Suspensão Condicional do Processo
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Suspensão Condicional do Processo

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a impossibilidade prevista no inciso I do § 1º do mesmo artigo;

II – na hipótese de o laudo de constatação comprovar não ter sido completa a reparação, o prazo de suspensão do processo será prorrogado, até o período máximo previsto no artigo referido no caput, acrescido de mais um ano, com suspensão do prazo da prescrição;

III – no período da prorrogação, não se aplicarão as condições dos incisos II, III e IV do § 1º do artigo mencionado no caput;

IV – findo o prazo da prorrogação, proceder-se-á à lavratura de novo laudo de constatação de reparação do dano ambiental, podendo, conforme seu resultado, ser novamente prorrogado o período de suspensão, até o máximo previsto no inciso II deste artigo, observado o disposto no inciso III;

V – esgotado o prazo máximo de prorrogação, a declaração de extinção de punibilidade dependerá de laudo de constatação que comprove ter o acusado tomado as providências necessárias à reparação integral do dano.

8.4.1. Prorrogação da Prova. Não Complementação das Condições Facultativas

Diversa do que acabamos de dizer no item acima é a hipótese do não cumprimento das condições facultativas analisadas no item 10.1.2, p. 66-67. O art. 89, § 4º, da Lei dos Juizados Especiais estabelece como causa facultativa de revogação da suspensão do processo o fato de o beneficiário descumprir “qualquer outra condição imposta”, assim entendidas aquelas não previstas em seu § 3º, que prevê as causas obrigatórias de revogação.

Nas hipóteses do art. 89, § 4º o legislador deixou ao talante do magistrado analisar, em cada caso, a gravidade da falta e a postura do beneficiado. Enquanto não satisfeita a totalidade das condições fixadas na audiência admonitória repelida é a extinção da punibilidade nos termos do art. 89, § 5º, da Lei Federal nº 9.099/95.

Nesse diapasão, entendemos que, ao invés da revogação do benefício, medida por demais extremada, a melhor solução parece ser prorrogar o período de prova até que seja dado cumprimento total das condições exigidas, quando se poderá, por assim dizer, declarar a extinção da punibilidade do réu/beneficiário.

9 – Condições da Suspensão Condicional do Processo

9.1 – Elenco

Nos termos do art. 89, § 1º, da Lei Federal n.º 9.099/95, o juiz pode suspender o processo, submetendo o acusado a período de prova, sob as seguintes condições: a) reparação do dano, salvo impossibilidade de fazê-lo; b) proibição de freqüentar determinados lugares; c) proibição de ausentar-se da comarca onde reside, sem autorização do juiz; d) comparecimento pessoal e obrigatório a juízo, mensalmente, para informar e justificar suas atividades.

O juiz, conforme cada caso concreto, especificará ou não outras condições. É uma faculdade. A expressão “outras condições” pode significar tanto condições distintas no lugar das enumeradas no § 1º, como condições extras que a elas se agregam. A base desta conclusão é o princípio da proporcionalidade.

Tanto as condições do § 1º, como as do § 2º, sob outra ótica, podem ser classificadas como condições explícitas. Umas são positivas (reparar o dano, comparecimento pessoal etc.) enquanto outras são negativas (não freqüentar determinados lugares etc.).

E também existem as condições implícitas, que deduzimos das causas de revogação da suspensão. Seriam as seguintes: a) não ser processado por outro crime; b) não ser processado por contravenção. São duas condições negativas a mais. Para o descumprimento dessas condições só existe uma sanção: revogação da suspensão, reiniciando-se o processo.
9.2 – Necessidade de Comunicação Prévia

As condições da suspensão serão sempre estabelecidas de comum acordo. É decorrência do consenso entre o juiz e o acusado, podendo o Ministério Público fazer sugestões.

Mas há necessidade de prévia comunicação, ou seja, o acusado tem que estar absolutamente ciente de todas as condições que serão fixadas. Só assim, aliás, pode-se dizer que a manifestação da sua vontade foi consciente, espontânea.

