Suspensão Condicional do Processo
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Suspensão Condicional do Processo

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Pergunta-se: pode haver segunda proposta no mesmo processo?

Pensamos que não tendo em vista que já foi feita uma primeira proposta sendo rejeitada pelo acusado. Depois de iniciada a audiência de instrução e julgamento conforme novo rito do processo penal, considerando-se as denúncias oferecidas após o advento da lei, torna-se impossível a suspensão do processo, afora casos excepcionais: desclassificação final da infração, por exemplo. Em sentido contrário: Tourinho Neto e Figueira Júnior (2002, p. 749).

5.2.1 – Rejeição Liminar da Proposta

O juiz não pode impedir que o Ministério Público formule a proposta de suspensão. A tanto não chega sua função de fiscal do exercício do princípio da oportunidade regrada, função fiscalizatória essa que ele exerce também em relação ao princípio da obrigatoriedade.

Mas pode rejeitar de plano a proposta quando vislumbra, com segurança, a inexistência dos requisitos de sua admissibilidade. Seria um contra-senso ter de ouvir o acusado primeiro (sobre eventual aceitação) para em seguida dizer que não estão presentes seus requisitos legais. É melhor que expresse desde logo seu indeferimento, sujeitando-se, obviamente, ao controle recursal.

6 – Bilateralidade da Suspensão

6.1 – A Bilateralidade da Suspensão

Jamais a suspensão do processo será possível sem a concordância clara e inequívoca do acusado. Dentro do sistema clássico conflitivo sabemos que este não pode escolher a pena a ter incidência. Quem se encarrega da sua individualização é o juiz.

No que atina à via alternativa da suspensão, contudo, a manifestação de vontade do acusado é soberana, insubstituível. E ele pode dizer sim ou não: ambas as formas configuram estratégia de defesa.

Nenhuma imposição de qualquer tipo pode encontrar espaço, sob pena de se desnaturalizar o instituto da suspensão, fundado no senso de responsabilidade. Sendo assim, a suspensão do processo é sempre bilateral, isto é, sem sua impostergável aceitação, nada se concretiza.

6.1.1 – Ato Personalíssimo

Ninguém pode aceitar a suspensão no lugar do acusado, mesmo porque ela tem por fundamento a autodisciplina e o senso de responsabilidade. Nunca será possível tal ato por procurador, ainda que conte com poderes especiais. É o acusado que tem que saber das condições da suspensão e assumi-las. É um ato em que se assumem responsabilidades.

O juiz tem que conversar com o próprio acusado, inclusive para ajustar a dosimetria das condições, tão importante em termos de prevenção geral (intimidação) como especial (ressocialização). Se o acusado é revel ou não comparece (exceto motivo justo) na audiência de conciliação, torna-se impossível a suspensão.

 6.1.2 – Ato Voluntário

Será voluntária a aceitação se for consciente e livre. Para ser consciente o acusado tem que saber a natureza exata da suspensão, seus efeitos, suas conseqüências.

Deve ter consciência inequívoca de que participa de uma transação, que significa abster-se de direitos constitucionais (contraditório, ampla defesa, v.g.) Deve ainda estar ciente da natureza transacional da suspensão, que carrega consigo a realização de outras metas: reparação dos danos, reinserção social etc.

Impõe-se, sobretudo, que tenha prévio conhecimento das condições da suspensão. Na eventualidade de que o juiz possa fixar “outras”, além das obrigatórias (art. 89, §2º) impõe-se sua comunicação prévia. Não pode haver surpresas.

6.1.3 – Ato Absoluto

A aceitação, de outra parte, não pode ser condicional. Não pode estar atrelada a nenhuma condição fixada pelo acusado que ultrapasse os limites da legalidade ,da moralidade ou da dignidade humana. A aceitação, ademais, não pode implicar obrigação ou compromisso para terceira pessoa. É ato inter partes.

