Aprender Antropologia
172 pág.

Aprender Antropologia

Disciplina:Antropologia4.307 materiais43.604 seguidores
Pré-visualização46 páginas
escreve Mauss, ”observar o comportamento de seres totais, e na˜o divididos
em faculdades”. E a u´nica garantia que podemos ter de que um fenoˆmeno
social corresponda a` realidade da qual procuramos dar conta e´ que possa ser
apreendido na experieˆncia concreta de um ser humano, naquilo que tem de
u´nico:

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Highlight

Andre Sobrinho
Underline

70 CAPI´TULO 5. OS PRIMEIROS TEO´RICOS DA ANTROPOLOGIA:

”O que e´ verdadeiro, na˜o e´ a orac¸a˜o ou o direito,e sim o melane´sio de tal
ou tal ilha”.

Na˜o podemos portanto alcanc¸ar o sentido e a func¸a˜o de uma instituic¸a˜o
se na˜o formos capazes de reviver sua incideˆncia atrave´s de uma conscieˆncia
individual, conscieˆncia esta que e´ parte da instituic¸a˜o e portanto do social.
Finalmente, para compreender um fenoˆmeno social total, e´ preciso apreendeˆ-
lo totalmente, isto e´, de fora como uma ”coisa”, mas tambe´m de dentro
como uma realidade vivida. E´ preciso compreendeˆ-lo alternadamente tal
como o percebe o observador estrangeiro (o etno´logo), mas tambe´m tal como
os atores sociais o vivem. O fundamento desse movimento de desdobramento
ininterrupto diz respeito a` especificidade do objeto antropolo´gico. E´ um ob-
jeto de mesma natureza que o sujeito, que e´ ao mesmo tempo – emprestando
o vocabula´rio de Mauss e Durkheim – ”coisa”e ”representac¸a˜o”. Ora, o que
caracteriza o modo de conhecimento pro´prio das cieˆncias do homem, e´ que o
observador-sujeito, para compreender seu objeto, esforc¸a-se para viver nele
mesmo a experieˆncia deste, o que so´ e´ poss´ıvel porque esse objeto e´, tanto
quanto ele, sujeito.

Trabalhando inicialmente com uma abordagem semelhante a` de Durkheim,
a reflexa˜o da Mauss desembocou, como vemos, em posic¸o˜es muito diferen-
tes. Estamos longe do distanciamento sociolo´gico que supo˜e a metodologia
durkheimiana, e pro´ximos da pra´tica etnogra´fica de Malinowski. Este u´ltimo
ponto merece alguns comenta´rios.

Os Argonautas do Pac´ıfico Ocidental, de Malinowski, e o Ensaio sobre o
Dom, de Mauss, sa˜o publicados com um ano de intervalo (o primeiro em
1922, o segundo em 1923). As duas obras sa˜o muito pro´ximas uma da ou-
tra. A segunda supo˜e o conhecimento dos materiais recolhidos pelo etno´-
grafo. A primeira exige uma teoria que sera´ precisamente constitu´ıda pelo
antropo´logo. Os Argonautas sa˜o uma descric¸a˜o meticulosa desses grandes
circuitos mar´ıtimos transportando, nos arquipe´lagos melane´sicos, colares e
pulseiras de conchas: a kula. O Ensaio sobre o Dom e´ uma tentativa de
esclarecimento e elaborac¸a˜o da kula, atrave´s da qual Mauss na˜o apenas vi-
sualiza um processo de troca simbo´lica generalizado, mas tambe´m comec¸a
a extrair a existeˆncia de leis da reciprocidade (o dom e o contradom) e da
comunicac¸a˜o, que sa˜o pro´prias da cultura em si, e na˜o apenas da cultura tro-
briandesa. Enquanto Os Argonautas, a obra menos teo´rica de Malinowski,
evidencia o que Leach chama de ”inflexa˜o biolo´gica”, o Ensaio sobre o Dom
ja´ expressa preocupac¸o˜es estruturais.

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Highlight

71

O fato de poder ser abordada de diferentes maneiras, de suscitar inter-
pretac¸o˜es mu´ltiplas, ou mesmo vocac¸o˜es diversas, e´ pro´prio de toda obra
importante, e a obra de Mauss esta´ incontestavelmente entre estas. Muitos
mestres da antropologia do se´culo XX (estou pensando particularmente em
Marciel Griaule, fundador da etnografia francesa, em Claude I.e´vi-Strauss,
pai do estruturalismo, em Georges Devereux, fundador da etnopsiquiatria)
o consideram como seu pro´prio mestre. Mauss ocupa na Franc¸a um lugar
bastante compara´vel ao de Boas nos Estados Unidos, especialmente para to-
dos os que, influenciados por ele, procuraram promover a especificidade e a
unidade das cieˆncias do homem.

