Aprender Antropologia
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Aprender Antropologia

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acima M. Foucault). Nada distingue
realmente seu territo´rio do territo´rio do socio´logo. Um dos conceitos ope-
rato´rios a partir do qual essa perspectiva de in´ıcio se instaurou, e´ o de func¸a˜o
(Malinowski, mas tambe´m Durkheim), frequ¨entemente ligado ao estudo dos
processos de normalizac¸a˜o destas func¸o˜es (= as instituic¸o˜es). E´ um eixo
de pesquisa que na˜o se interessa diretamente para as maneiras de pensar,
conhecer, sentir, expressar-se, em si, e mais para a organizac¸a˜o interna dos
grupos, a partir da qual podem ser estudados o pensamento, o conhecimento,
a emoc¸a˜o, a linguagem. Qual a finalidade de tal instituic¸a˜o? Para que serve
tal costume? A que classe social pertence aquele que tem tal discurso, e qual
e´ o n´ıvel de integrac¸a˜o dessa classe na sociedade global?

3) A antropologia cultural. Seja o modelo utilizado, biolo´gico, psicolo´gico
(Kardiner, 1970), ou lingu¨´ıstico (Sapir, 1967), e´ uma antropologia frequ¨ente-
mente emp´ırica, que se situa do lado da func¸a˜o ou, mais ainda, do sentido,
em detrimento da norma e do sistema. Mas o que permite essencialmente
caracterizar essa tendeˆncia de nossa disciplina e´ o crite´rio da continuidade ou
descontinuidade entre a natureza e a cultura de um lado, e entre as pro´prias
culturas, de outro.

a) Enquanto autores como Bateson ou Le´vi-Strauss, de quem falaremos adi-
ante, esforc¸am-se em pensar a continuidade (ou, mais exatamente, no caso
de Le´vi-Strauss, a articulac¸a˜o) entre a ordem da natureza e a da cultura,
os que chamamos ”aculturalistas”, com autores de quem esta˜o, no que diz
respeito ao essencial, muito afastados, como Evans-Pritchard ou Devereux,
privilegiam claramente a soluc¸a˜o da descontinuidade.

b) Enquanto um grande nu´mero de antropo´logos salienta a universalidade
da cultura (para Morgan, as sociedades so´ sa˜o pensa´veis porque pertencem a
um tronco comum, para Malinowski, ha´ uma permaneˆncia das func¸o˜es, e para
Devereux uma ”universalidade da cultura”), os culturalistas mais uma vez,
sobretudo a respeito disso, privilegiam a des-continuidade, isto e´ a coereˆncia
interna e a diferenc¸a irredut´ıvel de cada cultura.

c) A antropologia estrutural e sisteˆmica. Estudaremos aqui na˜o so´ uma,
mas va´rias correntes do pensamento antropolo´gico. Uns utilizam um modelo
psicanal´ıtico; outros um modelo proveniente do que Foucault designa como
o campo epistemolo´gico da economia (Mauss elabora, como vimos, as regras
explicativas da troca); outros finalmente, os mais numerosos, escolhem um
modelo lingu¨´ıstico, matema´tico, ciberne´tico (Le´vi-Strauss, Bateson). Mas

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84 CAPI´TULO 6. INTRODUC¸A˜O:

qualquer que seja o modelo adotado, ele realiza uma passagem do consciente
para o inconsciente: passagem da func¸a˜o para a norma (Roheim), do conflito
para a regra (Mauss), do sentido para o sistema (Le´vi-Strauss).

Enquanto nos situa´vamos por exemplo do lado da func¸a˜o, o alteridade sempre
corria o risco de ser considerada (e rejeitada) no espac¸o da extraterritoriali-
dade: ao lado, fora. isto e´, para sempre diferente. Assim, para a psicologia
pre´-freudiana, o normal e o anormal na˜o teˆm nada em comum. Para a et-
nologia de Le´vy-Bruhl (1933), existe uma ”mentalidade primitiva”exclusiva
de tudo que e´ pro´prio do homem da lo´gica. Para Griaule, finalmente (1966),
a`s instituic¸o˜es e mitologias plenamente significantes da A´frica tradicional,
opo˜e-se a insignificaˆncia do Ocidente industrial. Inversa˜o de perspectiva
neste caso, em relac¸a˜o ao anterior, mas que se inscreve no mesmo horizonte
epistemolo´gico. Ao contra´rio, quando a atividade epistemolo´gica comec¸a a
situar-se do lado da norma (e na˜o mais da func¸a˜o), da regra (e na˜o mais do
conflito), do sistema (e na˜o mais do sentido), na˜o e´ mais poss´ıvel pensar que
os doentes mentais sa˜o ”loucos”, a ”mentalidade primitiva”, ”absurda”, e os
mitos ”insignificantes”. O que desmorona, enta˜o, e´ a pertineˆncia dos pares
antinoˆ-micos do normal e do patolo´gico, do lo´gico e do ilo´gico, do sentido e
do na˜o-sentido.

