Suspensão Condicional do Processo
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Suspensão Condicional do Processo

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pode sê-lo nos culposos. Observa-se que não devem refletir, nesta fase, certos motivos (torpe, fútil, para assegurar a execução de outro crime etc.) que já estão especialmente classificados como circunstâncias legais, causas de aumento ou diminuição da pena ou mesmo qualificadoras.

Por fim, as circunstâncias do crime, nos ensinamentos de Regis Prado (2003, p. 285), “compreendem os fatores de tempo, lugar, modo de execução, excluindo-se aqueles previstos como circunstâncias legais”.

5 – Proposta de Suspensão do Processo

5.1 – Iniciativa

A proposta de suspensão do processo, em princípio, cabe exclusivamente ao Ministério Público, de acordo com o disposto no art. 89 da Lei Federal n.º 9.099/95. O juiz não pode tomar a iniciativa. Não pode, nesse comenos, agir ex officio, em razão do processo acusatório instaurado com a Carta Magna de 1988. Quem detém, em princípio, a iniciativa da proposta é o Parquet, que deve dispor da ação pena pública. Mas essa iniciativa não lhe confere uma atuação arbitrária. Em sentido contrário ao nosso é o ensinamento de Folgado (2002, p. 116):

Adotado este entendimento, que, vale a pena repetir, não é pacífico, tem-se que, ao lado do promotor de justiça, cabe também ao juiz indagar ao réu e seu defensor se concordam com a suspensão do processo e com o cumprimento das condições legais e judiciais fixadas. Se estes concordarem o processo será suspenso.

5.1.1 – Poder ou Dever do Parquet	

A lei preconiza que o Ministério Público poderá propor a suspensão condicional do processo. Tal como já se passa com tantas outras situações em que o verbo “poder” foi transformado em “poder-dever”, uma vez mais, a outra conclusão não se pode chegar. A dupla fase do princípio da oportunidade regrada bem explana tudo: por força deste princípio, pode o Ministério Público agora, em lugar da via clássica (repressiva) também direcionar a via alternativa (despenalizadora). Essa opção, no entanto, deve seguir rigorosamente os critérios legais, não pessoais.

De outro lado, preenchidos os critérios que foram eleitos pelo legislador para a suspensão do processo, o Parquet, como é defensor da ordem jurídica (CF, art. 129) além de poder, se quer adstringir-se à legalidade, deve formular a proposta prevista no mencionado art. 89. Ao revés, sua atuação se afastaria da legalidade.

Em suma, se presentes todos os requisitos legais da suspensão condicional do processo, conforme analisados no capítulo 4, p. 13-35, deve o Ministério Público formular a proposta respectiva. Não se trata, portanto, de ato meramente discricionário. Não é uma mera facultas agendi.

 Indaga-se, e se o Ministério Público, mesmo assim, não o fizer? Pode o juiz agir de ofício? Ou se utilizaria a analogia do art. 28 do CPP?

Mirabete entende que (2002, p. 343):

O dispositivo não pode ser aplicado, sequer por analogia, pois se destina justamente a uma situação oposta, ou seja, a de não exercer o Ministério Público o direito de ação penal. No caso, o representante do Parquet deseja a instauração do processo. Assim, o único remédio jurídico possível estaria a cargo do réu, que poderia propor pedido de habeas corpus pelo entendimento de que a omissão injustificada da proposta constitui constrangimento ilegal sanável pela via do mandamus.

Damásio de Jesus, ao seu turno, preleciona que (2003, p. 123)

Nos termos dos princípios da informalidade e celeridade processual: o juiz, desde que presentes as condições legais, deve, de oficio, suspender o processo, cabendo recurso de apelação. A suspensão provisória da ação penal, assim como o sursis, tem natureza de medida alternativa. Se o juiz pode aplicar o sursis, que tem natureza punitiva e sancionatória, inclusive em face da discordância do Ministério Público, o mesmo deve ocorrer na suspensão condicional do Processo, forma de despenalização.