72 CAPI´TULO 5. OS PRIMEIROS TEO´RICOS DA ANTROPOLOGIA:

Parte II

As Principais Tendeˆncias Do
Pensamento Antropolo´gico

Contemporaˆneo

73

Cap´ıtulo 6

Introduc¸a˜o:

Com o trabalho efetuado pelos pais fundadores da etno-grafia – Boas, Ma-
linowski, Rivers. . . – e pelos primeiros teo´ricos da nova cieˆncia do social
– Durkheim e Mauss –, podemos considerar que a antropologia entrou em
sua maturidade. O que examinaremos agora sa˜o os desenvolvimentos contem-
poraˆneos. Na˜o se trata evidentemente de apresentar aqui um panorama com-
pleto desse per´ıodo que cobre mais de meio se´culo (1930-1986), ta˜o grande e´ a
diversidade e a riqueza do campo antropolo´gico explorado, e tambe´m porque
nos falta distaˆncia para fazer o balanc¸o dos trabalhos que nos sa˜o propria-
mente contemporaˆneos. Contentar-nos-emos, mais modestamente, em abrir
algumas trilhas (mais pro´ximas da trilha do que da auto-estrada) que per-
mitam destacar as tendeˆncias dominantes do pensamento e da pra´tica dos
antropo´logos de nossa e´poca. Podemos fazer isso de treˆs diferentes maneiras.

6.1 Campos De Investigac¸a˜o

A primeira via, que me recusarei a adotar por razo˜es que comec¸aram a ser
expostas no in´ıcio desse livro, consistia em levantar as a´reas de investigac¸a˜o
e estudar os resul tados obtidos em cada uma ou em algumas delas. O
desenvolvimento do pensamento cient´ıfico implica uma diferen ciac¸a˜o cres-
cente dos campos do saber. A antropologia na˜o apenas tende a progredir
por disjunc¸a˜o em relac¸a˜o a` filosofia, sociologia, psicologia, histo´ria. . . (po-
dendo manter paralelamente canais e espac¸os de articulac¸a˜o e confronto),
mas avanc¸a, dentro de sua pro´pria pra´tica, especializando-se e instaurando
ate´ subespecialidades.1

1Especialidades: antropologia das tecnologias, antropologia econoˆmica, antropologia
dos sistemas de parentesco, antropologia pol´ıtica, antropologia religiosa, antropologia
art´ıstica, antropologia da comunicac¸a˜o, antropologia urbana, antropologia industrial. ..

75

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

76 CAPI´TULO 6. INTRODUC¸A˜O:

Se deixamos de lado essa primeira forma poss´ıvel de exposic¸a˜o do campo
antropolo´gico contemporaˆneo, e´ porque consideramos que uma disciplina
cient´ıfica (ou que pretende seˆ-lo) na˜o deva ser caracterizada por objetos
emp´ıricos ja´ constitu´ıdos, mas, pelo contra´rio, pela constituic¸a˜o de objetos
formais. Ou seja, a u´nica coisa pass´ıvel, a nosso ver, de definir uma disciplina
(qualquer que seja), na˜o e´ de forma alguma um campo de investigac¸a˜o dado
(a tecnologia, o parentesco, a arte, a religia˜o. . .), muito menos uma a´rea
geogra´fica ou um per´ıodo da histo´ria, e sim a especificidade da abordagem
utilizada que transforma esse campo, essa a´rea, esse per´ıodo em objeto ci-
ent´ıfico.

6.2 Determinac¸o˜es Culturais

Uma segunda via, que apenas esboc¸aremos aqui, consistiria em mostrar o
que a pesquisa do antropo´logo deve a` cultura a` qual ele pro´prio pertence.
As condic¸o˜es histo´ricas e sociais de produc¸a˜o do saber antropolo´gico sa˜o
eminentemente diversificadas, e na˜o seria satisfato´rio relaciona´-las a`penas ao
”Ocidente”, como se este fosse um bloco homogeˆneo e Imuta´vel. Mostrare-
mos quais foram os caracteres culturais distintivos que marcavam profunda-
mente e continuam influenciando va´rias sociedades nas quais o pensamento e
a pra´tica (antropolo´gicas esta˜o hoje particularmente desenvolvidos. Limitur-
nos-emos a treˆs: a antropologia americana, a britaˆnica h francesa.

A antropologia americana:

Tendo tido um crescimento ra´pido com o impulso especialmente do evolu-
cionismo e de seu principal teo´rico Lewis Morgan, pode ser caracterizada da
seguinte maneira:

1) trata-se de um tipo de pesquisa que destaca a diversidade das culturas-
, as variac¸o˜es praticamente ilimitadas que aparecem quando se comparam
as sociedades