Caio Prado Historia Economica do Brasil
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Caio Prado Historia Economica do Brasil


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diferentes elementos econômicos a ela ligados e que já discrimina-
mos ao tratar da colônia cujo sistema econômico se perpetuara no 
Brasil independente: a grande propriedade monocultural trabalhada 
por escravos. Apesar das contradições inerentes a tal sistema no 
momento de que nos ocupamos, foi possível ainda reestabilizar na 
sua base a vida do país. 
Mas há outras circunstâncias que a par do progresso da lavoura 
cafeeira, e acompanhando-o, contribuíram para esta reestabiliza-
ção. Já foi lembrado o efeito que teve o restabelecimento de rela-
ções normais com a Inglaterra depois do longo período de atritos e 
hostilidades derivados da questão do tráfico africano. A Inglater-
ra voltará a concorrer, como nos primeiros tempos da abertura dos 
portos, com suas atividades e capitais. Fossem quais fossem os e-
 
50 No apêndice, o leitor encontrará uma súmula do comércio exterior do Brasil de 
1821 em diante. 
feitos remotos disto (voltarei sobre a matéria quando eles começam 
a se fazer sentir), o fato é que no momento o concurso inglês con-
tribuiu grandemente para estimular as forças do país. Com o capi-
tal inglês (bem como de outras nacionalidades, embora em menores 
proporções) construir-se-ão estradas de ferro, montar-se-ão indús-
trias, aparelhar-se-ão portos marítimos. Além disto, o afluxo de 
capitais estrangeiros permitirá equilibrar normalmente as finanças 
externas sem sacrifício das importações, de tão fundamental impor-
tância para o Brasil. Será possível manter em dia os pagamentos 
exteriores. 
Não existem dados seguros e completos para se avaliar o mon-
tante das inversões inglesas no Brasil. Conhecemos contudo uma de 
suas parcelas, com certeza a mais importante, que são os emprésti-
mos públicos. Até 1852 eles tinham sido apenas quatro, na impor-
tância total de uns dois e meio milhões de libras
51
. Depois daquela 
data eles se multiplicam rapidamente; até o fim do Império o Bra-
sil contratará na Inglaterra mais onze empréstimos num valor glo-
bal de uns 60 milhões de libras
52
. Este afluxo considerável de ca-
pitais, embora não representasse muitas vezes entradas efetivas, 
mas apenas consolidação de dívidas mais antigas vencidas e não pa-
gas, trouxe assim mesmo grande reforço ao equilíbrio financeiro do 
país. 
Outra conseqüência da abolição do tráfico agirá também no mes-
mo sentido: é que desaparecia com ele um dos itens mais vultosos 
do nosso comércio importador, representado anualmente por dezenas 
de milhares de escravos cujo valor, embora difícil de precisar, 
andaria na época em nível igual ao montante das demais importa-
ções. Era como se estas se reduzissem subitamente à metade do que 
eram anteriormente; o que constitui, é claro, um grande desafogo 
para as finanças do país. 
Finalmente, mais um fator ainda virá contribuir para o rea-
justamento econômico e financeiro do Brasil: será a modificação de 
sua política tarifária, o que se verifica em 1844. Vimos em capí-
tulo anterior que devido ao tratado de 1810 com a Inglaterra, ra-
tificado depois da Independência, o Brasil fora obrigado a manter 
suas tarifas alfandegárias no baixo nível de 15% ad valorem. Isto 
constituíra, como também já foi notado, uma das principais causas 
do desequilíbrio comercial então verificado, bem como das finanças 
públicas. Sem contar o sufocamento da produção nacional, esmagada 
pela concorrência estrangeira. Em 1844, no auge do descalabro fi-
nanceiro, e sem a possibilidade sequer do recurso a empréstimos 
exteriores, uma vez que nosso grande prestamista, a Inglaterra, 
 
