Caio Prado Historia Economica do Brasil
280 pág.

Caio Prado Historia Economica do Brasil

Disciplina:Formação Econômica do Brasil558 materiais7.628 seguidores
Pré-visualização50 páginas
no país. Nem era de esperá-lo. Não havia in-

teresse em localizar-se num ponto, quando a madeira procurada se

espalhava aos azares da natureza e se esgotava rapidamente pelo

corte intensivo. A indústria extrativa do pau-brasil tinha neces-

sariamente de ser nômade; não era capaz, por isso, de dar origem a

um povoamento regular e estável.

Não são muitos os dados que possuímos sobre esta primeira for-

ma de atividade econômica no Brasil. No que se relaciona com os

portugueses, sabemos que a extração do pau-brasil foi, desde o i-

nício, considerada monopólio real. Para dedicar-se a ela tornava--

se necessária uma concessão do soberano. Era esse aliás o sistema

empregado por Portugal com relação a todas as atividades comer-

ciais ultramarinas. Assim foi com o comércio das especiarias na

Índia, do ouro, marfim ou escravos na África, e agora com o pau-

brasil na América. Tudo isto constituía privilégio da coroa, que

cobrava direitos por sua exploração. A primeira concessão relativa

ao pau-brasil data de 1501 e foi outorgada a um Fernando de No-

ronha (que deixou seu nome a uma ilha do Atlântico que hoje per-

tence ao Brasil), associado a vários mercadores judeus. A conces-

são era exclusiva, e durou até 1504. Depois desta data, por moti-

vos que não são conhecidos, não se concedeu mais a ninguém, com

exclusividade, a exploração da madeira que passou a ser feita por

vários traficantes.

Os franceses tiveram sempre uma política mais liberal que os

portugueses. Embora conheçamos ainda menos de suas atividades, sa-

be-se que nunca instituíram monopólios ou privilégios reais. O que

se explica, porque era sem direito algum que traficavam na costa

brasileira, concedida como ela estava ao Rei de Portugal pela au-

toridade do Papa, então reconhecida universalmente entre povos

cristãos. Não podia pois o soberano francês arrogar-se um direito

que ninguém lhe reconhecia; e as atividades de seus súditos no

Brasil representavam iniciativa puramente individual que o Rei,

aliás, nunca endossou oficialmente.

Foi rápida a decadência da exploração do pau-brasil. Em alguns

decênios esgotara-se o melhor das matas costeiras que continham a

preciosa árvore, e o negócio perdeu seu interesse. Assim mesmo

continuar-se-á a explorar esporadicamente o produto, sempre sob o

regime do monopólio real, realizando uma pequena exportação que

durará até princípios do século passado. Mas não terá mais impor-

tância alguma apreciável, nem em termos absolutos, nem relativa-

mente aos outros setores da economia brasileira. São estes, que

passaremos agora a analisar, que ocuparão depois de 1530 o cenário

econômico do país.

A OCUPAÇÃO EFETIVA

1530-1640

4

Início da Agricultura

NO TERCEIRO decênio do séc. XVI o Rei de Portugal estará bem

convencido que nem seu direito sobre as terras brasileiras, funda-

do embora na soberania do Papa, nem o sistema, até então seguido,

de simples guardas-costas volantes, era suficiente para afugentar

os franceses que cada vez mais tomam pé em suas possessões ameri-

canas. Cogitará então de defendê-las por processo mais amplo e se-

guro: a ocupação efetiva pelo povoamento e colonização. Mas para

isto ocorria uma dificuldade: ninguém se interessava pelo Brasil.

