Aprender Antropologia
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Aprender Antropologia

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Colonial. diretor da Revue
d’Ethnographie e co-fundador do Institu´ı d’Ethno-logie de Paris (1924). Publicou notada-
mente Les Noirs de 1’Afrique e L’Ame Ne`gre (1922). Entre os pioneiros desse africanismo
franceˆs principiante, conve´m lembrar os noves de Tauxier, Monteil, Labouret, que sa˜o
administradores coloniais eruditos, e sobretudo ]unod, missiona´rio da Su´ıc¸a romanche

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80 CAPI´TULO 6. INTRODUC¸A˜O:

(particularmente a religia˜o, a mitologia, a literatura de tradic¸a˜o oral),
termos que devemos a Dur-kheim, enquanto Le´vy-Bruhl ja´ se interes-
sava pelo que chamava de ”mentalidades”;

• uma renovac¸a˜o metodolo´gica, com o impulso especialmente:

1) do estruturalismo (do qual Le´vi-Strauss e´ evidentemente o representante
mais ilustre),

2) de pesquisas conduzidas dentro da perspectiva do marxismo;

• um crescimento muito recente, mas apoiado em uma so´lida tradic¸a˜o, da
etnografia, da museografia e da etnologia da pro´pria sociedade francesa,
em suas diversidades e mutac¸o˜es.

6.3 Os Cinco Po´los Teo´ricos Do Pensamento

Antropolo´gico Contemporaˆneo

Uma terceira via detera´ mais nossa atenc¸a˜o. E´ para essa que finalmente
optaremos, e e´ a partir dela que se organizara´ a segunda parte desse li-
vro. Pareceu-nos que, desde sua conslituic¸a˜o enquanto disciplina de vocac¸a˜o
cient´ıfica,4 a antropologia oscila entre va´rios po´los teo´ricos que aparecem
frequ¨entemente como exclusivos uns dos outros, mas sa˜o de fato pontos de
vista diferentes sobre a mesma realidade.

Tentaremos, portanto, dar conta do desenvolvimento contemporaˆneo da an-
tropologia, na˜o nos colocando mais do lado dos territo´rios particulares (ter-
rito´rios tema´ticos como a antropologia econoˆmica, a antropologia religiosa, a
antropologia urbana), nem do lado das colorac¸o˜es nacionais, explicativas das
tendeˆncias culturais da pra´tica dos pesquisadores, mas do lado dos me´todos
de investigac¸a˜o.

A pluralidade dos modelos mobilizados e utilizados na˜o tem, a meu ver,
nada de desvantajoso. E seria erroˆneo atribuir exclusivamente a impressa˜o
de cacofonia que da˜o frequ¨entemente os congressos e reunio˜es de antropo´logos

4As fundac¸o˜es antropolo´gicas de Morgan, o aperfeic¸oamento de instrumentos de inves-
tigac¸a˜o verdadeiramente etnogra´ficos com Boas, Rivers e Malinowski, a elaborac¸a˜o de um
quadro de refereˆncia conceitual com Mauss e Durkheim

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6.3. OS CINCO PO´LOS TEO´RICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLO´GICO CONTEMPORAˆNEO81

a uma imaturidade cient´ıfica e ao cara´ter ainda principiante de nossa disci-
plina. Novamente, procurando estudar a pluralidade, seria o cu´mulo se a
antropologia na˜o fosse ela mesma ”plural”. A pluralidade e´ pelo contra´rio
para mim, uma das garantias (na˜o a u´nica evidentemente, pois pode haver
pluralidade de dogmatismos e ortodoxias) de que nossas pesquisas aceitam
sujeitar-se a cr´ıticas rec´ıprocas e passar por processos de invalidac¸a˜o (cf. K.
Popper, 1937), cada um dos modelos teo´ricos sendo apenas uma perspectiva
sobre o social e na˜o o pro´prio social.

Em As Palavras e as Coisas, Michel Foucault distingue o que ele chama de
treˆs ”regio˜es epistemolo´gicas”, em torno das quais se constitu´ıram, a partir do
se´culo XIX, os diferentes saberes positivos sobre o homem: a biologia, cieˆncia
do ser vivo; a economia, cieˆncia da produc¸a˜o e das relac¸o˜es de produc¸a˜o; a
filologia, cieˆncia da linguagem e de suas diversas expresso˜es (mitologias, li-
teraturas, tradic¸o˜es orais. . .). Mais precisamente, diz Foucault:

• a biologia e´ o estudo das func¸o˜es do homem nas suas regulac¸o˜es fi-
siolo´gicas e nos seus processos de adaptac¸a˜o, bem como o estudo das
normas reguladoras dessas func¸o˜es;

• a economia e´ o estudo dos conflitos entre o homens, a partir das relac¸o˜es
sociais do trabalho, bem como das regras que permitem controlar esses
conflitos;

• a filologia e´ o estudo do sentido que elaboramos em nossos discursos,
bem como do sistema que constitui sua coereˆncia.