 É requisito de validade da aceitação da suspensão, portanto, que todas as condições, especialmente as que o juiz fixará fazendo uso do seu poder discricionário, sejam devidamente muito bem explicadas no momento do consenso.

O sucesso da suspensão do processo depende muito da espontaneidade do acusado.

 9.3 – Princípios da Adequação e da Dignidade

Na parte final do § 2º do art. 89 a lei exige que outras condições [fixadas pelo juiz] sejam “adequadas ao fato e à situação do acusado”. É o princípio da adequação, que deixa suas raízes na proporcionalidade. O princípio da adequação, diga-se de passagem, está para a suspensão como o princípio da individualização está para a pena.

O que o legislador quer, resumindo, é que haja proporcionalidade entre o fato e o seu autor, de um lado, e as condições da suspensão, de outro. O significado desse princípio é muito maior do que se possa imaginar. Dá a impressão, numa leitura célere da lei, de que só deve estar presente nas “outras” condições.

Nada mais inverídico. Todas as condições (qualitativa e quantitativa) devem se ajustar ao princípio da adequação, sob pena de absurda injustiça.

Salienta-se que as condições da suspensão contam, no entanto, com um limite, inclusive constitucional, que é a dignidade da pessoa humana, calcada como fundamento da república Federativa do Brasil (CF, art. 1º, inc. III). Não podem ser fixadas condições cruéis ou humilhantes ou que violem a Constituição.

A lei aponta o que deve servir de base para a proporcionalidade, isto é, as condições devem ser consentâneas ao fato e à situação pessoal do acusado.

No que atina ao fato, impõe-se levar em consideração o grau da sua culpabilidade, suas conseqüências, suas circunstâncias, o comportamento da vítima etc. Quanto à situação pessoal do acusado não se pode perder de vista sua conduta social, personalidade, vínculos com a vítima, situação econômica, local do trabalho, profissão etc.

9.4 – Prevenção Geral e Prevenção Especial

O escopo que deve ser trazido no momento de fixar as condições da suspensão condicional do processo é duplo: que se cuide da prevenção geral (eficácia intimidatória do direito penal), bem como da prevenção especial (eficácia derivada das mesmas condições no sentido de permitir a ressocialização do infrator pela via alternativa).

Cabe ainda acrescentar que na suspensão está presente, outrossim, a reafirmação do ordenamento jurídico, isto é, não se pode olvidar a possível motivação pela aplicação da norma, tal como propõe a teoria da prevenção geral positiva.

O instituo da suspensão do processo nem pode criar o sentimento de impunidade, nem pode ser algo inútil, sem nenhuma finalidade. Dele se espera muita coisa: ressocialização do infrator, reparação dos danos à vítima, quando possível, não estigmatização, etc. Muitas são as expectativas que devem ser atendidas pela suspensão do processo: do próprio infrator de não ser estigmatizado; da vítima de ser reparada; da Justiça de não gerar impunidade.

Os interesses são múltiplos e às vezes até conflitantes. Nem por isso podem deixar de ser compatibilizados dentro do novo modelo de Justiça Criminal. Deve-se buscar o equilíbrio entre a infração e a resposta estatal, assim como entre a prevenção geral e a especial.

9.5 – Flexibilização das Condições

Por força do princípio da adequação, que dá parâmetros à fixação de todas as condições, pensamos ser sustentável a tese de que o magistrado, sobretudo porque o modelo consensual de Justiça Criminal é, por sua própria natureza, informal, no momento da concessão da suspensão pode flexibilizar as condições aparentemente obrigatórias do § 1º, do art. 89. O que não se pode perder de foco é a prevenção geral e especial, ambas exigíveis sempre.

Dito diferentemente: não se pode mudar o instituto da suspensão em fonte de impunidade nem em algo ineficaz. Principalmente nas contravenções penais, muitas vezes pode não se justificar nenhuma condição (contravenção punida exclusivamente com multa).

Um crime