Aprender Antropologia
172 pág.

Aprender Antropologia

Disciplina:Antropologia3.906 materiais41.810 seguidores
Pré-visualização46 páginas
como muito pro´ximo da
antropologia cultural. Evidenciando a especificidade da sociedade trobriandesa (1963), e
afirmando em seguida a na˜o-existeˆncia do complexo de E´dipo nessa populac¸a˜o melane´sia
(1967-1970), exerceu uma influeˆncia evidente (cf.. por exemplo, Kardiner, 1970) sobre os
culturalistas americanos. Mas. no final de sua vida (1968h a universalidade da func¸a˜o
superou finalmente a particularidade das culturas. Considerando agora a obra de Le´vi-
Strauss, esta situa-se, se a examinarmos do ponto de vista- dos objetos preferencialmente
estudados (os mitos), do lado do que chamamos de antropologia simbo´lica. Mas seu projeto
diz respeito a` antropologia social (e´ o nome do laborato´rio que Le´vi-Strauss chefiou no
Colle`ge de Francel e sua abordagem pertence evidentemente (e e´ ate´ constitutiva dele) ao
quarto eixo de pesquisa definido acima.

Existem portanto afinidades entre, por exemplo, a antropologia cultural e a antropo-
logia funcional (Malinowski), entre a antropologia estrutural e a antropologia dinaˆmica
(Godelier. 1973). Em compensac¸a˜o, e´ dif´ıcil imaginar como se poderia conciliar uma
antropologia baseada na noc¸a˜o de integrac¸a˜o social (Malinowski) e uma antropologia de
orientac¸a˜o dinaˆmica (Balandier) ou psicanal´ıtica (Devereux).

86 CAPI´TULO 6. INTRODUC¸A˜O:

Esse problema diz respeito em especial a` questa˜o da transfereˆncia dos mo-
delos em antro pologia. Estes podem ser, por exemplo, biolo´gicos (Spencer.
Comte, Malinowski), histo´ricos (Morgan), lingu¨´ısticos ou. como se diz hoje,
”informacionais”(a antropologia estrutural e sisteˆmica referindo-se a`s noc¸o˜es
de mensagens, co´digos e programas), psicolo´gicos (a introduc¸a˜o dos conceitos
de inibic¸a˜o, repressa˜o e sublimac¸a˜o para pensar o social). Conve´m, se qui-
sermos escapar daquilo que e´ frequ¨entemente apenas um dia´logo de surdos,
nunca esquecer que se trata somente de modelos, isto e´, de instrumentos da
pesquisa que visam explicar o real, mas na˜o podem subsiitu´ı-lo, pois este, em
termos cient´ıficos, so´ pode ser, segundo a expressa˜o de Bachelard, ”aproxi-
mado”.

Cap´ıtulo 7

A Antropologia Dos Sistemas
Simbo´licos

Foi a antropologia que se empenhou essencialmente em mostrar a lo´gica pre-
cisa dos sistemas de pensamento mitolo´gicos, teolo´gicos, cosmolo´gicos, que
sa˜o os das sociedades qualificadas de ”tradicionais”. Toda uma corrente
de pesquisas aparece na Franc¸a, particularmente representativa dessas preo-
cupac¸o˜es: e´ a que, a partir dos anos 30, leva Mareei Griaule e seus colabo-
radores a efetuar estudos sistema´ticos, primeiro da mitologia dos Dogons, e
depois, da religia˜o dos Bambaras. Esses trabalhos1 va˜o marcar duradoura-
mente, na˜o apenas o africanismo franceˆs, mas tambe´m a pra´tica etnolo´gica
dos pesquisadores franceses. Deixando de lado, por assim dizer, a com-
preensa˜o das relac¸o˜es de poder entre os diferentes protagonistas de uma
sociedade (assunto da antropologia social, de que trataremos no pro´ximo
cap´ıtulo), estes orientam sua atenc¸a˜o para os seguintes aspectos: o estudo
das produc¸o˜es simbo´licas (artesanato), a literatura de tradic¸a˜o oral (mitos,
contos, lendas, prove´rbios. . .) e dos instrumentos atrave´s dos quais essas
produc¸o˜es se constituem (particularmente as l´ınguas); o estudo da lo´gica dos
saberes (filoso´ficos, religiosos, art´ısticos, cient´ıficos) existentes num grupo (o
que abre o caminho para uma antropologia do conhecimento e para o que
hoje qualificamos de ”etnocieˆncias”). em suma, de tudo que Griaule e seus
sucessores chamam de ”filosofia”das sociedades dogon, bambara. . . tal
como se expressa atrave´s dos mitos e esto´rias tradicionais, da mu´sica, dos
cantos, danc¸as, ma´scaras e outros objetos culturais.

Para o conjunto dos etno´logos, e para Griaule em especial, esse pensamento

1Cf., por exemplo, M. Griaule (1938, 1966). G. Dielerlcn (1951, 1972), D. Paulme,
1962), M. Griaule e G. Dieterlen (1965). D Zahan (1960, 1963), G. Calame-Griaule (1965).
etc.

