Suspensão Condicional do Processo
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Suspensão Condicional do Processo

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comenta Damásio (2003, p. 136) que:

A orientação da súmula é mais rigorosa do que a lei. No concurso material as penas não são somadas até para fins de prescrição da pretensão punitiva (CP, art. 119). No crime continuado, criado para beneficiar o agente, não cremos legítima a incidência do acréscimo, que é desprezado até na contagem do prazo prescricional da pretensão executória (Súmula 497 do STF).

4.1.5 – Crimes Conexos Cometidos pelo Mesmo Acusado

Se ao acusado for imputado um delito (ou mais) que, pela pena mínima abstrata, admite a suspensão e outro (ou outros) que não a admite, o que deve nortear a concessão ou não do instituto alternativo (para o primeiro delito que poderá admitir a suspensão dependendo do caso concreto) é o critério diferenciado utilizado no concurso de crimes, isto é, numa primeira fase, pela pena chega-se á conclusão de que um (ou alguns crimes), isoladamente considerado, autoriza a suspensão.

Mas é indispensável, conforme dito no tópico anterior, a segunda fase de valoração, que é a subjetiva ou global, é dizer, todos os crimes cometidos devem ser analisados conjuntamente (a culpabilidade, grau de reprovação, intensidade do dolo, grau da culpa, conseqüências, motivação, reparação, consideração com a vítima etc.). Tendo em vista a pena cominada para um dos delitos, pode ser possível a suspensão. Mas, às vezes, examinado o mérito como um todo, tal medida não se justifica.

Considere-se, v.g. uma receptação própria e qualificada, em conexão. O primeiro em tese admite a suspensão. O segundo não. Seria possível cindir o processo e conceder a suspensão em relação ao primeiro? Pela pena cominada, sim, pelo mérito como um todo depende de cada caso concreto.

Se o acusado está preso pelo crime conexo que não admite a suspensão da pena ou a substituição por restritiva de direitos, é evidente que não se pode nem sequer cogitar da suspensão condicional do processo em relação ao crime que a admite, em tese. O preso não tem como cumprir as condições da suspensão, sobretudo o comparecimento mensal em juízo. Ao revés, se o crime mais grave comportar restritiva de direitos ou sursis, nada impede que haja a suspensão para o de menor gravidade.

E na hipótese de infrações conexas em que uma delas admite transação e a outra suspensão? Cremos que deverá haver desmembramento do processo a fim de que se possibilite a suspensão daquele em que é possível a suspensão. Nesse sentido: STF, HC 75.193-8, DJ 29.08.1997, Min. Rel. Sydney Sanches.

Se no momento adequado rejeitou-se a suspensão condicional do processo em virtude da conexão de crimes, caso, no final, o juiz venha absolver o acusado de um deles, é pertinente a renovação da proposta de suspensão, desde que preenchidos todos os requisitos legais, visto que, com a absolvição, está desfeita a conexão. É como se o acusado, desde o princípio, respondesse por um só crime.

4.1.6 – Crime Imputado a Vários Acusados. Separação dos Processos

Havendo co-autoria ou participação (que é hipótese de continência, nos termos do art. 77 do CPP), pode ser que um dos acusados faça jus à suspensão e o outro não. Nesse caso, separa-se o processo, nos termos do art. 80 do CPP.

Conforme o resultado do processo em relação ao réu a quem não se concedeu a suspensão do processo, pode ser o caso de se dar “efeito extensivo ao recurso” (CPP, art. 580). Eventual absolvição por atipicidade da conduta, por exemplo, tem que beneficiar também o acusado que conseguira a suspensão.

4.1.7 – Ação Penal Privada

O caput do art. 89 da Lei Federal n. 9.099/95 só faz menção à proposta da suspensão condicional do processo pelo Parquet ao oferecer a denúncia, logo, o previu na ação penal pública, mas não prescreveu sobre a possibilidade ou não em relação à ação penal privada.