6.1.4 – Ato Formal

A aceitação tem que reunir todas as solenidades exigidas por lei. Não pode ser extraprocessual. E se o for, como por exemplo o acordo prévio entre o beneficiado e o membro do Parquet em seu gabinete, tem que ser pessoalmente ratificado em juízo. Não tem nenhum valor a aceitação concretizada fora da presença do magistrado.Será em regra oral. Mas pode ser manifestada de outra forma, v.g. por escrito em razão de o réu ser mudo, mas desde que presente a voluntariedade.

6.1.5 – Ato Vinculante

A aceitação da suspensão só é válida nos limites em que tudo foi transacionado. Ela está atrelada a uma acusação formal. Logo, possui vínculo com os fatos narrados e com a qualificação jurídica dada. Vincula o órgão acusador, mas não o juiz, evidentemente. Se bem que o juiz, para rejeitar a aceitação, formulada em sua presença, deve apresentar motivo justo e fundamentar sua decisão, que ficará sujeita ao controle recursal, evidentemente.

Na hipótese de o acusado não concordar com os limites da proposta, nada impede que faça contraproposta. O ato é transacional, informal, oral, logo, deve discuti-la. O promotor não impõe as condições. Essa tarefa é do juiz. Mas nada impede que ele faça sugestões, inclusive no ato da proposta.

6.1.6 – Ato tecnicamente assistido

Considerando a importância da manifestação de vontade do acusado, cuja conformidade processual, como já enfatizamos, implica no recuo de direitos e garantias fundamentais, quis o legislador cercar a aceitação de mais uma garantia: deve ser tecnicamente assistida, isto é, só pode se realizar na presença de defensor.

E não só isso, a lei foi mais longe: também deve haver aceitação do defensor. Se o acusado for advogado, sua presença única é o suficiente. E se houver divergência entre a vontade do acusado e do seu defensor? A resposta nos é dada pela própria lei, art. 89, § 7º: “o que prevalece é a vontade do acusado”.

6.2 – Audiência de Conciliação

A lei determinou a realização de uma audiência especial para o ato da aceitação. É indispensável, diríamos, que tal audiência especial seja designada, mesmo porque tal ato deve se realizar na presença do juiz. Para ela devem ser intimadas as partes, evidentemente. No ato da intimação do acusado, se feito por escrito, deve constar a advertência do art. 68 da Lei Federal n.º 9.099/95 (necessidade de seu comparecimento acompanhado de advogado, com a advertência de que, na sua falta, ser-lhe-á designado defensor público).

6.3 – Acusado que Reside em Outra Comarca

Nada impede que o acusado seja intimado para comparecer no juízo processante. Essa intimação pode ser feita, de outro lado, de maneira informal, tal como autoriza o art. 67 da Lei Federal n.º 9.099/95. Havendo impossibilidade absoluta de comparecimento, nada obsta que seja deprecada a audiência conciliatória.

Nessa altura, já teremos a denúncia e a proposta de suspensão, assim como as condições preestabelecidas pelo juízo processante (quem formula a proposta de suspensão, assim, é o promotor da denúncia, não o que oficia no juízo deprecado).

Pergunta-se: qual será a conduta do juízo deprecado caso o réu não aceite a proposta ofertada pelo juízo deprecante?

O juízo deprecado cumpre, em princípio, executar a medida contida na carta precatória sem perquirir o mérito. Contudo, partindo da premissa que o ato deprecado é essencialmente dialogal, o juízo deprecado enfrentará uma situação de eventual negociação. Portanto, caso não haja aceitação da proposta oferecida pelo juízo deprecante pode o juízo deprecado flexibilizá-la. Contudo, salienta-se que o que acabamos de dizer somente é possível caso o juízo deprecado primeiramente discuta as propostas formuladas pelo juízo deprecante e não, desconsiderando a proposta anterior, faça-a segundo o seu entendimento uma vez que, nesta hipótese, haverá exorbitação de sua competência, esquivando-se das condições constantes da carta precatória.

 Na conciliação, é preciso que todas as condições fiquem devidamente esclarecidas, inclusive local de cumprimento, forma de cumprimento etc.

O juízo deprecado pode, no nosso entender, flexibilizar as condições antes fixadas pelo juízo deprecante. No diálogo pessoal com o acusado podem ser reveladas circunstâncias que justifiquem