita, de maio a agosto), a senzala dos escra-

vos (grande edificação térrea com os alojamentos dispostos ao re-

dor de um pátio central) ou "colônias" de trabalhadores livres,

agrupamento de casinholas em geral alinhadas ao longo de uma rua e

dando o aspecto de uma pequena aldeia; finalmente as cocheiras,

estrebarias e oficinas diversas de carpintaria, ferreiro, etc. Tu-

do isto forma uma aglomeração que nas fazendas importantes toma

grande vulto, abrindo uma clareira de habitações e edificações em

meio da floresta de cafeeiros que as cerca de todos os lados. Exa-

tamente como o engenho de açúcar, a fazenda de café é um mundo em

miniatura quase independente e isolado do exterior, e vivendo in-

teiramente para a produção do seu gênero.

A lavoura do café marca na evolução econômica do Brasil um pe-

ríodo bem caracterizado. Durante três quartos de século concentra-

se nela quase toda a riqueza do país; e mesmo em termos absolutos

ela é notável: o Brasil é o grande produtor mundial, com um quase

monopólio, de um gênero que tomará o primeiro lugar entre os pro-

dutos primários no comércio internacional. A frase famosa, "o Bra-

sil é o café", pronunciada no Parlamento do Império e depois lar-

gamente vulgarizada, correspondia então legitimamente a uma reali-

dade: tanto dentro do país como no conceito internacional o Brasil

era efetivamente, e só, o café. Vivendo exclusivamente da exporta-

ção, somente o café contava seriamente na economia brasileira. Pa-

ra aquela exportação, o precioso grão chegou a contribuir com mais

de 70% do valor.

Social e politicamente foi a mesma coisa. O café deu origem,

cronologicamente, à última das três grandes aristocracias do país,

48 O que não impede, como freqüentemente acontecia, o caso de um mesmo proprietá-
rio para muitas propriedades ou fazendas diferentes.
49 Chegará a mais de 3 milhões de pés a maior fazenda brasileira de café. É a fa-
zenda S. Martinho, da família Silva Prado, na região de Ribeirão Preto, aberta

no penúltimo decênio do século e que atinge aquela cifra de plantações no século

atual.

depois dos senhores de engenho e dos grandes mineradores, os fa-

zendeiros de café se tornam a elite social brasileira. E em con-

seqüência (uma vez que o país já era livre e soberano) na política

também. O grande papel que São Paulo foi conquistando no cenário

político do Brasil, até chegar à sua liderança efetiva, se fez à

custa do café; e na vanguarda deste movimento de ascensão, e im-

pulsionando-o, marcham os fazendeiros e seus interesses. Quase to-

dos os maiores fatos econômicos, sociais e políticos do Brasil,

desde meados do século passado até o terceiro decênio do atual, se

desenrolam em função da lavoura cafeeira: foi assim com o des-

locamento de populações de todas as partes do país, mas em par-

ticular do Norte, para o Sul, e São Paulo especialmente; o mesmo

com a maciça imigração européia e a abolição da escravidão; a pró-

pria Federação e a República mergulham suas raízes profundas neste

solo fecundo onde vicejou o último soberano, até data muito recen-

te, do Brasil econômico: o rei café, destronador do açúcar, do ou-

ro e diamantes, do algodão, que lhe tinham ocupado o lugar no pas-

sado.

17

Novo Equilíbrio Econômico

O CONSIDERÁVEL desenvolvimento da lavoura cafeeira contará co-

mo primeiro fator no reajustamento da vida econômica do Brasil,

tão abalada desde a transferência da corte portuguesa para o Rio

de Janeiro e a emancipação política do país. As crescentes expor-

tações de café que tomam logo um vulto que deixa a perder de vista

o intercâmbio comercial do passado
50
, permitirão não somente res-

taurar o balanço das contas externas do país, tão comprometidas na

fase anterior, mas restaurá-lo em nível nitidamente superior a tu-

do quanto o Brasil conhecera no passado. A partir de 1860, o co-

mércio exterior começa a se saldar invariavelmente com superavits

crescentes. E isto apesar de uma importação que se avolumava; o

que permitiu aliás não somente uma ascensão sensível do padrão de

vida da população — pelo menos de certas classes e regiões — mas

também o aparelhamento técnico do país, inteiramente dependente,

neste terreno, do estrangeiro. Refiro-me a estradas de ferro e ou-

tros meios de comunicação e transportes, mecanização das indús-

trias rurais, instalação de algumas primeiras manufaturas, etc.

Pode-se dizer que é nesta época que o Brasil tomará pela primeira

vez conhecimento do que fosse o progresso moderno e uma certa ri-

queza e bem-estar material.

Mas não será apenas esta a conseqüência mais imediata do de-

senvolvimento da lavoura cafeeira. Ele terá também o efeito de re-

forçar a estrutura tradicional da economia brasileira, voltada in-

teiramente para a produção intensiva de uns poucos gêneros desti-

nados à exportação. Graças ao amparo de um artigo como o café, de

largas facilidades de produção no país e de considerável importân-

cia comercial nos mercados mundiais, aquela estrutura, momentanea-

mente abalada pelas transformações sofridas pelo país na primeira

parte do século, consegue se refazer e prosperar mesmo considera-

velmente ainda por muito tempo. E com ela se reforçarão também os