Caio Prado Historia Economica do Brasil
280 pág.

Caio Prado Historia Economica do Brasil

Disciplina:Formação Econômica do Brasil602 materiais7.831 seguidores
Pré-visualização50 páginas
medindo-se os lotes por muitas léguas. O que

é compreensível: sobravam as terras, e as ambições daqueles pio-

neiros recrutados a tanto custo, não se contentariam evidentemente

com propriedades pequenas; não era a posição de modestos campone-

ses que aspiravam no novo mundo, mas de grandes senhores e lati-

fundiários. Além disso, e sobretudo por isso, há um fator material

que determina este tipo de propriedade fundiária. A cultura da ca-

na somente se prestava, economicamente, a grandes plantações. Já

para desbravar convenientemente o terreno (tarefa custosa neste

meio tropical e virgem tão hostil ao homem) tornava-se necessário

o esforço reunido de muitos trabalhadores; não era empresa para

pequenos proprietários isolados. Isto feito, a plantação, a co-

lheita e o transporte do produto até os engenhos onde se preparava

o açúcar, só se tomava rendoso quando realizado em grandes volu-

mes. Nestas condições, o pequeno produtor não podia subsistir.

São sobretudo estas circunstâncias que determinarão o tipo de

exploração agrária adotada no Brasil: a grande propriedade. A mes-

ma coisa aliás se verificou em todas as colônias tropicais e sub-

tropicais da América. O clima terá um papel decisivo na discri-

minação dos tipos agrários. As colônias inglesas do Norte, pela

contiguidade aí de zonas diferentes e variedade de tentativas e

experiências ensaiadas, bem como pelo fato de serem todas da mesma

origem nacional, nos oferecem esplêndido campo de observação. Nas

de clima temperado (Nova Inglaterra, Nova Iorque, Pensilvânia, No-

va Jérsei, Delaware) estabeleceu-se a pequena propriedade do tipo

camponês; às vezes encontramos a grande propriedade, como em Nova

Iorque, mas parcelada pelo arrendamento; a pequena exploração em

todo caso, realizada pelo próprio lavrador, proprietário ou arren-

datário, auxiliado quando muito por um pequeno número de subordi-

nados. Ao sul da baía de Delaware, nesta planície litorânea úmida

e quente, onde já nos encontramos em meio físico de natureza sub-

tropical, estabeleceu--se pelo contrário a grande propriedade tra-

balhada por escravos, a plantation. Na mesma altura, mas para o

interior, nos elevados vales da cordilheira dos Apalaches, onde a

altitude corrige a latitude, reaparece novamente a colonização por

pequenas propriedades. A influência dos fatores naturais é tão

sensível nesta discriminação de tipos agrários que ela acaba se

impondo mesmo quando o objetivo inicial e deliberado de seus pro-

motores é outro. Assim na Geórgia e Carolina, onde nos achamos em

zona nitidamente subtropical, a intenção dos organizadores da co-

lonização (neste caso, como em geral nas colônias inglesas, compa-

nhias ou indivíduos concessionários) foi constituir um regime de

pequenas propriedades de área proporcional à capacidade de tra-

balho próprio de cada lavrador; com este critério iniciou-se a co-

lonização e a distribuição das terras. Mas frustrou-se tal objeti-

vo, e o plano inicial fracassou, instituindo-se em lugar dele o

tipo geral das colônias tropicais.

Nas ilhas de Barbados passou-se qualquer coisa de semelhante.

A primeira organização que se estabeleceu aí foi de propriedades

regularmente subdivididas, e não se empregou o trabalho escravo em

escala apreciável. Mas pouco depois, introduzia-se na ilha a cul-

tura eminentemente tropical da cana-de-açúcar: as propriedades se

congregam, transformando-se em imensas plantações; e os escravos,

em número de pouco mais de 6.000, em 1643, sobem, 23 anos depois,

para mais de 50.000.