87

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

88 CAPI´TULO 7. A ANTROPOLOGIA DOS SISTEMAS SIMBO´LICOS

simbo´lico e as pra´ticas rituais a ele relacionados2 e que constituem com ele o
patrimoˆnio do grupo, na˜o se caracterizam apenas por sua profunda coereˆncia
– os sistemas de correspondeˆncia extremamente precisos entre os vivos e os
mortos, o homem e o animal, a natureza e a cultura. . .

Sa˜o elaborac¸o˜es grandiosas, de uma complexidade e riqueza inestima´veis.
E e´ precisamente esse esplendor e essa grandeza (dos mitos, ritos, ma´scaras.
. .) que acabam impondo-se ao observador ocidental, e que fara˜o em es-
pecial, das fale´sias de Bandiagara (Mali) e de seus habitantes (os Dogons),
apo´s os ı´ndios, os abor´ıgines australianos e os trobriandeses, um dos mais
importantes lugares da antropologia.

Como estamos longe do tempo era que Morgan considerava que ”todas as
religio˜es primitivas sa˜o grotescas e de alguma forma inintelig´ıveis”. Mas
como estamos longe tambe´m das apreciac¸o˜es que sa˜o no entanto as de mui-
tos pesquisadores contemporaˆneos de Griaule. De Frazer, por exemplo, que,
interrogando-se sobre os mitos e as pra´ticas rituais aos quais havia no en-
tanto dedicado sua vida, escreve: ”loucuras, va˜os esforc¸os, tempo perdido,
esperanc¸as frustradas”. Ou de Le´vy-.Bruhl, que anota em seus Carnets: os
mitos sa˜o ”esto´rias estranhas, para na˜o dizer absurdas e incompreens´ıveis”,
e acrescenta: ”E´ preciso um esforc¸o para se interessar por eles”.

Toda essa tendeˆncia do pensamento antropolo´gico de que procuramos aqui
dar conta coloca-se (a partir de observac¸o˜es minuciosas) contra esses julga-
mentos. Da mesma forma, opo˜e-se totalmente a` busca de uma determinac¸a˜o
pela economia, que explicaria a func¸a˜o dos mitos dentro do sistema social.
As pra´ticas simbo´licas em questa˜o na˜o teˆm de ser fundamentadas sociologica-
mente, pois sa˜o, pelo contra´rio, fundadoras da ordem co´smica e social. Sa˜o
elas que devem ser tomadas como fundamentais, se aceitarmos finalmente
compreendeˆ-las de dentro, impregnando-nos de sua sabedoria, recolhendo o
mais fielmente poss´ıvel o discurso dos iniciados, e na˜o projetando, de fora,
categorias caracteristicamente ocidentais. Percebe-se enta˜o que o conjunto
do edif´ıcio das sociedades africanas baseia-se numa filosofia (cf., por exemplo,
Tempels, 1949) e ate´ numa ”ontologia”que comanda a concepc¸a˜o toda que
se tem do mundo e das relac¸o˜es dos homens na sociedade.

2O interesse para a a´rea dos mitos, dos ritos de iniciac¸a˜o, da religia˜o e da magia aparece
como uma constante da antropologia francesa do conjunto do se´culo XX. Cf. por exemplo
Durkheim (1979), M. Mauss (1960), A. Van Gennep (1981), M. Leiris (1958), A. Me´traux
(1958), R. Bastide (1958), J. Rouch (1960), L. de Heusch (1971), C. Le´vi-Strauss (1964),
L. V. Thomas e R. Luneau (1975), G. Durand (1975), [. Favrct-Saada (1977), M. Auge´
(1982).

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Highlight

Andre Sobrinho
Highlight

Andre Sobrinho
Underline

89

Uma abordagem muito pro´xima orienta as pesquisas efetuadas por Mau-
rice Leenhardt (um dos primeiros etno´lo-gos franceses de campo, com Gri-
aule) na Nova Caledoˆnia. Em Do Kamo, a Pessoa e o Mito no Mundo
Melane´sio (1985), apresentado como um ”longo caminhar pelas trilhas cana-
ques, atrave´s do pensamento dos insulares, de sua noc¸a˜o de espac¸o, de tempo,
de sociedade, de palavra, de personagem”, Leenhardt considera que o mito e´
fundador da ”vida e da ac¸a˜o do homem e da sociedade”.

Cr´ıticas na˜o faltaram a essa antropologia que tem de fato tendeˆncia a apre-
ender as representac¸o˜es (religiosas, narrativas, art´ısticas. . .) como uma a´rea
”a` parte”. Dedicando exclusivamente sua atenc¸a˜o ao ”so´ta˜o”, deixando de
se interessar pelo que acontece ”na adega”, ela efetua a reconstituic¸a˜o dos
sistemas de pensamento e conhecimento em si pro´prios. As relac¸o˜es que estes
manteˆm com as relac¸o˜es sociais, pol´ıticas,