Suspensão Condicional do Processo
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Suspensão Condicional do Processo

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art. 5º, inc. LV. Para o exercício de um direito constitucional nos aparenta justo que o acusado possa abrir mão de outros direitos da mesma natureza. Aceitar ou não a suspensão passa a ser estratégia da defesa. É por isso que a lei exige que ambos (acusado e defensor) se manifestem.

3.1.3– Princípio da Desnecessidade da Pena de Prisão

O terceiro princípio que norteia a suspensão condicional do processo é o da desnecessidade da pena de prisão de curta duração. Parte-se do pressuposto de que o mais importante ao Estado não é punir, mas reintegrar o agente do fato delituoso e reconduzi-lo à sociedade.

Toda vez que esta reintegração social possa ser obtida longe das grades de um cárcere, e independentemente do cumprimento de outra sanção penal, recomenda a lógica e a melhor política criminal que não seja o autor do fato punido ou mesmo submetido ao processo, desde que, por óbvio, se obrigue ao cumprimento de certas condições.

Além do mais, é público e notório que a execução da pena, na prisão, muitas vezes, desencadeia numa carreira criminosa, fazendo com que o condenado, em vez de incutir na sua mente que o crime praticado não compensa, seja reincidente!!!

4 – Seara e Requisitos de Admissibilidade

4.1– Seara de Admissibilidade

O âmbito de incidência da suspensão condicional do processo abrange os seguintes casos, os quais ocasionam, em grande parte, divergências doutrinária e jurisprudencial.

4.1.1 – Pena Mínima Cominada não Superior a Um Ano

Conforme o disposto no art. 89 da Lei Federal n.º 9.099/99, a suspensão condicional do processo tornou possível “nos crimes em que a pena mínima cominada for igual ou inferior a um ano”.

Salienta-se que não importa, destarte, se o delito tem ou não procedimento especial (envolve, portanto, em tese, v.g. crimes eleitorais, ou se o delito está previsto no Código Penal ou em lei especial). Logo, acopla alguns crimes de sonegação fiscal (por exemplo o art. 1º da Lei Federal nº 4.729/65), crimes ambientais (v.g. arts. 44, 45, 46 da Lei Federal nº 9.605/98) etc.

O marco fulcral é a pena mínima cominada em abstrato. Por isso, a admissibilidade ou não da suspensão condicional do processo é independente da pena em concreto. O que conta é a individualização primária da pena (feita pelo legislador), não a posterior, que será feita pelo juiz.

Mesmo que já se vislumbre a hipótese de que no final haverá sursis (caso de pena mínima cominada de dois anos, v.g.) mesmo assim, se em abstrato o mínimo excede de um ano, não é possível a suspensão do processo. Não importa, tampouco, se o processo é da competência originária de Tribunal.

No plano abstrato o legislador fez a seleção para que em seguida houvesse a incidência da sua nova política criminal transacional. A escolha da messe de incidência dessa novel política criminal é exclusiva do legislador. Ninguém pode, portanto, substituí-lo nessa tarefa.

Nas hipóteses em que penas diversas vêm cominadas alternativamente (prisão mínima acima de um ano ou multa, ad exemplum, arts. 4º, 5º e 7º da Lei Federal n.º 8.137/90) nos parece clarificado o cabimento da suspensão condicional do processo, pois a pena mínima cominada é a de multa. Se a lei dos Juizados Especiais (art. 89) autoriza a suspensão em caso de pena privativa de liberdade mínima até um ano, a fortiori, conclui-se que, quando a pena mínima cominada é a de multa, também cabe tal instituto. Pouco importa que a multa seja, no caso, alternativa.

Se o legislador previu tal pena como alternativa possível é porque, no seu entender, o delito não é daqueles que necessariamente devam ser punidos com pena de prisão. Se a lei contentou-se com a multa alternativa, é porque, conforme seu entendimento, não se trata de delito de assaz gravidade.

Conforme já mencionado, o critério determinante para a admissibilidade da suspensão é o da pena cominada.

Com o advento da Lei Federal n.º 10.259/01, que criou os Juizados Criminais na seara federal e alargou o conceito de infração de menor potencial ofensivo para dois anos, surgiu o questionamento no sentido de ser esse novo limite também aplicável para a suspensão condicional do processo.

