Suspensão Condicional do Processo
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Suspensão Condicional do Processo

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que, além do recurso em sentido estrito, sendo direito público subjetivo do réu, se lhe for negado, poderá também impetrar habeas corpus alegando constrangimento ilegal.

8 – Período de Prova

8.1 – Conceito e Finalidade

Presentes os requisitos legais, o juiz poderá suspender o processo submetendo o acusado a período de prova nos termos do art. 89, § 1º, da Lei Federal n.º 9.099/95. Entende-se como período de prova o momento em que o acusado, que aceitou a suspensão condicional do processo, deva cumprir certas condições.

É sobremaneira durante o referido interstício que o acusado deve demonstrar autodisciplina e senso de responsabilidade. Para conquistar seu maior desiderato, que é a extinção da punibilidade, deve dar mostras de sua ressocialização, de seu bom comportamento.

O tempo de prova existe precisamente para isso, é dizer, para mostrar a desnecessidade da pena de prisão no caso concreto. É esse pressuposto abstrato que deve ser comprovado em concreto.

8.2 – Duração

O processo será suspenso, conforme o art. 89, por dois a quatro anos. Essa é a duração do período de prova. O juiz não pode, cuidando-se de crime, fixá-lo além ou aquém desses limites. O que pode, como veremos adiante, é flexibilizar as condições. Mas o período é sempre indicado na lei. No momento da audiência conciliatória, o tempo exato deve ser esclarecido detalhadamente para o acusado. É um dos ingredientes do consenso, da transação.

Muitas vezes o acusado pode até estar de acordo com a suspensão, mas se posicionar contra o tempo do período de prova. É imprescindível o consenso do acusado. Justifica-se propor maior tempo de prova, conforme a natureza e gravidade da infração.

8.3 – Período de Provas nas Contravenções

Como já foi visto no item nº 4.1.2, p.16-17, haverá possibilidade de se conceder a suspensão do processo nas contravenções penais, embora o art. 89 utilize a expressão “crimes”. Sendo cabível a suspensão para o mais (crime) também o será para o menos (contravenções). Não havendo a conciliação de que cuida o art 76 (transação penal) o Ministério Público oferece a denúncia. Surge, nesse momento, a possibilidade de suspensão do processo, a ser examinada pelo juiz do Juizado Especial ou pelo juízo comum.

No momento da elaboração da lei não se pensou nas contravenções penais, por isso só foi previsto o período de prova de dois a quatro anos, inspirado, claramente, no art. 77 do Código Penal. Quando se trata do sursis, sabemos que o legislador, fazendo uso do princípio da proporcionalidade, estabeleceu para as contravenções prazo menor (de um a três anos). Efetivamente, não é justo idêntico período de prova.

Em conclusão: pensamos que o art. 11 da Decreto-Lei nº 3.688/41 deve ser aplicado supletivamente, de tal forma que o período de prova, na suspensão condicional do processo contravencional, deve ser de um a três anos.

Em sentido contrário está o entendimento de Folgado (2002, p.126):

Embora o art. 89, da lei nº 9.099/95, refira-se apenas a crimes, é pacífico que também e aplica o instituto às contravenções penais. Contudo, não há que se falar em lacuna no que tange ao prazo para o cumprimento das condições, ante a expressa referência legal. Além disso, a admissão de período de prova diferenciado incorreria em ofensa ao princípio da igualdade, já que tanto as contravenções penais quanto os crimes cuja pena máxima seja igual ou inferior a um ano são considerados infrações penais de menor potencial ofensivo (...).

 No que concerne às condições, são, em princípio, as mesmas do art. 89 da Lei Federal nº 9.099/95, porém flexibilizadas. Principalmente quando se trata de contravenção punida exclusivamente com multa, não se justifica de modo algum, consoante o princípio da proporcionalidade, a fixação de todas as condições do art. 89 da lei retromencionada.

Justifica-se a flexibilização e quiçá, conforme o caso, a não imposição de nenhuma condição, mesmo porque, se o infrator não praticar nenhum outro fato delitivo durante o período de prova, já está dando demonstração de ressocialização.