A grande propriedade será acompanhada no Brasil pela monocul-

tura; os dois elementos são correlatos e derivam das mesmas cau-

sas. A agricultura tropical tem por objetivo único a produção de

certos gêneros de grande valor comercial, e por isso altamente lu-

crativos. Não é com outro fim que se enceta, e não fossem tais as

perspectivas, certamente não seria tentada ou logo pereceria. É

fatal portanto que todos os esforços sejam canalizados para aquela

produção; mesmo porque o sistema da grande propriedade trabalhada

por mão-de-obra inferior, como é a regra nos trópicos, e será o

caso no Brasil, não pode ser empregada numa exploração diversifi-

cada e de alto nível técnico.

Com a grande propriedade monocultural instala-se no Brasil o

trabalho escravo. Não somente Portugal não contava com população

bastante para abastecer sua colônia de mão-de-obra suficiente, co-

mo também, já o vimos, o português, como qualquer outro colono eu-

ropeu, não emigra para os trópicos, em princípio, para se engajar

como simples trabalhador assalariado do campo. A escravidão torna-

se assim uma necessidade: o problema e a solução foram idênticos

em todas as colônias tropicais e mesmo subtropicais da América.

Nas inglesas, onde se tentaram a princípio outras formas de traba-

lho, aliás uma semi-escravidão de trabalhadores brancos, os inden-

tured servants, a substituição pelo negro não tardou muito. É ali-

ás esta exigência da colonização dos trópicos americanos que ex-

plica o renascimento, na civilização ocidental, da escravidão em

declínio desde fins do Império Romano, e já quase extinta de todo

neste séc. XVI em que se inicia aquela colonização.

Assinalei que no Brasil se recorreu, a princípio, ao trabalho

dos indígenas. Estes já se tinham iniciado na tarefa no período

anterior da extração do pau-brasil; prestar-se-iam agora, mais ou

menos benevolentemente, a trabalharem na lavoura de cana. Mas esta

situação não duraria muito. Em primeiro lugar, à medida que afluí-

am mais colonos, e portanto as solicitações de trabalho, ia de-

crescendo o interesse dos índios pelos insignificantes objetos com

que eram dantes pagos pelo serviço. Tornam-se aos poucos mais exi-

gentes, e a margem de lucro do negócio ia diminuindo em proporção.

Chegou-se a entregar-lhes armas, inclusive de fogo, o que foi ri-

gorosamente proibido, por motivos que se compreendem. Além disto,

se o índio, por natureza nômade, se dera mais ou menos bem com o

trabalho esporádico e livre da extração do pau-brasil, já não a-

contecia o mesmo com a disciplina, o método e os rigores de uma

atividade organizada e sedentária como a agricultura. Aos poucos

foi-se tornando necessário forçá-lo ao trabalho, manter vigilância

estreita sobre ele e impedir sua fuga e abandono da tarefa em que

estava ocupado. Daí para a escravidão pura e simples foi apenas um

passo. Não eram passados ainda 30 anos do início da ocupação efe-

tiva do Brasil e do estabelecimento da agricultura, e já a escra-

vidão dos índios se generalizara e instituíra firmemente em toda

parte.

Isto não se fez, aliás, sem lutas prolongadas. Os nativos se

defenderam valentemente; eram guerreiros, e não temiam a luta. A

princípio fugiam para longe dos centros coloniais; mas tiveram lo-

go de fazer frente ao colono que ia buscá-los em seus refúgios.

Revidaram então à altura, indo assaltar os estabelecimentos dos

brancos; e quando obtinham vitória, o que graças a seu elevado nú-

mero relativamente aos poucos colonos era freqüente, não deixavam

pedra sobre pedra nos núcleos coloniais, destruindo tudo e todos

que lhes caíam nas mãos.

Foi este um período agitado da história brasileira. Às guerras

entre colonos e indígenas acrescentaram-se logo as intestinas des-

tes últimos, fomentadas pelos brancos e estimuladas pelo ganho que

dava a venda de prisioneiros capturados na luta. De toda esta agi-

tação eram os índios naturalmente que levavam o pior; mas nem por

isso os colonos deixaram de sofrer muito. São inúmeros os casos

conhecidos de destruição total dos nascentes núcleos; certos seto-

res do litoral brasileiro sofreram tanto dos ataques indígenas