Aprender Antropologia
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econoˆmicas da sociedade em um
determinado momento de sua histo´ria sa˜o consideradas secunda´rias, quando
na˜o sa˜o pura e simplesmente ocultadas. Na˜o se pensa um so´ instante, por
exemplo, na hipo´tese de que as sociedades tradicionais possam, como diz
Althusser, ”ser movidas a` ideologia”. Assim sendo, o discurso etnolo´gico
tende a confundir-se com a teoria que a sociedade estudada elabora para dar
conta de si pro´pria. Trata-se evidentemente mais que de uma renovac¸a˜o:
de uma inversa˜o de perspectivas em relac¸a˜o a` arrogaˆncia dos julgamentos
ocidentaloceˆntricos sobre o primitivo. Mas sera´ que essa abordagem que se
limita a recolher as representac¸o˜es conscientes dos mais sa´bios entre os inici-
ados locais pode servir de explicac¸a˜o antropolo´gica?

O que conve´m destacar e´ que essa tendeˆncia da etnologia cla´ssica inscreve-se
num projeto de reabilitac¸a˜o das formas de pensamento e expressa˜o que na˜o
sa˜o as nossas. Mostra que, fora o saber cient´ıfico, o u´nico a beneficiar de
uma plena legitimac¸a˜o no Ocidente do se´culo XX, existem outras formas de
conhecimento tambe´m auteˆnticas. Esse protesto para o direito a` existeˆncia
de identidades culturais e espirituais (o que Senghor, por exemplo, chamara´
de ”metaf´ısica negra”), negadas pelas pra´ticas coloniais e que coincide com
a descoberta de ”arte negra”, e´ profundamente subversivo na primeira me-
tade do se´culo XX. Finalmente, se na˜o existe nenhuma teoria griauliana
propriamente dita (retomamos mais uma vez o exemplo de Griaule porque
ele nos parece o mais representativo dessa abordagem), na˜o deixa de haver
um acu´mulo de pesquisas extremamente aprofundadas que contribu´ıram em
dar a` etnologia francesa seu prest´ıgio, um trabalho considera´vel sem o qual
a antropologia provavelmente na˜o seria o que e´ hoje.

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Note
Essa antropologia ao colocar essa lente e reagir aos modelos etnocêntricos, apresenta uma dimensão não apenas explicativa, mas de um projeto.

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90 CAPI´TULO 7. A ANTROPOLOGIA DOS SISTEMAS SIMBO´LICOS

Cap´ıtulo 8

A Antropologia Social:

Os princ´ıpios da antropologia social, tal como se elabora especialmente na In-
glaterra com o impulso de Malinowski e sobretudo de Radcliffe-Brown (1968),
na˜o deixam de lembrar os princ´ıpios da antropologia simbo´lica. Esta insistia,
como acabamos de ver, na coereˆncia lo´gica dos sistemas de pensamento. A
antropologia social, por sua vez, comec¸a destacando a coesa˜o das instituic¸o˜es,
o cara´ter integrativo da famı´lia, da moral, e sobretudo da religia˜o (Durkheim,
1979).

Mas essas duas perspectivas sa˜o muito diferentes. Essa alteridade da qual
procurava-se mostrar o significado profundo (cap´ıtulo anterior), e tambe´m
o valor inestima´vel, pode ser tambe´m encontrada dentro de cada sociedade,
ta˜o grande e´ a diferenciac¸a˜o interna dos grupos sociais que compo˜em uma
mesma cultura. Assim, se o interesse para os sistemas de representac¸o˜es (mi-
tologia, magia, religia˜o. . .) permanece, e´ para mostrar o lugar e a func¸a˜o
que sa˜o seus dentro de um conjunto maior: a sociedade global em questa˜o. O
que e´ enta˜o tomado como explicativo precisa ser explicado. A antropologia
simbo´lica realiza em muitos aspectos uma redundaˆncia sofisticada daquilo
que era dito pelos pro´prios fatores sociais, ou, mais precisamente, pelos de-
posita´rios habilitados do saber de uma parte do grupo. Perguntamo-nos
agora: o que mostram, mas tambe´m dissimulam, esses discursos suntuosos
que expressam menos a sociedade em sua realidade do que a sociedade em
seu ideal? Assim, ao estudo da cultura como sistema de relac¸o˜es vividas,
Malinowski, um dos primeiros, pede que se substitua o estudo da sociedade
como sistema de relac¸o˜es reais, que escapam aos atores sociais: ”Os objetivos
sociolo´gicos nunca esta˜o presentes no esp´ırito dos ind´ıgenas”. O antropo´logo
e´ que deve descobrir as leis de funcionamento da sociedade.

