Suspensão Condicional do Processo
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Suspensão Condicional do Processo

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que o magistrado examine se existe justa causa para a qualificadora ou causa de aumento para descobrir a pena mínima em abstrato conforme visto no item nº 4.1.3, p. 17.

Por via indireta, situações como essas, em que muitas vezes estarão em jogo relevantes interesses do autor do fato vai obrigar os juízes, a certo sentido, tomar nova postura no ato do recebimento da denúncia que, hoje, lamentavelmente, longe está de cumprir o disposto no art. 93, IX, da C.F.

Se todas as decisões dos magistrados devem ser fundamentadas, é evidente que o recebimento de uma peça acusatória também necessita de tal providência.

Não se pode olvidar que é a partir do recebimento dela que o autor do delito ganha o status de acusado, sujeitando-se a todos os rituais degradantes inerentes a qualquer processo.

Constatando o juiz que não existe justa causa para a qualificadora ou causa de aumento de pena constante na denúncia, seja liminarmente ou após a apresentação de defesa prévia nos termos do novel artigo do processo penal [art.396 e 396-A], o início do processo deverá transcorrer sem o excesso, admitindo-se o fato tão-só na forma simples. Elimina-se a parte adicionada da pena dissociada da realidade fática, por ser fruto da atividade mental exclusiva do órgão acusatório. E a partir daí impõe-se a aplicação do ordenamento jurídico, tendo como base o delito na sua forma simples. Se o juiz vem a aceitar a qualificadora ou aumento, só resta o habeas corpus, no qual o interessado pode questionar a classificação jurídica

Consoante à desclassificação do delito, esta pode suscitar a possibilidade de suspensão condicional do processo extemporâneo. Suponha-se uma denúncia por furto qualificado, sendo certo que ab initio havia justa causa para isso. Encerrada a instrução, percebe-se que a qualificadora não resultou comprovada. O juiz terá que aplicar o novel art. 383 § 1º do CPP (parágrafo acrescentado pela Lei Federal nº 11.719/08).

Ou seja, o juiz deve, antes de condenar, ensejar a possibilidade de suspensão condicional do processo. Serão examinadas as provas e depois se conclui pela desclassificação. Nesse momento, antes do dispositivo final, impõe-se a abertura de vista ao Ministério Público para que pronuncie sobre a suspensão, tendo em vista a nova classificação jurídica da infração.

O Ministério Público tem duas possibilidades neste caso: ou está de acordo com a nova classificação jurídica e desde logo opina favoravelmente a suspensão condicional do processo ou, de outro lado, não concorda com ela.

No segundo caso, tendo havido discordância do promotor, o juiz concluirá sua decisão, desclassificando a infração, tal como havia vislumbrado. Em seguida, provavelmente, será processada a apelação do Parquet em razão da desclassificação. O Tribunal dirá quem tem razão.

Se concluir que a desclassificação é correta, antes da sentença confirmatória da condenação de 1º grau, deverá ser convertido o julgamento em diligência para que se decida sobre eventual suspensão do processo. Ao revés, não haverá o benefício do instituto.

Se a desclassificação se deu por força do veredicto dos jurados e ao mesmo tempo tornou possível a aplicação da suspensão, cabe ao juiz presidente enviar os autos ao Ministério Público sobre tal decisão dos jurados com espeque no novo art. 492 § 1º do Código de Processo Penal. Havendo ou não concordância com a desclassificação segue o que foi dito no parágrafo anterior.

Na hipótese de o juiz já ter sentenciado o caso e condenado o acusado, desclassificando-se a infração para delito que admita a suspensão, ainda assim, antes do trânsito em julgado, em qualquer momento o processo pode ser suspenso.

A resposta estatal alternativa da suspensão condicional do processo (mediante condições) é melhor para o acusado que a resposta estatal clássica. Embora a destempo, impõe-se a averiguação da pertinência da suspensão, em casos excepcionais.

