Suspensão Condicional do Processo
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Suspensão Condicional do Processo

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é feita pelo órgão acusador ou querelante, cuja aceitação cabe ao acusado, querelado e seus defensores. Cada um cede uma parcela do seu direito.

Logo, percebe-se que difere em absoluto do instituto do plea bargaining norte-americano que há uma ampla possibilidade de transação, abreviando o processo, eliminando a colheita de prova, suprimindo a fase de debates entre as partes. Pode, outrossim, ser extraprocessual a transação. O agente do fato delituoso admite a sua culpabilidade, em troca de benefícios legais. O escopo do instituto é garantir a elucidação de crimes, assegurar uma rápida punição aos autores de crimes e diminuir a carga de labor no Poder Judiciário.

Salienta-se que, segundo Marques da Silva (1997, p. 61-62), a prática do plea bargaining nos Estados Unidos soluciona de 80 a 95 % de todos os crimes. No entanto, suscita controvérsia entre os juristas e os criminólogos americanos, apontando insistentemente para a desigualdade e a injustiça que se refletem neste instituto e que este, por sua vez, potencia e amplia.

Em conseguinte, ao mencionar que o ato bilateral depende de uma decisão do magistrado para alcançar o que se pretende quer isso dizer que a suspensão condicional do processo é mero ato de postulação (as partes dependem de uma decisão do juiz para alcançar o pretendido) e não ato de causação (o acordo das partes produz seu efeito diretamente na relação processual, sem a interferência decisória do juiz). Os atos de postulação são deveras necessários para que seja repelida a dissimulação de negociações escusas entre as partes.

Ao ser informado que o processo paralisa sem que o acusado conteste a imputação, caso todas as condições fixadas sejam cumpridas, durante determinado período de prova, significa falar que a suspensão condicional do processo assemelha-se ao instituto do nolo contendere, afastando, nesse comenos, da probation Anglo-Saxônica, que exige a prova de culpabilidade do acusado.

Noutras palavras, na probation o que se suspende é a sentença condenatória. O juiz declara o acusado culpado e após, caso haja concordância, ele entra em período probatório. Concluído esse interstício de prova sem nenhum problema, encerra-se o caso sem a sentença final condenatória.

Não se confunde, outrossim, com o guilty plea (instituto tradicional Anglo-saxônico) que discute a culpabilidade do imputado, admitindo a prática da conduta delituosa como uma forma de defesa perante o juízo.

Este instituto, de acordo com ensinamentos de Folgado (2002, p.73), pode se dar de três formas: 1 – voluntariamente (uninfluenced plea), na qual o acusado confessa sua culpabilidade em razão de não haver possibilidade de ser absolvido; 2 – induzida (structurally induced plea), em que o acusado admite sua culpa, pois prevê uma pena mais grave para quem insiste em uma sentença de mérito, ou porque os juízos aplicam uma pena mais benéfica a quem admite sua culpa e; 3 – plea bargaining, por nós já analisado no primeiro parágrafo deste subtítulo.

Conforme acima mencionado, nos crimes em que a pena mínima cominada for igual ou inferior a 1 (um) ano, o Ministério Público, com espeque no art. 89 da Lei Federal n.º 9.099/95, ao oferecer a denúncia, pode propor a suspensão do processo, desde que o acusado preencha certos requisitos legais.

Nesse diapasão, não se confunde com o sursis (suspensão condicional da pena) estabelecido no art. 77 do Código Penal, tendo em vista que este instituto instaura-se o processo, realiza-se a instrução e no final o magistrado, caso venha a condenar o acusado, pode suspender a execução da pena.

Presentes os requisitos legais, suspende-se a execução da pena privativa de liberdade por um certo lapso temporal, durante o qual o condenado cumpre algumas condições. Findado o prazo sem ter havido revogação, extingue-se a pena que estava suspensa. Portanto, a nós não nos parece acertado o uso da expressão sursis processual para se referir à suspensão condicional do processo.

