Suspensão Condicional do Processo
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Suspensão Condicional do Processo

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consumado não pode ter as mesmas condições de um crime tentado. Neste, como se sabe, a ofensa ao bem jurídico é somenos ao querido pelo autor por razões alheias a sua vontade. Exatamente por isso, não se justifica que as condições sejam sempre as mesmas. Faz-se mister a individualização da resposta estatal. Aqui feita em nível judicial. Se o legislador em âmbito abstrato (cominação) diferencia o crime consumado do crime tentado, é evidente que o juiz, na hora de fixar a resposta estatal, não pode perder de vista tal distinção.
In thesis, tanto o homicídio culposo como o furto simples de um velotrol admitem a suspensão do processo. Contudo, não pode significar que as condições da suspensão devam ser estanques. Não haveria proporcionalidade, que é a medida do justo.

9.5.1 – Reparação do Dano

O juiz, a partir da entrada em vigor da Lei Federal nº 11.719/08, que deu novel redação ao inc. IV do art. 387 do Código de Processo Penal, ao proferir sentença condenatória, deverá fixar o valor mínimo na reparação de dano na sua sentença condenatória. Logo, a decisão do magistrado que revoga a suspensão do processo em razão do não cumprimento tem força executiva.

Contudo, analisando o art. 89 da Lei Federal nº 9.099/95 percebemos que a reparação do dano continua não sendo condição para a suspensão do processo, senão condição da extinção da punibilidade. Vê-se, portanto, que a exigência atinente à reparação dos danos é condição que o acusado deverá cumprir caso concorde com a proposta de suspensão. Noutro dizer, não há falar, no que pertine à suspensão do processo, em composição de dano antes do interstício de prova a que o acusado será submetido.

Não é preciso que haja reparação prévia, isto é, não é mister pagar os danos antecipadamente para se obter a suspensão. Ao longo do período de prova é que deve ocorrer a reparação dos danos. É no instante da extinção da punibilidade que está o prazo máximo para se comprovar tal reparação, salvo impossibilidade de fazê-lo. No sentido do texto ora exposto: STJ, HC: 7637/GO, DJ 26.10.98, Min. Rel. Felix Fischer.

Muitas vezes, de outro lado, não será possível a reparação nos termos indicados pelo magistrado, hipótese em que outras condições podem ser propostas desde que adequadas ao fato e à situação do acusado conforme dito no item 9.3., p. 59-60. Havendo, no entanto, reparação parcial, na medida do possível para o acusado, já será o suficiente para se reconhecer que o acusado preocupou-se com “sua” vítima.

A reparação, ainda que parcial, já constitui indício de ressocialização. E quando não for possível nenhum tipo de reparação, justifica-se então a fixação de outras condições que possam ensejar ao acusado a oportunidade de demonstrar sua ressocialização por outras vias. O importante é que se dê mostra de boa vontade, de respeito ao ser humano e aos valores constitucionalmente reconhecidos.

Na hipótese de o pagamento da indenização ser feito por terceiro, é importante ter ciência desse detalhe. Neste caso o juiz procurará fixar outras condições que permitam ao acusado dar mostras de seu arrependimento.

Pode ser que, no caso de responsabilidade solidária, o acusado, de menor posse, arque com o pedido da diferença, contra o outro responsável solidário. Se a vítima renunciar à indenização, convém que fique registrada essa manifestação da sua vontade.

Se estiver pendente a liquidação do quantum da indenização no tempo do escoamento do período de prova, haverá a extinção da punibilidade, mesmo que não seja, posteriormente, adimplida, tendo em vista que o não pagamento deveu-se em razão de não se saber o valor certo. A revogação da suspensão só pode acontecer quando o acusado, sem motivo justo, deixa de efetuar a reparação.
9.5.2 – Prestação de Serviços à Comunidade, Interdição de Direitos e Limitação de Finais de Semana

Essas três modalidades de sanção aparecem no Código Penal como penas substitutivas – CP, art. 44. A primeira e a terceira também configuram condições do sursis.