Num primeiro momento, a 5ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, inexplicavelmente, aventurou-se no sentido de aplicar o prazo de 2 (dois) anos para a suspensão condicional do processo, conforme ementa que segue:

PENAL E PROCESSUAL PENAL. RECURSO ORDINÁRIO DE HABEAS CORPUS. LEI Nº9.099/95. LIMITE DE 01 (UM) ANO. SUSPENSÃO CONDICIONAL DO PROCESSO. MAJORANTE (CRIME CONTINUADO). LEI Nº 10.259/01. LIMITE DE 02 (DOIS) ANOS. SÚMULA 243/STJ.

I – Para verificação dos requisitos da suspensão condicional do processo (art. 89), a majorante do crime continuado deve ser computada.

II – "O benefício da suspensão do processo não é aplicável em relação às infrações penais cometidas em concurso material, concurso formal ou continuidade delitiva, quando a pena mínima cominada, seja pelo somatório, seja pela incidência da majorante, ultrapassar o limite de um (01) ano”. Súmula 243/STJ.

III – A Lei nº 10.259/01, ao definir as infrações penais de menor potencial ofensivo, estabeleceu o limite de dois (2) anos para a pena mínima cominada. Daí que o artigo 61 da Lei nº 9.099/95 foi derrogado, sendo o limite de um (01) ano alterado para dois (dois) anos, o que não escapa do espírito da Súmula 243 desta Corte. Recurso provido para afastar o limite de um (01) ano, e estabelecer o de dois (02) anos, para a concessão do benefício da suspensão condicional do processo. "RHC 12033/MS; RECURSO ORDINARIO EM HABEAS CORPUS 2001/0129618-4 DJ DATA:09/09/2002 PG:00234 RJTAMG VOL.:00087 PG:00379 Relator Min. FELIX FISCHER (1109).

Em face de tal acórdão, houve interposição de embargos de declaração, por parte do Ministério Público Federal, alegando que houve contradição no julgado, ao mesclar o conceito de alteração de infração de menor potencial ofensivo (decorrente da Lei Federal nº 10.259/01) com o patamar mínimo para a suspensão condicional do processo.

Em decisão publicada no DJ de 10.03.03, a 5ª Turma, por unanimidade, acolheu os embargos de declaração, dando-lhes, excepcionalmente, caráter infringente, para, entendendo com espeque no voto do Ministro Relator Félix Fischer, restabelecer o entendimento de que a alteração do artigo 2º da Lei Federal nº 10.259/01 não alcançou o patamar previsto para a suspensão condicional do processo, que permanece alterado. Veja o acórdão:

PENAL. PROCESSUAL PENAL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. RECURSO ORDINÁRIO. INFRAÇÃO DE MENOR POTENCIAL LESIVO. SURSIS. PROCESSUAL PENAL. LEI Nº 10.259/01 E LEI Nº 9.099/95. EFEITOS INFRINGENTES.

I - A Lei nº 10.259/01, em seu art. 2º, parágrafo único, alterando a concepção de infração de menor potencial ofensivo, alcança o disposto no art. 61 da Lei nº 9.099/95.

II - Entretanto, tal alteração não afetou o patamar para o sursis processual (Aplicação da Súmula nº 243-STJ). Contradição reconhecida com efeito infringente. Embargos acolhidos, ensejando o desprovimento do recurso ordinário. (Edcl no RHC 12033/MS; 5ª Turma; Min. Rel: Félix Fischer; DJU 03.12.02; DJ: 10.03.2003 p. 243 RSDPPP Vol. 19 p.90).

Este posicionamento está sedimentado e, com razão, é o mais correto uma vez que na suspensão condicional do processo o que vale é o critério da pena mínima cominada, não o da pena máxima. Não se pode confundir suspensão do processo (pena mínima) com infração de menor potencial ofensivo (pena máxima).

4.1.2 – Contravenções

O caput do artigo 89 da Lei Federal nº 9.099/95 prescreve que será suspenso o processo nos crimes em que a pena mínima cominada for igual ou inferior a um ano.

Contudo, embora o mencionado artigo utiliza-se da palavra “crime” não significa, por raciocínio lógico, que estejam repelidos de seu raio de incidência as contravenções penais porque se cabe para o maior (crime) deve ser admitida para o menor (contravenções). Permitida a suspensão condicional do processo ao autor de crime, infração