Por fim, a suspensão condicional do processo não se confunde com a transação regulada pelo artigo 76 da Lei Federal nº 9.099/95 uma vez que nesta pode ser admitida em se tratando de contravenções ou de crimes cuja pena máxima in abstracto não ultrapasse dois anos enquanto naquela é perfeitamente admissível desde que a pena mínima cominada não supere 1 (um) ano.

Ela, transação, na maioria dos casos, não pressupõe denúncia, afora a hipótese de ser formulada no procedimento sumaríssimo, enquanto a suspensão condicional do processo, após o oferecimento da denúncia e de o juiz proceder ao exame de admissibilidade da demanda é que deverá ocorrer a audiência para a apreciação da sua proposta.

Também, na transação penal é imposta ao autor do fato uma multa ou medida restritiva de direitos, ao passo que na suspensão não haverá multa nem medida restritiva de direitos, tão-somente a promessa de cumprimento de algumas condições que podem ser impostas, à semelhança do que se dá com o sursis.

Para finalizar, na transação penal encerra-se com a aplicação da pena (CP, art. 76, § 4º) e na suspensão condicional do processo, não havendo revogação da medida, culmina com a extinção da punibilidade, não havendo imposição de pena (Lei Federal n.º 9.099/95, art. 89, § 5º).

3 – Princípios

3.1– Noções de Princípios

A noção de princípio, como preceito axiomático, surgiu posteriormente ao costume. Com arrimo nessa assertiva pode-se afirmar que, no início, foi o costume. Depois veio a norma e, no bojo dela, os costumes e os princípios em forma de regra de direito.

Os princípios jurídicos têm sua fundamentação básica no direito natural, pois sua vigência independe da existência de qualquer documento ou preceito escrito. Numa acepção comum, a palavra princípio denota início, começo, origem.

No sentido jurídico do termo, a palavra princípio isoladamente outrossim possui o mesmo significado do seu entendimento vulgar.

Quando, no entanto, se emprega essa palavra no plural [princípios], modifica-se completamente a sua significação, pois passa a dar a idéia de regras ou de preceitos que antecedem a própria norma ou podem influenciar a criação desta, exercendo, com isso, raio de ação aplicável a toda espécie de movimento jurídico.

 3.1.1 – Princípio da Discricionariedade Regrada ou da Oportunidade

O primeiro princípio que fundamenta a suspensão condicional do processo é o da discricionariedade regrada ou da oportunidade porque, sem que o órgão acusatório tivesse a possibilidade de dispor da via persecutória normal, não seria possível, clarividente, a suspensão, que, por ser instituto despenalizador indireto, se chega, por intermédio processual, depois de cumpridas certas exigências, à extinção da pretensão punitiva estatal.

A regra continua sendo o princípio da obrigatoriedade. Excepciona, contudo, em certas hipóteses numerus clausus, o dever de o Ministério Público dispor da persecução criminal para propor alguma medida alternativa. A isso se dá o nome de princípio da oportunidade regrada ou discricionariedade regulada ou controlada.

Entretanto, este princípio preconizado pela Lei Federal n.º 9.099/95 não permiti ao Parquet deixar de atuar simplesmente. Ele pode dispor da persecutio criminis estabelecida pela lei, para adotar uma via alternativa. Porém, não pode deixar de agir por motivos de oportunidade.

Presentes os requisitos legais, tem que agir em favor da via alternativa eleita pelo legislador, o qual é o detentor da política criminal e não o Ministério Público, que tão-somente a cumpre.

 3.1.2– Princípio da Autonomia da Vontade do Acusado

O segundo princípio que fundamenta a suspensão condicional do processo é o da autonomia da vontade do acusado, que, caso discorde da proposta, não há falar em suspensão. Seria inimaginável expor alguém em período probatório, sem culpabilidade formada, independentemente de sua vontade.

Acrescente-se que a sua aceitação nada mais significa que a expressão da ampla defesa constitucionalmente garantida no