Caio Prado Historia Economica do Brasil
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Caio Prado Historia Economica do Brasil

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que

nunca chegaram a se organizar normalmente; e vegetaram na medio-

cridade, assistindo periodicamente à destruição de suas lavouras e

povoações. Estão no caso o sul do atual Estado da Bahia e o Espí-

rito Santo. Até princípios do século passado ainda sofrerão dura-

mente da agressividade dos índios.

Para fazer frente a este estado de coisas, a metrópole procu-

rará legislar na matéria. Data de 1570 a primeira carta régia a

respeito. Estabelece-se nela o direito da escravidão dos índios,

mas limitada aos aprisionados em "guerra justa". Era entendida co-

mo tal aquela que resultasse de agressão dos indígenas, ou que

fosse promovida contra tribos que recusavam submeter-se aos colo-

nos a entrarem em entendimentos com eles. A esta lei sucederam-se,

a jato contínuo, outras sucessivas que seria muito longo analisar

aqui. Mas todas mantiveram em princípio a escravidão dos índios,

que somente será abolida inteiramente em meados do séc. XVIII.

Manter-se-á, aliás, mesmo depois, embora mais ou menos disfarçada.

A questão indígena e os atritos dela resultantes nunca serão

resolvidos no Brasil senão indiretamente pelo recurso a outras

fontes de trabalho, como veremos abaixo, o que aliviará os índios.

Mesmo assim, sobretudo em regiões mais pobres que não poderão pa-

gar o elevado preço dos escravos africanos, os colonos nunca abri-

rão mão de sua pretensão de constranger os índios ao trabalho; e

não houve lei ou limitação que os detivesse. Este será, entre ou-

tros, o caso de São Vicente (hoje São Paulo). A luta aí continuará

vivíssima pelo séc. XVII adiante, e os paulistas irão buscar os

índios em fuga nos mais longínquos territórios. Daí estas expedi-

ções conhecidas por "bandeiras", que percorrerão todo o interior

do continente e que alargarão consideravelmente, embora sem cons-

ciência disto, os limites das possessões portuguesas. Entre suas

vítimas estarão as missões dos Jesuítas, que se tinham localizado

com seus índios domesticados numa sucessão de núcleos estendidos

pelo coração do continente, desde o rio Uruguai, no Sul, até o al-

to Amazonas. Periodicamente, estas missões serão atacadas pelas

bandeiras, que levarão os índios encontrados em cativeiro. Em mui-

tos casos, os padres desalojados abandonarão a partida; e o terri-

tório, antes ocupado por eles (e incluídos por isso até então,

porque eles eram de origem espanhola, nos domínios castelhanos)

ficará livre para a expansão da colonização portuguesa. A caça ao

índio será um dos principais fatores da grandeza atual do Brasil.

Além da resistência que ofereceu ao trabalho, o índio se mos-

trou mau trabalhador, de pouca resistência física e eficiência mí-

nima. Nunca teria sido capaz de dar conta de uma tarefa coloniza-

dora levada em grande escala. Está aí o exemplo da Amazônia, onde

não chegou a ser substituído em escala apreciável por outro traba-

lhador e onde, em grande parte por isso, a colonização estacionou

até quase nossos dias. É que, de um lado, seu número era relativa-

mente pequeno; doutro, o índio brasileiro, saindo de uma civiliza-

ção muito primitiva, não podia adaptar-se com a necessária rapidez

ao sistema e padrões de uma cultura tão superior à sua, como era

aquela que lhe traziam os brancos. O Brasil, neste assunto, estava

em situação radicalmente diversa do México e dos países andinos.

Aqui será o negro africano que resolverá o problema do traba-

lho. Os portugueses estavam bem preparados para a substituição; já

de longa data, desde meados do séc. XV, traficavam com pretos es-

cravos adquiridos nas costas da África e introduzidos no Reino eu-

ropeu onde eram empregados em várias ocupações; serviços domésti-

cos, trabalhos urbanos pesados, e mesmo na agricultura. Também se

utilizavam nas ilhas (Madeira e Cabo Verde), colonizadas pelos

portugueses na segunda metade daquele século. Não se sabe ao certo

quando apareceram pela primeira vez no Brasil; há quem afirme que

vieram já na primeira expedição oficial de povoadores (1532). O

fato é que na metade do século eles são numerosos.