Se insistimos tanto desde ja´ sobre esse quarto po´lo da pesquisa, e´ porque,
com ele, o campo epistemolo´gico do sabei sobre o homem muda radicalmente
pela segunda vez desde o final do se´culo XVIII (cf. p. 53 deste livro). E
e´, de fato, em torno das obras de Freud (o inconsciente explicativo do cons-
ciente), Saussure, e depois Jakobson (a l´ıngua explicativa da palavra), de
Le´vi-Strauss e dos estruturalistas (a prio ridade dada ao sistema sobre o
sentido), que se reorganizara´ o conhecimento antropolo´gico contemporaˆneo.
Na antropo logia psicanal´ıtica, como na antropologia estrutural, estima-se
que ale´m da surpreendente diversidade das formac¸o˜es psicolo´gicas ou das
produc¸o˜es culturais localizadas a n´ıvel emp´ırico existe o que Bastian ja´ cha-
mava de ”unidade ps´ıquica da humanidade”. Mas esta deve doravante ser
pensada, na˜o mais ao n´ıvel das significac¸o˜es vividas, mas ao n´ıvel do sistema
(inconsciente). Uma das principais questo˜es que se colocara´ enta˜o e´ a se-
guinte: quais sa˜o as estruturas inconscientes do esp´ırito que atuam, tanto
nas formas elementares e complexas do parentesco, quanto no mito, na obra
de arte?. . .

5) A antropologia dinaˆmica. Reunimos nesse termo um eixo da pesquisa
antropolo´gica contemporaˆnea que se situa no horizonte do que Foucault6
chama de campo sociolo´gico, e que procura estudar as relac¸o˜es de poder.

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6.3. OS CINCO PO´LOS TEO´RICOS DO PENSAMENTO ANTROPOLO´GICO CONTEMPORAˆNEO85

As interrogac¸o˜es dos autores dos quais trataremos na˜o esta˜o distantes das
da sociologia, e alguns inclusive preferem qualificar-se de sociolo´gos. Uma
das caracter´ısticas de suas contribuic¸o˜es para a antropologia do se´culo XX,
e mais especificamente, da segunda metade do se´culo XX, consiste, a meu
ver, em reorientar a antropologia social, operando uma ruptura total com o
funcionalismo em seus pressupostos, ao mesmo tempo a histo´ricos (socieda-
des imo´veis que podem ser estudadas como se a colonizac¸a˜o na˜o existisse)
e finalistas (instituic¸o˜es visando satisfazer as necessidades). Para esses au-
tores, pelo contra´rio, conve´m na˜o isolar essa a´rea particular do homem que
seria a histo´ria. Esta e´ parte integrante do campo antropolo´gico. Por isso,
as questo˜es colocadas sa˜o as seguintes: qual e´ a dinaˆmica de tal sistema so-
cial? De onde vem? Quais sa˜o as modalidades atuais de suas transformac¸o˜es?

Esses cinco po´los em torno dos quais se organiza a antropologia contem-
poraˆnea na˜o teˆm nada de exclusivo. Sa˜o tendeˆncias de pesquisa que podem
coexistir dentro de uma mesma escola de pensamento, ou mesmo de um u´nico
pesquisador.7

A escolha da pieemineˆncia do que Devereux (1972) chamou de motivo ope-
rante (ou modelo epistemolo´gico principal, constitutivo da abordagem ado-
tada) – o qual pode ser exclusivo (ou na˜o) do lugar concedido a um motivo
instrumental (ou modelo de investigac¸a˜o complementar) –explica os deba-
tes, ou ate´ as discusso˜es, a que assistimos na˜o apenas entre disciplinas, mas
tambe´m dentro de uma mesma disciplina. A incompreensa˜o entre os pesqui-
sadores pode se tornar total, se estes na˜o tiverem plena conscieˆncia do falo de
que efetuam respectivamente escolhas metodolo´gicas, que constituem diver-
sas perspectivas poss´ıveis visando dar conta de um mesmo objeto emp´ırico.

7Assim, por exemplo, o comec¸o da obra de Malinowski aparece