As produc¸o˜es simbo´licas sa˜o simultaneamente produc¸o˜es sociais que sempre

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92 CAPI´TULO 8. A ANTROPOLOGIA SOCIAL:

decorrem de pra´ticas sociais. Na˜o devem ser estudadas em si-, mas enquanto
representac¸o˜es do social. Este u´ltimo termo, consagrado por Durkheim, vai
exercer um papel considera´vel, particularmente na constituic¸a˜o de uma an-
tropologia social da religia˜o. Quando se diz nessa perspectiva que a religia˜o
(da mesma forma que a arte ou a magia) e´ uma ”representac¸a˜o”, sublinha-se
que na˜o se deve atribuir-lhe nenhuma existeˆncia autoˆnoma pois esta´ vincu-
lada a uma outra coisa, capaz de explica´-la: as relac¸o˜es de produc¸a˜o, de
parentesco, as relac¸o˜es entre faixas de idade, entre grupos sexuais, todos es-
tes n´ıveis de realidade, mas que sa˜o sempre relac¸o˜es de poder encontrando
ao mesmo tempo sua expressa˜o e sua justificac¸a˜o nesse saber integrativo e
totalizante por exceleˆncia que e´ a religia˜o.1

Uma outra caracter´ıstica desse segundo eixo de pesquisa, estreitamente vin-
culada ao que acabamos de dizer, merece ser sublinhada: um certo nu´mero de
autores, e na˜o dos menores (Radcliffe-Brown (1968), Evans-Pritchard (1969),
ou ainda na Franc¸a, para o per´ıodo contemporaˆneo, Rogei Bastide (1970),
Henri Desroche (1973), Georges Balandier (1974), Louis-Vincent Thomas
(1975)), recusam-se a conceder uma pertineˆncia a` distinc¸a˜o entre a antro-
pologia social e a sociologia. A antropologia social na˜o e´ profundamente
diferente da sociologia, considera Radcliffe-Brown. E´ uma ”sociologia com-
parativa”. Evans-Pritchard, por sua vez, (1969) escreve:

”A antropologia social deve ser considerada como fazendo parte dos estudos
sociolo´gicos. E´ um ramo da sociologia cujo estudo se liga mais especifica-
mente a`s sociedades primitivas”.

Para ilustrar seu ponto de vista, diametralmente oposto ao de Mauss, esse
autor utiliza o exemplo de um processo que confronta juizes, jurados, teste-
munhas, advogados e re´u:

”No decorrer desse processo, os pensamentos e sentimentos do re´u, do ju´ri
e do juiz sc alterara˜o de acordo com o momento, assim como podem variar
a idade, a cor dos cabelos e dos olhos dos diferentes protagonistas, mas es-
sas variac¸o˜es na˜o sa˜o de nenhum interesse, pelo menos imediatamente, para

1Estamos apenas dando conta, a partir do exemplo da religia˜o, de uma opc¸a˜o poss´ıvel
inscrevendo-se na abordagem da antropologia social. Cf., ainda nessa perspectiva (durkhei-
miana), os trabalhos de R. E. Brad-bury e col. (1972) ou de M. Douglas (1971), muito
representativos da antropologia social britaˆnica da religia˜o. Cf. tambe´m, em uma pers-
pectiva sensivelmente diferente, G. Balandier (1967) para quem a religia˜o e´ a ”linguagem
do pol´ıtico”, e, mais recentemente, as cr´ıticas formuladas por M. Auge´ (1979) quanto a`
noc¸a˜o de ”representac¸a˜o”.

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Highlight

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o antropo´logo. Este na˜o se interessa pelos atores do drama enquanto in-
div´ıduos”.

As relac¸o˜es entre a perspectiva antropolo´gica e a perspectiva psicolo´gica,
prossegue Evans-Pritchard, podem ser formuladas nos seguintes termos:

”As duas disciplinas so´ podem ser proveitosas uma a outra, e, nesse caso,
extremamente proveitosas, se efetuarem independentemente suas respectivas
pesquisas, seguindo os me´todos que lhes sa˜o pro´prios”.

Estamos frente a uma abordagem tipicamente durkheimiana. A tal ponto
que, para muitos autores americanos (cf. em especial Lowie, 1971), e nota-
damente para os que esta˜o ligados a` antropologia cultural, que examinaremos
agora, a antropologia social na˜o faz parte da antropologia, mas se inscreve