Pergunta-se: é cabível antecipação de prova na suspensão do processo?

Entendemos que não é cabível a produção de prova antecipada na suspensão condicional do processo. Não se pode presumir que o acusado irá descumprir as condições estabelecidas e, portanto, será o processo reiniciado. Caso houvesse a possibilidade de antecipação de prova melhor seria não conceder a suspensão ante a existência de circunstâncias desfavoráveis.

8.4 – Prorrogação da prova. Aplicação subsidiária do CP. Novo Processo.

Ada Pellegrini et al (2005, p. 367) sustentam que o surgimento de um novel processo contra o acusado não pode, por si só, justificar a revogação. Há impedimento de ordem constitucional (presunção da inocência). Neste caso, ensinam que deve ser aplicado o art. 81, § 2º, do CP [aplicável subsidiariamente conforme art. 92 da Lei Federal n.º 9.099/95] que preconiza: se o beneficiário está sendo processado por outro crime ou contravenção, considera-se prorrogado o prazo da suspensão até julgamento definitivo. Ademais, (Op. cit., p.368) parecem cair em contradição ao sustentar a prorrogação do processo uma vez que, durante este período dilatório, sustentam não haver a subsistência das condições da suspensão por não justificar sua permanência após expirado o período de prova fixado só porque surgiu novo processo pois o acusado é presumidamente inocente. Dizem que a suspensão é programada para prazo certo, implicando obrigações e restrições.

De nossa parte, discordamos do retro posicionamento uma vez que o Supremo Tribunal Federal, em primeiro lugar, a nosso ver com acerto, não acolheu a inconstitucionalidade do § 3º do art. 89 da Lei Federal nº 9.099/95 [“desde que o acusado não esteja sendo processado ou não tenha sido condenado por outro crime”] tendo em vista que, neste caso, o acusado sendo processado ou condenado por outro crime não satisfaz o pressuposto negativo insculpido pela própria lei. Salientamos, porém, que o reconhecimento de um novel processo pode se dar após o período de prova mas com fatos ocorridos até o termo final dele. [STF, HC 86007/RJ, DJ: 29.06.05, Min. Rel. Sepúlveda Pertence; STF, HC: 85.106-1/SP, DJ: 14.12.04, Min. Rel. Sepúlveda Pertence; STF, RHC: 79.460, DJ: 18.05.01, Min. Rel. Nelson Jobim].

A razão de ser desta vedação é repelir que o beneficiário se submeta aos efeitos deletérios do processo. Daí porque resta deveras prejudicado o sentido da política criminal justificadora da chamada suspensão condicional do processo, se no transcorrer do interstício de prova o beneficiário vem a responder a outro processo, razão pela qual se afigura irrelevante não ter sido condenado o acusado no novo processo condenado, no caso, por decisão definitiva.

Em segundo lugar, o legislador da Lei 9.099/95 não previu, pelo menos nas hipóteses de revogação obrigatória, a prorrogação do prazo. Nesse sentido, concordamos com a doutrina de Mirabete (2002, p. 385)

Não cabe no caso de suspensão do processo a aplicação do art. 81, § 2º, do Código Penal, que se refere à prorrogação do prazo do sursis, já que o dispositivo menciona processo “por outro crime ou contravenção”, hipótese que é a própria causa de revogação da suspensão condicional do processo.

Contudo, salientamos haver uma possibilidade de prorrogação do período de prova nos casos de revogação obrigatória. Trata-se da Lei Federal nº 9.605/98 [dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, e dá outras providências] que preconiza em seu art. 28 e incisos:

Art. 28. As disposições do artigo 89 da Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995, aplicam-se aos crimes de menor potencial ofensivo definidos nesta lei, com as seguintes modificações

I – a declaração de extinção de punibilidade, de que trata o § 5º do artigo referido no caput, dependerá de laudo de constatação de reparação do dano ambiental, ressalvada