Damásio de Jesus (2003, p. 120) leciona não caber a suspensão do processo na ação penal privada tendo em vista que o nosso ordenamento já prevê meios de encerramento da persecução criminal pela renúncia, decadência, reconciliação, perempção, perdão, retratação etc.

Cezar Bitencourt também entende não ser possível a suspensão processual uma vez que:

Parece, à primeira vista, que houve um cochilo do legislador ao limitar a natureza das infrações penais, que podem ser objeto da suspensão condicional do processo: somente os crimes de ação pública, condicionada ou incondicionada, podem beneficiar-se com a suspensão do processo. Embora não diga expressamente, a redação do art. 89 não deixa margens à dúvida ao determinar que o Ministério Público, ao oferecer denúncia, poderá propor a suspensão do processo. Ora, como nos crimes de ação de exclusiva iniciativa privada a ação penal não inicia com o oferecimento da denúncia – que não existe – mas com o oferecimento da queixa-crime, pelo próprio ofendido, através de seu advogado, não configura o momento processual em que ‘o Ministério Público oferece denúncia’ (apud Ribeiro, 2000, p. 89-90).

Respeitando opiniões de balizados doutrinadores, sendo a suspensão do processo uma mitigação do princípio da obrigatoriedade da ação penal, desde que preenchidos os requisitos insculpidos pela lei, pautando no critério da titularidade da ação penal para recusar a aplicação do instituto para alguns réus e aplicá-lo a outros é violar flagrantemente o princípio da isonomia, incorrendo em inconstitucionalidade haja vista que a pessoa processada pela prática de um crime cuja ação penal seja privada receberia um tratamento jurídico mais gravoso que aquela processada por haver praticado um crime de ação penal pública, pois apenas neste último caso faria jus o réu à medida processual alternativa à sanção penal, apesar de ambos cumprirem os requisitos do art. 89, caput da Lei Federal nº 9.099/95.

Se até mesmo em relação aos crimes de ação pública, que envolve interesses públicos indiscutíveis, cedem para a incidência da suspensão do processo, com muito maior razão deve ser admitida em relação a crimes de ação penal privada, onde predominam interesses privados. Pela própria natureza, estes a fortiori não contam com primazia diante dos interesses públicos.

Ademais, o sistema de consenso entre o ofensor e a vítima é modalidade que não equivale à renúncia do direito de ação na transação penal e não implica, portanto, na mitigação do princípio da indisponibilidade da ação penal, com relação à suspensão. O sistema de modelo político-criminal consensuado, que além da simplicidade, economia processual, oralidade e celeridade, se apóia na conciliação e transação, sobressaindo-se os interesses da vítima.

A suspensão condicional do processo, por não ter natureza do perdão – que afeta imediatamente o ius puniendi – nem da perempção – que é sanção processual ao querelante inerte, moroso – pode ser proposta pelo querelante, pois este está fazendo uma opção pela incidência de uma resposta estatal alternativa, agora permitida, mas que é também resposta estatal ao delito. Se o querelante pode o mais, que é perdoar, é evidente que pode o menos – optar pela solução alternativa do litígio.

Por fim, considerem-se ainda os interesses públicos gerais presentes no instituto da suspensão, que transcendem em muito os interesses pessoais dos envolvidos no litígio. Dentre aqueles se destacam: ressocialização do infrator pela via alternativa da suspensão, reparação de danos sem necessidade de um processo civil de execução, desburocratização da Justiça etc.

Inviabilizada a suspensão na ação penal privada, nada disso será alcançado. Nem tampouco a meta político-criminal que o legislador quis imprimir para a chamada criminalidade de menor ou médio potencial ofensivo.

Contudo, caso o querelante recuse a oferta de suspender o processo nada mais poderá ser feito fazendo com que o juiz dê regular processamento do feito: STJ, HC: 60-933/DF, DJU 20.05.08, Min. Rel. Arnaldo Esteves Lima.

4.1.8 – Qualificadora, Aumento e Desclassificação de Pena

Todas as vezes que for invocada na peça acusatória uma qualificadora ou uma causa de aumento de pena faz-se necessário