 No mesmo sentido Tourinho Filho (2007, p. 216-217):

 Como já tivemos oportunidade de salientar, numerosos atos que deveriam, num processo penal acusatório ortodoxo, isto é, fiel aos princípios, ser exclusivos do titular da ação penal, como requisitar inquérito policial, ser destinatário de representação, determinar a produção da prova que bem quiser e entender e pedir o arquivamento de inquéritos que lhe são dirigidos. Por isso não é de causar estranheza possa ele, também, já agora ante infundada recusa do Ministério Público ou querelante a propor a transação ou a suspensão condicional do processo, fazê-lo...

A nosso ver, a melhor solução está com Ada Pellegrini et al (2005, p. 319):

O instituto da suspensão condicional do processo tem natureza processual, atrelado ao princípio da discricionariedade regrada, cabendo ao Ministério Público a escolha da via reativa ao delito. A suspensão, por outro lado, de modo algum poderia ser concebida – no plano consensual – sem a transação explícita do órgão acusatório. A solução para a recusa injustificada está no art. 28 do CPP, portanto.

Registre-se que Mirabete nos dá uma outra solução (Op. cit., p.343):

é a comunicação pelo juiz da omissão injustificada do representante do Ministério Público ao Procurador-Geral de Justiça, ou a imediata remessa dos autos ao chefe do Parquet, não por analogia com o art. 28, mas por conduta indevida do membro do Parquet.

Numa ou noutra hipótese, se o Procurador-Geral de Justiça ou da República, dependendo de o crime ser estadual ou federal, insistir na não realização da proposta de suspensão, nada mais pode ser feito no âmbito do Tribunal.

Entretanto, por lógica, se a manifestação do Procurador-Geral foi absolutamente infundada, pode-se pensar no habeas corpus. Mas agora já não estamos no plano do consenso, mas da controvérsia. Certo é que nenhum ato do poder público está fora de controle. Toda manifestação que atenta contra a razoabilidade deve ser passível de exame. Mas, em se tratando de recusa fundamentada, não há falar em arbítrio.

Deixamos consignado também o posicionamento de Sidnei Beneti (1996, p. 173):

A proposta de suspensão deve ser apresentada pelo Ministério Público, mas, tratando-se de poder-dever, não fica na discricionariedade do Promotor de Justiça, de maneira que se tem uma exclusividade mitigada: se o Promotor não propõe a suspensão, pode o próprio acusado requerê-la, demonstrando-lhe a presença dos requisitos. Passe, nesse caso, à ouvida do Promotor e ao julgamento. Não se chega, assim, à necessidade de aplicação analógica do art. 28 do Código de Processo Penal.

5.2 – Momento Adequado da Proposta.

Normalmente o momento adequado para se formular a proposta da suspensão do processo é o do oferecimento da denúncia. Isso é válido para todas as denúncias oferecidas após 26.11.1995 (data da vigência da lei).

No que diz respeito às denúncias oferecidas antes da vigência da lei, cabe ao juiz, na primeira oportunidade, provocar a manifestação do Ministério Público. Antes do oferecimento da denúncia é impossível a proposta, porque a suspensão só pode ser feita com arrimo em um fato concreto, com sua qualificação jurídica. No caso de desclassificação final da infração, de tal modo a permitir a suspensão, ela pode e deve ser concedida fora do seu tempo normal.

O entendimento no sentido de que após o oferecimento da denúncia já não se justificaria qualquer proposta de suspensão condicional do processo deve ser visto com ressalva. Com efeito, cuidando-se de processos que estavam em curso na data da vigência da lei nova, esta tem eficácia retroativa e os alcança na altura em que se acham.

Logo, em muitos casos haverá proposta de suspensão do processo mesmo depois da instrução ou da sentença, de primeiro grau ou mesmo em grau de recurso. Tudo por força da Carta Republicana, em vigor desde 1988, que manda aplicar retroativamente a lei penal mais benéfica.

Mesmo após a sentença condenatória não transitada em julgado não se afasta a possibilidade de concessão da suspensão condicional do processo se reunidos os requisitos objetivos à sua admissibilidade.