Desde logo, como se percebe, para se descobrir a natureza jurídica de cada instituto, o que mais importa são as conseqüências do seu descumprimento.

A distinção fundamental entre “pena substitutiva” e “mera condição” reside exatamente nisto: o descumprimento de uma pena substitutiva pode provocar a sua conversão em prisão, enquanto o descumprimento de uma condição não pode ter a mesma conseqüência.

Questiona-se muito hoje o fato de a suspensão condicional da pena (o mais rigoroso) ter como condição obrigatória, no primeiro ano do período de prova (CP, art. 78, § 1º) ou a prestação de serviços à comunidade ou a limitação de fim de semana.

Um dos fortes argumentos contra tal disciplina jurídica consiste exatamente em que, neste caso, o legislador colocou como condição do sursis uma pena substitutiva. O descumprimento dessa “condição” leva à revogação do sursis e, em conseqüência, à prisão. Isso, no entanto, não se passaria na suspensão do processo.

No que concerne à suspensão condicional do processo, em suma, tais “injunções” configurariam claras condições, pelo seguinte: se descumpridas, não provocariam a conseqüência da prisão, senão a revogação da suspensão (e reinício do processo).

 O que acaba de ser exposto constitui o argumento central para se sustentar a tese de que, como verdadeiras condições, pode o juiz determinar, com espeque no art. 89, § 2º da Lei Federal nº 9.099/95, na suspensão do processo, a prestação de serviços à comunidade, a interdição de direitos e a limitação de fim de semana.

São obrigações ou restrições sumamente relevantes para o sucesso da suspensão condicional do processo. Pela flexibilidade que possuem, podem ser ajustadas a muitos casos. O efeito preventivo geral, sobretudo, dependerá muito da imposição de tais “injunções” como condição da suspensão condicional do processo. Não valeria o argumento de que são penas substitutivas e não podemos confundir “pena com “condição”. Mas nada impede que uma obrigação cumpra diferentes funções dentro do ordenamento jurídico, conforme cada caso.

Vejamos o que já se passa hoje com a prestação de serviços à comunidade, por exemplo: no art. 44 do CP ela é pena substitutiva; no art. 78, § 1º, ela é condição do sursis; no art. 76 da Lei Federal n.º 9.099/95 ela é pena alternativa. Na essência, é a mesma coisa.

A diferença está nas conseqüências do descumprimento em cada caso, como vimos. Se tal obrigação já cumpre vários papéis no ius positum, nada impede que também seja “condição” da suspensão. E efetivamente terá essa natureza, porque, se descumprida, só provocará o reinício do processo e nada mais.

O que não é concebível é confundir a natureza dos institutos. De modo algum seria admissível a prestação de serviços à comunidade como “pena” dentro da suspensão do processo. Mas como “condição” não vemos obstáculo.

Em sentido contrário ao dito por nós está a doutrina de Borges de Andrade (1996, p.97):

Como a suspensão não está suspendendo nenhuma pena, entendemos, de nenhum tipo descrito no Código Penal pode ser exigido do beneficiado, sob qualquer pretexto ou denominação. Há uma transação processual sem admissão de culpa. E não se fala em pena de culpa, por garantia constitucional (art. 5º, XVII e XXXIX, CF), mesmo que consentida e imprópria.

10 – Revogação da Suspensão Condicional do Processo

10.1 Classificação das Causas Revogatórias

Pelo que ficou estatuído nos parágrafos terceiro e quarto do art. 89, quatro são as causas que revogam ou podem revogar a suspensão do processo: a) ser processado por outro crime no curso do período de prova; b) não efetuar, sem motivo justificado, a reparação de dano; c) ser processado, no curso do período de prova, por contravenção; e d) descumprir qualquer outra condição imposta. As duas primeiras são causas obrigatórias de revogação do instituto; já as duas últimas são causas facultativas.

10.1.1 – Causas Obrigatórias

A primeira causa obrigatória de revogação da suspensão condicional do processo, como visto,