Suspensão Condicional do Processo
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Suspensão Condicional do Processo

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Desde que não necessite de “especial tratamento curativo” (CP, art.98) nada impede a suspensão condicional do processo, se presentes os demais requisitos legais.

4.1.12 – Aplicação da Suspensão do Processo em Crimes Especiais

O art. 89 da Lei Federal n.º 9.099/95 não exclui do âmbito de sua incidência nenhum crime previsto em lei especial nem qualquer procedimento especial. Portanto, é clarividente que a suspensão condicional do processo é aplicável também aos crimes da competência das Justiças Eleitoral e Federal.

A suspensão condicional do processo, por razões de oportunidade, acabou sendo disciplinada na Lei dos Juizados Especiais, mas não é instituto deles e sim de ampla e geral aplicação, pouco importando o procedimento, o lócus da previsão típica do delito ou a competência para o julgamento do caso.

Pergunta-se: caso um delito de competência da justiça especial tenha sido julgado pela justiça comum, que concedeu a suspensão do processo, e posteriormente é declarada incompetente, o benefício será mantido?

Entendemos que, neste caso deve ser rechaçado o princípio de que o processo ou ato nulo não produz efeitos uma vez que a justiça comum já aplicara expediente substitutivo da sentença que deve ter, em termos de impossibilidade de novo processo pelos mesmos fatos, a mesma conseqüência jurídica.

4.1.13 – Aplicação da Suspensão nos Crimes Dolosos Contra a Vida.

Como acima mencionado, o art. 89 não exclui nenhum procedimento especial. Inclusive nos crimes dolosos contra a vida, portanto, pode ter incidência a suspensão do processo. Em regra, a competência para o julgamento de tais crimes é do Tribunal do Júri.

Mas para tanto é preciso, previamente, passar o caso pela sabatina da pronúncia. Havendo a suspensão do processo antes dela, o caso não vai a Júri. Muitos crimes dolosos não são julgados pelo tribunal do Júri: além das hipóteses enfocadas, pode-se ainda lembrar o crime militar cometido contra militar, o crime cometido por quem goza de prerrogativa funcional etc.

Excluir a suspensão condicional do processo aos crimes dolosos contra a vida significaria, por isso, retirar arbitrariamente uma parcela fenomenológica do âmbito do legislativamente selecionado para incidir a nova política criminal estatal, de natureza transacional. E ninguém pode substituir o legislador, quando sua opção é constitucionalmente legítima. Se o autor do crime contra a vida possui ou não mérito, para a suspensão é uma coisa. Outra bem distinta é excluir, no plano abstrato, os crimes dolosos contra a vida. Isso só o legislador podia fazer. E não o fez.

4.2 – Requisitos de Admissibilidade

O caput do art. 89 da Lei n. 9.099/95 informa que será suspenso o processo caso o acusado não esteja sendo processado ou não tenha sido condenado por outro crime, presentes os demais requisitos que autorizariam o sursis (art. 77 do Código Penal).

4.2.1 – Outro Processo em Andamento

Este requisito não fere o princípio constitucional da inocência conforme jurisprudência do Supremo Tribunal Federal: [STF, HC 86007/RJ, DJ: 29.06.05, Min. Rel. Sepúlveda Pertence; STF, HC: 85.106-1/SP, DJ: 14.12.04, Min. Rel. Sepúlveda Pertence; STF, RHC: 79.460, DJ: 18.05.01, Min. Rel. Nelson Jobim]. Para maiores detalhes vide item 8.4, p. 52-54.

4.2.2 – Condenação Anterior por Outro Crime

Ab initio, cabe salientar que a lei, ao utilizar da palavra “crime”, excluiu a condenação por contravenção. Logo, em princípio, não é obstáculo a concessão da suspensão do processo. Dependerá de um juízo positivo das condições judiciais.

A lei não fez distinção entre crime doloso ou culposo, tentado ou consumado. Pergunta-se: independentemente da natureza do crime, será que a lei adotou o sistema da perpetuidade ou deve ser aplicado o prazo de reincidência de 5 (cinco) anos referido no art. 64, inc. I, do Código Penal?

