o_sistema_mundo_no_pensamento_de_arrighi_wallerstein_e_fiori
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Disciplina:Análise do Sistema Internacional8 materiais58 seguidores
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terminal da hegemonia americana,

discutindo os caminhos de uma nova era de caos e transição, a qual se vive

hodiernamente. Seu pensamento conjuntural aponta para a década de 1970, como o

momento responsável pela derrocada ianque, devido à derrota no Vietnã e ao rompimento

do sistema de Bretton Woods.

O diferencial wallersteiniano é não apenas caracterizar o atual período como o de crise

e transição da hegemonia norte-americana, mas também como o momento de crise

terminal do próprio sistema mundial moderno, que se prolongaria até, no máximo, o ano

de 2050. Acredita, assim, que daqui a 40 anos, não se pode precisar de haverá um

hegemon, mas, certamente, viver-se-á um sistema internacional completamente distinto

(WALLERSTEIN, 1995: p.209):

“De modo que a terceira benção, a igualdade, no melhor dos casos terá garantido

aos estados Unidos entre 25 e 50 anos. Em algum momento, lá na frente, em 2025

ou 2050, chegará a hora do ajuste de contas. E o mundo estará diante do mesmo

tipo de escolha que os Estados Unidos se defrontam agora. O sistema internacional

marchará para uma reestruturação que será repressiva ou igualitária. (...) Claro que

aqui estamos falando da extinção do sistema internacional atual e sua substituição

por algo totalmente diferente. E é impossível prever o resultado. Estaremos num

ponto de bifurcação e as oscilações aleatórias terão efeitos muito diferentes.”

Para Wallerstein, a hegemonia estadunidense seguiu o curso normal de suas três

antecessoras. Todavia, sua última fase, a de declínio, foi acelerada pelos efeitos

ideológicos e culturais dos protestos mundiais de 1968, que se prolongaram e terminaram

com a dissolução comunista de 1989. Nesses vinte e um anos, identifica-se a

desintegração da geocultura do sistema mundial moderno e de sua ideologia global, o

liberalismo, tanto em sua versão anglo-saxônica quanto em sua versão leninista5.

5 No entendimento de Wallerstein, o leninismo foi apenas mais uma forma radical na mesma crença na
possibilidade de reformismo racional e na capacidade dos Estados como agentes das mudanças econômicas e
sociais.

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A ideologia wilsoniana-leninista seria a formadora do pensamento único do século

XX, comum às estratégias político-econômicas dos liberais e dos socialistas, as quais se

confrontaram pela construção do Estado de bem-estar social e por todas as formas de

desenvolvimento econômico.

Fiori rebate a tese wallersteiniana afirmando que o autor se recusa a seguir o atual

posicionamento do consenso acadêmico no tocante à retomada da vanguarda tecnológica

em quase todos os setores decisivos da economia, nos anos de 1980, não apenas no campo

estratégico-militar, impondo, ao mesmo tempo, o dólar como moeda axilar do novo

sistema monetário internacional, sem base metálica ou padrão de referência, que não seja

a própria moeda estadunidense, o chamado padrão dólar-flexível.

Outra crítica reside no argumento de que os acontecimentos entre 1789 e 1989, a luta

envolvendo socialistas, conservadores e liberais foi apenas uma falsa batalha da

modernidade, visto que, em algum momento, as três teorias defenderam o fortalecimento

do Estado. No entanto, sabe-se que o conflito central entre as três correntes não foi

travado em torno da defesa ou não do desenvolvimento, mas, como defende Fiori “em

torno de como e para qual classe desenvolver a riqueza das nações” (FIORI, 2007: p.63)

A percepção de apocalipse do sistema interestatal capitalista moderno provocado pela

contração dos lucros em escala planetária e pelos constantes e crescentes déficits públicos

nacionais também é passível de ser refutada. Isto porque a dificuldade de embasá-la

cientificamente é enorme, haja vista que não passa de um exercício futurístico agregado a

uma análise conjuntural.