A não ser os traficantes de madeira — e estes mesmos já começavam

a abandonar uma empresa cujos proveitos iam em declínio — ninguém

se interessara seriamente, até então, pelas novas terras; menos

ainda para habitá-las. Todas as atenções de Portugal estavam vol-

tadas para o Oriente, cujo comércio chegara neste momento ao apo-

geu. Nem o Reino contava com população suficiente para sofrer no-

vas sangrias; os seus parcos habitantes, que não chegavam a dois

milhões, já suportavam com grande sacrifício as expedições orien-

tais. Nestas condições, realizar o povoamento de uma costa imensa

como a do Brasil era tarefa difícil. Procurou-se compensar a difi-

culdade outorgando àqueles que se abalançassem a ir colonizar o

Brasil vantagens consideráveis: nada menos que poderes soberanos,

de que o Rei abria mão em benefício de seus súditos que se dispu-

sessem a arriscar cabedais e esforços na empresa. Assim mesmo,

poucos serão os pretendentes. Podemos inferi-lo da qualidade das

pessoas que se apresentaram, entre as quais não figura nenhum nome

da grande nobreza ou do alto comércio do Reino. São todos (doze

apenas, aliás), indivíduos de pequena expressão social e econômi-

ca. A maior parte deles fracassará na empresa e perderá nela todas

as suas posses (alguns até a vida), sem ter conseguido estabelecer

no Brasil nenhum núcleo fixo de povoamento. Apenas dois tiveram

sucesso; e um destes foi grandemente auxiliado pelo Rei.

O plano, em suas linhas gerais, consistia no seguinte: divi-

diu-se a costa brasileira (o interior, por enquanto, é para todos

os efeitos desconhecido), em doze setores lineares com extensões

que variavam entre 30 e 100 léguas.
6
 Estes setores chamar-se-ão ca-

pitanias, e serão doadas a titulares que gozarão de grandes re-

galias e poderes soberanos; caber-lhes-á nomear autoridades admi-

nistrativas e juízes em seus respectivos territórios, receber ta-

xas e impostos, distribuir terras, etc. O Rei conservará apenas

6 Légua é uma antiga medida portuguesa equivalente aproximadamente a 6 quilôme-
tros.

direitos de suserania semelhantes aos que vigoravam na Europa feu-

dal. Em compensação, os donatários das capitanias arcariam com to-

das as despesas de transporte e estabelecimento de povoadores.

Somas relativamente grandes foram despendidas nestas primeiras

empresas colonizadoras do Brasil. Os donatários, que em regra não

dispunham de grandes recursos próprios, levantaram fundos tanto em

Portugal como na Holanda, tendo contribuído em boa parte banquei-

ros e negociantes judeus. A perspectiva principal do negócio está

na cultura da cana-de-açúcar. Tratava-se de um produto de grande

valor comercial na Europa. Forneciam-no, mas em pequena quantida-

de, a Sicília, as ilhas do Atlântico ocupadas e exploradas pelos

portugueses desde o século anterior (Madeira, Cabo Verde), e o O-

riente de onde chegava por intermédio dos árabes e dos traficantes

italianos do Mediterrâneo. O volume deste fornecimento era contudo

tão reduzido que o açúcar se vendia em boticas, pesado aos gramas.

Já se conhecia o bastante do Brasil para esperar que nele a

cana-de-açúcar dar-se-ia bem. O clima quente e úmido da costa ser-

lhe-ia altamente favorável; e quanto à mão-de-obra, contou-se a

princípio com os indígenas que, como vimos, eram relativamente nu-

merosos e pacíficos no litoral. Estas perspectivas seriam ampla-

mente confirmadas; o único fator ainda ignorado antes da tenta-

tiva, a qualidade do solo, revelar-se-ia surpreendentemente propí-

cio, em alguns pontos pelo menos da extensa costa. Foi o caso,

particularmente do Extremo-Nordeste, na planície litorânea hoje

ocupada pelo Estado de Pernambuco; e do contorno da baía de Todos

os Santos (o Recôncavo baiano, como seria chamado). Não seriam a-

liás os únicos: de uma forma geral, toda a costa brasileira pres-

ta-se ao cultivo da cana-de-açúcar.

É nesta base, portanto, que se iniciarão a ocupação efetiva e

a colonização do Brasil. Sem entrar nos pormenores das vicissi-

tudes sofridas pelos primeiros colonos, seus sucessos e fracassos,

examinemos como se organizará sua economia. O regime de posse da

terra foi o da propriedade alodial e plena. Entre os poderes dos

donatários das capitanias estava, como vimos, o de disporem das

terras, que se distribuíram entre os colonos. As doações foram em

regra muito grandes,