De nossa parte entendemos que a interpretação deve ser restritiva para aplicar a regra do art. 64, inc. I do Código Repressor. Ao revés, prejudicaria o acusado. Utilizamos o adágio: semper in dubiis benigniori praeferenda sunt [Nos casos de dúvida sempre se preferirá a solução mais benigna].

 Imagine a hipótese de uma pessoa ter sido condenada por lesão corporal leve há 6 anos e depois comete um crime tentado de furto. Seria justo não lhe conceder os benefícios da suspensão do processo? Parece que não.

Folgado (2002, p.114) entende, por sua vez, que, embora transcorrido o prazo o condenado deixa de ser reincidente, não terá direito a nova suspensão do processo em razão de a lei impor requisito mais abrangente do que a simples exigência da não-reincidência.

4.2.2.1 – Condenação Anterior à Multa

A pena de multa anterior não impede a suspensão condicional do processo tendo em vista que, por força do art. 92 da Lei dos Juizados Especiais, aplicam-se subsidiariamente o Código Penal e o CPP, no que não forem incompatíveis com a citada lei. Portanto, se houve condenação anterior à pena de multa, não há nenhum fato grave que possa simplesmente repelir a transação processual. Se presentes todos os demais requisitos, será possível a suspensão. No sentido do texto: STJ, HC 7.749, DJ 15.10.98, Min. Rel. Felix Fischer; STJ, Resp 558.184, DJ 17.08.04, Min. Rel. Gilson Dipp.

4.2.3 – Reincidente em Crime Doloso

Com espeque no art. 77, inc. I, do CP c/c art. 89 da Lei n. 9.099/95, quem é reincidente em crime doloso não faz jus ao benefício da suspensão. Reincidente, repise-se, é aquele que cometeu crime doloso anteriormente, sendo definitivamente condenado, e, no interstício de 5 (cinco) anos, praticou um novel delito doloso. Tourinho Filho e Figueira Júnior (2002, p. 727) entendem não se aplicar este inciso uma vez que basta que o acusado esteja respondendo a processo ou que tenha sido condenado por outro crime, culposo ou doloso, o benefício não poderá ser concedido.

4.2.4 – Circunstâncias Judiciais Favoráveis

São necessários que a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e personalidade do agente, bem como os motivos e as circunstâncias do crime autorizem a concessão do benefício.

A culpabilidade, em sentido lato, é a reprovação social que o crime e o autor do fato merecem. É entendida, modernamente, como reprovabilidade, censurabilidade, ao agente, não ao fato.

Os antecedentes são tudo o que existiu ou aconteceu, na seara penal, ao agente antes da prática do fato criminoso, ou seja, sua vida pregressa em matéria criminal. Salientamos que filiamos àqueles que entendem que os antecedentes são apenas as condenações com trânsito em julgado que não são aptas a gerar reincidência. Nesse sentido, é a doutrina de Nucci (2003, p. 264)

Cremos acertada esta posição para o fim de fixação da pena, pois não se devem levar em conta inquéritos arquivados, processos com absolvição ou em andamento, entre outros fatores transitórios ou concluídos positivamente para o réu, como causa de majoração da reprimenda.

No que se refere à conduta social, Franco e Belloque (2007, p. 345) informam que

deve ser avaliada enquanto o comportamento desenvolvido pelo agente na comunidade em que vive, abrangendo as suas relações familiares e de vizinhança, o seu modo de vida no trabalho e nos espaços comunitários de lazer, as condutas que – de maneira recorrente – apresenta no inter-relacionamento humano e social.

A personalidade, segundo ensinamento de Mirabete, obra atualizada por Renato N. Fabrinni (2005, p. 456)

registram-se qualidades morais, a boa ou má índole, o sentido moral do criminoso, bem como sua agressividade e o antagonismo com a ordem social intrínsecos a seu temperamento. Deve-se incluir, portanto, nessa circunstância, a periculosidade do agente, ou seja, as condições que indiquem a probabilidade de voltar a delinquir.

Os motivos do crime são, segundo Delmanto et al (2007, p. 188)

as razões que moveram o agente a cometer o crime. Deve-se atentar para a maior ou menor reprovação desses motivos. A circunstância, embora seja mais questionada nos delitos dolosos, excepcionalmente