O processo de substituição do índio pelo negro prolongar-se-á

até o fim da era colonial. Far-se-á rapidamente em algumas regi-

ões: Pernambuco, Bahia. Noutras será muito lento, e mesmo imper-

ceptível em certas zonas mais pobres, como no Extremo-Norte (Ama-

zônia), e até o séc. XIX em São Paulo. Contra o escravo negro ha-

via um argumento muito forte: seu custo. Não tanto pelo preço pago

na África; mas em conseqüência da grande mortandade a bordo dos

navios que faziam o transporte. Mal alimentados, acumulados de

forma a haver um máximo de aproveitamento de espaço, suportando

longas semanas de confinamento e as piores condições higiênicas,

somente uma parte dos cativos alcançavam seu destino. Calcula-se

que, em média, apenas 50% chegavam com vida ao Brasil; e destes,

muitos estropiados e inutilizados. O valor dos escravos foi assim

sempre muito elevado, e somente as regiões mais ricas e florescen-

tes podiam suportá-lo.

Mas seja com escravos africanos, escravos ou semi-escravos in-

dígenas, a organização das grandes propriedades açucareiras da co-

lônia foi sempre, desde o início, mais ou menos a mesma. É ela a

da grande unidade produtora que reúne num mesmo conjunto de traba-

lho produtivo, um número mais ou menos avultado de indivíduos sob

a direção imediata do proprietário ou seu feitor. Ê a exploração

em larga escala, que conjugando áreas extensas e numerosos traba-

lhadores, constitui-se como uma única organização coletiva do tra-

balho e da produção. Opõe-se assim à pequena exploração parcelaria

realizada diretamente por proprietários ou arrendatários.

O seu elemento central é o engenho, isto é, a fábrica propria-

mente, onde se reúnem as instalações para a manipulação da cana e

o preparo do açúcar. O nome de "engenho" estendeu-se depois da fá-

brica para o conjunto da propriedade com suas terras e culturas:

"engenho" e "propriedade canavieira" se tornaram sinônimos. Embora

o proprietário explore, em regra, diretamente suas terras (como

ficou entendido acima), há casos freqüentes em que cede partes de-

las a lavradores que se ocupam com a cultura e produzem a cana por

conta própria, obrigando-se contudo a moerem sua produção no enge-

nho do proprietário. São as chamadas fazendas obrigadas; o lavra-

dor recebe metade do açúcar extraído da sua cana, e ainda paga pe-

lo aluguel das terras que utiliza urna certa porcentagem, variável

segundo o tempo e os lugares, e que vai de 5 a 20%. Há também os

lavradores livres, proprietários das terras que ocupam, e que fa-

zem moer a sua cana no engenho que entendem; recebem então a mea-

ção integral. Os lavradores, embora estejam socialmente abaixo dos

senhores de engenho, não são pequenos produtores, da categoria de

camponeses. Trata-se de senhores de escravos, e suas lavouras, se-

jam em terras próprias ou arrendadas, formam como os engenhos

grandes unidades.

A razão por que nem todas as propriedades dispõem de engenho

próprio são as proporções e o custo das instalações necessárias. O

engenho é um estabelecimento complexo, compreendendo numerosas

construções e aparelhos mecânicos: moenda (onde a cana é espremi-

da); caldeira, que fornece o calor necessário ao processo de puri-

ficação do caldo; casa de purgar, onde se completa esta purifica-

ção. Além de outras, o que todas as propriedades possuem é, em re-

gra, a casa-grande, a habitação do senhor; a senzala dos escravos;

e instalações acessórias ou suntuarias: oficinas, estrebarias,

etc. Suas terras, além dos canaviais, são reservadas para outros

fins: pastagens para animais de trabalho; culturas alimentares pa-

ra o pessoal numeroso;