51 Embora nominalmente já se elevasse o débito brasileiro a mais de 5 milhões que 
incluíam juros atrasados e parcelas de outras origens, algumas muito difíceis 
hoje de precisar. Esta questão das dívidas externas do Brasil sempre foi das 
mais confusas, e ainda em nossos dias não está bem esclarecida. 
52 Tais empréstimos foram os seguintes: 1858 \u2014 1.526.500; 1859 -508.000; 1860 - 
400.000; 1863 - 3.855.307; - 1865 - 6.363.613; 1871 -3.000.000; 1875 - 
5.301.200; 1883 - 4.599.600; 1886 - 6.431.000; 1888 - 6.297.300; 1889 - 
19.875.000. Notemos que estes empréstimos foram contratados em melhores condi-
ções de tipo, juro e prazo que os anteriores a 1850. 
nos fechava as portas,
53
 o governo imperial resolve decretar novas 
pautas alfandegárias mais elevadas. Fazia isto fundado em que o 
tratado de 1810, renovado em 1826 por mais quinze anos, tinha ex-
pirado em 1841. Recupera o Brasil sua liberdade de ação monetária, 
uma vez que com os demais países não havia outra coisa que a cláu-
sula da "nação mais favorecida". Era-lhe perfeitamente lícita uma 
modificação qualquer das tarifas, contanto que fosse geral. O que 
não impedirá que a Inglaterra proteste energicamente. Mas o estado 
das suas relações com o Brasil era tal, e tamanha a hostilidade 
que levantava a abusiva ação dos seus cruzeiros contra o tráfico 
africano, que a intervenção foi ineficaz. Os direitos de importa-
ção serão sensivelmente elevados, fixando-se em redor de 30%, isto 
é, o dobro dos anteriores. 
As rendas públicas crescerão bastante depois disto, e embora 
persista o deficit orçamentário (pois as despesas cresceram na 
mesma proporção), isto permitirá desafogar grandemente o tesouro 
público e ampliar suas possibilidades e realizações. Além disto, e 
sobretudo, a reforma de 1844 quebrará o respeito que havia pelos 
primeiros tratados comerciais do país e o regime de ampla liberda-
de neles estabelecido, abrindo um precedente que permitirá utili-
zar mais tarde as tarifas alfandegárias como medida de amparo à 
produção nacional. Já a pauta daquele ano, embora não se destinas-
se a isto e não tivesse mais que objetivos fiscais, proporcionará 
algumas oportunidades à indústria indígena que começa a sair do 
marasmo em que se encontrava. E depois de 1860, quando os direitos 
serão elevados para um nível médio de 50%, aparecem as primeiras 
manufaturas de certo vulto. Este fomento da produção interna, além 
do fortalecimento que traz à economia em geral do país, represen-
tará mais um fator de ajustamento e equilíbrio do nosso balanço 
exterior de contas. 
De tudo isto que acabamos de ver, bem como do apaziguamento 
paralelo na política do Império, que então se estabiliza. (depois 
de 1850 serenam as agitações e entra-se pela primeira vez depois 
da Independência num momento de normalidade política e administra-
tiva), resultará esta evolução mais tranqüila e equilibrada que 
observamos a partir de meados do século, e que contrasta tão viva-
mente com o período anterior. Mas apesar desta estabilidade apa-
rente, as contradições profundas do sistema, atenuadas embora, mas 
lavrando ainda ativamente na base da estrutura econômica e social 
do país, não tardarão em provocar novos desajustamentos e dar ori-
gem a outros conflitos. Entre eles, destaca-se em primeiro plano o 
referente à questão do trabalho servil. 
 
53 No ano anterior (1843) a Inglaterra concedera um empréstimo de 700 e tantas 
mil libras. Mas este empréstimo destinou-se unicamente a saldar um compromisso 
que o Brasil assumira para com Portugal por ocasião do reconhecimento da Inde-
pendência, e que representava uma parte do débito desse país com a Inglaterra 
naquela época; separando-se da metrópole, o Brasil tomara a seu cargo uma parte 
da dívida externa portuguesa. 
18 
A Decadência do Trabalho Servil 
e Sua Abolição 
 
 
 
NO CAPITULO em que me ocupei da extinção do tráfico africano 
(cap. 15), foi definida a posição do problema escravista no Brasil 
por ocasião