A ”regia˜o”biolo´gica, considera Foucault (1966), encontra um de seus pro-
longamentos no campo psicolo´gico que estuda nossos processos neuromoto-
res, mas tambe´m nossa aptida˜o em elaborar fantasias e representac¸o˜es. A`
”regia˜o”econoˆmica pertence o campo sociolo´gico que explora as relac¸o˜es de
poder. Finalmente, a u´ltima regia˜o vai dar lugar ao espac¸o lingu¨´ıstico, a`s
disciplinas que chamamos hoje de cieˆncias da comunicac¸a˜o, que se da˜o como
objeto a ana´lise de todas as manifestac¸o˜es escritas, orais e gestuais.

O que e´ importante notar, ainda de acordo com o autor de /ls Palavras
e as Coisas, e´:

1) o cara´ter inconsciente das normas, das regras e dos sistemas, em relac¸a˜o
a`s func¸o˜es, aos conflitos e a`s significac¸o˜es;

2) o fato de que esses diferentes pares conceituais (func¸a˜o/norma, conflito/regra,

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82 CAPI´TULO 6. INTRODUC¸A˜O:

sentido/sistema) podem deslocar-se para fora dos territo´rios nos quais apa-
receram. Assim, por exemplo, o estudo do social tende a apreender o homem
em termos de regras e conflitos. Mas tambe´m pode ser conduzido a partir
dos conceitos de func¸o˜es e normas (Durkheim, Malinowski) ou a partir do
sentido e do sistema (Griaule, Le´vi-Strauss).

Dispondo dessa orientac¸a˜o, o que procurarei mostrar agora, falando em meu
nome pessoal, e´ que:

1) o objeto da antropologia e´ ta˜o complexo que na˜o podia dotar-se de um
u´nico modo de acesso sem correr o risco do esp´ırito de ortodoxia. E efe-
tivamente, no per´ıodo de aproximadamente meio se´culo que estudaremos,
veremos nossa disciplina utilizando sucessiva ou simultaneamente va´rios mo-
dos de acesso.

2) a reflexa˜o antropolo´gica na˜o pode deixar de lado o conceito de incons-
ciente, forjado no aˆmbito do discurso psicanal´ıtico, mas do qual este na˜o tem
evidentemente o monopo´lio. Somente o cara´ter inconsciente das normas,
regras e sistemas nos permite compreender que a partir dos treˆs campos do
saber determinados por Michel Foucault estaremos confrontados com pesqui-
sas etnolo´gicas de cara´ter emp´ırico e a pesquisas preocupadas da construc¸a˜o
de seu objeto cient´ıfico; o qual nunca e´ dado, e sim conquistado, sendo por
assim dizer arrancado da percepc¸a˜o consciente imediata tanto dos atores so-
ciais quanto das observadoras do social.

Levando em conta o que foi dito, parece a meu ver poss´ıvel localizar cinco
po´los em torno dos quais a antropologia oscila constantemente.

1) A antropologia simbo´lica. Seu objeto e´ essa regia˜o da linguagem que cha-
mamos s´ımbolo e que e´ o lugar de mu´ltiplas significac¸o˜es,5 que se expressam
em especial atrave´s das religio˜es, das mitologias e da percepc¸a˜o imagina´ria
do cosmos. Esse primeiro eixo da pesquisa caracteriza-se mais, como vere-
mos, por um tipo de preocupac¸o˜es do que por um me´todo propriamente dito.
Trata-se de apreender o objeto que se pretende estudar do ponto de vista do
sentido. O que significam as instituic¸o˜es ou os comportamentos que encon-
tramos em tal sociedade? O que se pode dizer a respeito daquilo que uma
sociedade expressa atrave´s da lo´gica de seus discursos?

5Sobre a definic¸a˜o antropolo´gica do s´ımbolo, autorizo-mo a indicar meu livro t.es 50
Mots Cle´s de /’Anthropologie. Toulouse. Privai, 1974.

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6.3. OS CINCO PO´LOS TEO´RICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLO´GICO CONTEMPORAˆNEO83

2) A antropologia social. Seu objeto situa-se claramente no campo epis-
temolo´gico oriundo da economia (cf.