Parece contraditório se falar em profit squeeze e em endividamento público justamente

no momento de grandes inovações tecnológicas que diminuem o trabalho necessário,

aumento a acumulação de capital; de aumento da exclusão dos trabalhadores e

enfraquecimento dos sindicatos em todo o mundo; da decadência da participação dos

salários nas rendas nacionais; e, por fim, do padrão dólar-flexível, o qual favorece o

endividamento do poder hegemônico, uma vez que é o controlador da moeda internacional

que determina o valor de sua dívida por meio de manipulações na taxa de juros, o que

transforma o endividar-se em uma dádiva, um privilégio, exclusivo do hegemônico.

4. José Luis Fiori e a teoria do universo em expansão

A pesquisa de J.L.Fiori, iniciada com a investigação conjuntural comparada da história

política e econômica de Brasil e Chile dos anos 70, migrou do debate do desenvolvimento

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na periferia para a discussão da hegemonia dentro do pensamento estruturalista latino-

americano, em virtude da restauração liberal-conservadora dos anos 80, e seguiu com o

acompanhamento das transformações econômicas e geopolíticas das décadas posteriores.

Ao contrário dos outros dois autores neomarxistas, Fiori entende que os Estados-

economias-nacionais foram concebidos primeiro que o próprio sistema interestatal.

Buscou nas guerras de conquista e na revolução comercial dos séculos XII e XIII a razão

para a formação dos Estados e das economias nacionais europeias e para sua vitoriosa

expansão mundial do século XVI, que culminou com a formação do sistema-mundo, a

mundialização da lógica de poder europeia, nas palavras de Fiori (FIORI, 2007: p.27),

“máquinas de acumulação de poder e riqueza, dotadas de compulsão expansiva”.

Guerras e tributos passaram a ser a principal atividade dos príncipes, que financiavam

as empreitadas bélicas por meio do multiplicador contínuo da dívida pública. O

aparecimento desse fenômeno, a necessidade europeia de acumulação de poder e do

excedente produtivo, não pode ser explicada apenas pelo jogo das trocas6, mas pela união

desse tabuleiro com o jogo das guerras7.

Esse movimento caminha sempre na direção da busca por mais poder. Para entender

esse conceito volátil, é preciso adentrar na própria fenomenologia do poder, para o qual

não há nenhuma relação social anterior, como nos ensina Fiori (FIORI, 2009: p. 334):

“O conceito de poder político tem mais a ver com a ideia de fluxo do que

com a de estoque. O exercício do poder requer instrumentos materiais e

ideológicos, mas o essencial é que o poder é uma relação social assimétrica

indissolúvel, que só existe quando é exercido; e para ser exercido, precisa se

reproduzir e acumular constantemente. A conquista, como disse Maquiavel, é o ato

fundador que instaura e acumula o poder, e ninguém pode conquistar nada sem ter

poder, e sem ter mais poder do que o conquistado. Num mundo em que todos

tivessem o mesmo poder, não haveria poder.”

Em virtude disso, explica o porquê da pressão competitiva sobre os Estados e a

centralidade da guerra nesse sistema. O elemento do poder seria a mola propulsora das

relações internacionais. A incessante luta pelo poder é exprimida pela pressão competitiva

gerada. Os Estados criam, ao mesmo tempo, ordem e desordem, guerra e paz. Esse

movimento de constante fortalecimento de uns e retração de outros embasa a teoria do

universo em expansão do autor. Sem a guerra, constante acumulação de poder, o sistema

6 Conceito cunhado por Fernand Braudel (BRAUDEL, 1996).
7 Conceito utilizado por J.L. Fiori (FIORI, 2004)

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entraria em entropia. A preparação permanente para um conflito iminente não seria

destrutiva, como a guerra é, mas sim virtuosa para o sistema. Isto porque o sistema só se

estabiliza crescendo, expandindo-se. O