Pode ocorrer hipótese de desclassificação prejudicial ao acusado. Vejamos: no princípio vislumbra-se o delito de receptação própria. Foi concedida a suspensão. O Ministério Público, sponta sua, descobre depois provas concernentes a uma qualificadora e adita a denúncia.

O juiz, recebido o aditamento, deve sobrestar a suspensão, até o trânsito em julgado, reiniciando o processo que estava suspenso. Vem a colheita de provas. Se no final ficar reconhecida a qualificadora, automaticamente está cassada a suspensão. Do contrário, será restabelecida sem, entretanto, contar o interstício entre o aditamento e o trânsito em julgado.

Quando eliminada a punibilidade do crime do júri, nada impede que se conceda suspensão condicional do processo no crime remanescente.

4.1.9 – Perdão Judicial

Caso o juiz entenda desde logo ser hipótese de aplicação do perdão judicial, não deve suspender sob condições o processo, pois não é justo colocar em período probatório quem já se sabe que ficará isento de qualquer conseqüência penal.

Pergunta-se se o anterior perdão judicial impede a concessão da suspensão processual? Respondem Tourinho Neto e Figueiras Júnior (2002, p. 727):

Não. A sentença concessiva do perdão judicial é meramente extintiva de punibilidade e não condenatória. O réu, desse modo, não é considerado culpado: o seu nome, conseqüentemente, não irá para o rol dos culpados, não será considerado reincidente, conforme está dito no art. 120 do CP: A sentença que conceder perdão judicial não será considerada para efeitos da reincidência”. A seguir completam: É jurisprudência pacífica do STJ, consagrada na súmula 18, que “a sentença concessiva do perdão judicial é declaratória da extinção da punibilidade, não subsistindo qualquer efeito condenatório.

4.1.10 – Acusado Revel

Se se tratar de acusado revel, será impossível a suspensão condicional do processo, que tem como escopo a autodisciplina e o senso de responsabilidade, assumidos em pessoa no ato da audiência. A aceitação da proposta e das condições são atos personalíssimos. Só o acusado sabe o que lhe é mais vantajoso.

Sua aceitação, de outro lado, deve se da na presença do juiz. É ele quem assume as condições. O juiz tem que ouvir sua manifestação livre e consciência. Tudo isso nos revela que não estando presente o acusado é absolutamente impossível a suspensão condicional do processo. No ato da sua citação por edital, no entanto, nada impede que o juiz mande registrar a proposta de suspensão do processo feita pelo Ministério Público.

Em relação ao revel, é impossível qualquer analogia com o sursis. Na suspensão condicional do processo é imprescindível o comparecimento pessoal do acusado em audiência, porque só ele pode dizer se aceita a suspensão ou se quer o clássico processo, com todas as garantias do devido processo legal. A autonomia da vontade, como vimos antes, é um dos pilares no sistema consensual de Justiça Criminal. Torna indispensável sua expressão, sua manifestação.

O acusado tem que abrir mão de direitos fundamentais. Logo, só pode fazê-lo em pessoa. Sua presença é imprescindível e sua vontade é tão relevante que a lei dá primazia para sua palavra quando divergente com a de seu defensor. Acusado revel, em suma, de modo algum pode ser beneficiado com a suspensão do processo. E ademais não teríamos o cumprimento das condições. Suspensão condicional sem o cumprimento de condições é uma contradição!!

4.1.11 – Acusado e Menor Inimputáveis

Uma das fundamentais características da suspensão condicional do processo reside na manifestação de vontade livre e consciente do acusado, muitas vezes já repetidas neste trabalho. Portanto, não se aplica este instituto aos acusados inimputáveis em razão da impossibilidade de se alcançar essa manifestação.

Aos menores inimputáveis também não se aplica esse instituto haja vista que fora pensado para acusados maiores de 18 anos por se exigir senso de responsabilidade e de autodisciplina. Para os menores aplica-se a legislação especial (Estatuto da Criança e do Adolescente).

Diferente é a situação do semi-imputável.