Aprender Antropologia
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Aprender Antropologia

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que desenvolve a ide´ia de que a cultura
e´ uma sublimac¸a˜o decorrente da imperfeic¸a˜o do feto humano ao nascer; 1944:
Cora du Bois, O Povo de Alor; 1945: Linton, Os Fundamentos Culturais da
Personalidade: 1949: Herskovitz, As Bases da Antropologia Cultural; 1950:
Roheim, Psicana´lise e Antropologia. . .

O que mostram essas diferentes obras, sempre baseadas em numerosas ob-
servac¸o˜es, e´ que conve´m na˜o atribuir a` natureza o que diz respeito a` cultura;
ou seja, na˜o considerar como universal o que e´ relativo.3Essa compreensa˜o
da irredut´ıvel diversidade das culturas que e´ o eixo central da antropologia
cultural – aparece ao mesmo tempo: 1) ao n´ıvel dos trac¸os singulares dos
comportamentos; 2) ao n´ıvel da totalidade da nossa personalidade cultural,
qualificada por Kardiner de ”personalidade de base”. Como essa corrente de
pesquisa, que procuraremos apresentar o mais fielmente poss´ıvel, multiplica-
remos os exemplos.

1) A variac¸a˜o cultural pode ser encontrada em cada um dos aspectos de
nossas atividades. Assim, a maneira com que descansamos. Nas sociedades
nas quais os homens dormem diretamente no. solo, dificilmente suportam
a maciez de um colcha˜o. Inversamente, sentimos dificuldade em dormir –
como me aconteceu no Brasil – em uma rede, e na˜o nos passaria pela cabec¸a
descansar, como alguns na A´sia. apoiando-nos em uma so´ perna.

Tomemos um outro exemplo: a divisa˜o do trabalho entre os sexos. Nas
sociedades do Oeste africano, as mulheres se dedicam a` ceraˆmica, enquanto
os homens va˜o para a roc¸a, quando, na ilha de Alor, sa˜o as mulheres que
cultivam a terra enquanto os homens cuidam da educac¸a˜o das crianc¸as. As-
sim como na sociedade Chaumbuli, na qual os homens se dedicam aos filhos,
enquanto as mulheres va˜o pescar.

Consideremos agora os comportamentos adotados para penetrar nos edif´ıcios
religiosos. Na Europa, ao penetrar numa igreja, observamos que os fie´is tiram
o chape´u e permanecem com os sapatos. Inversamente, em uma mesquita,
os muc¸ulmanos tiram os sapatos e permanecem com o chape´u.

3Como mostrei em meu livro sobre A Etnopsiquiatria, este ultimo comenta´rio deve
porem ser relativizado no que diz respeito a Rohem.

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As formas de hospitalidade tambe´m testemunham de uma extrema diversi-
dade podendo, como no exemplo acima, consistir na inversa˜o pura e simples
daquilo que toma´vamos espontaneamente por natural. Assim, fiquei pessoal-
mente impressionado, durante minha primeira estadia em pa´ıs Bau´le (Costa
do Marfim), como ho´spede, com o convite que me era sistematicamente feito
de uma refeic¸a˜o preparada em minha homenagem, mas que devia ser consu-
mida isoladamente, isto e´, em um coˆmodo e separadamente de meus hospe-
deiros, os quais, por outro lado, reservavam-me um presente muito inesperado
para um ocidental, que na˜o era nada menos que a filha mais bonita da casa.

Diferenc¸as significativas, decorrentes da cultura a` qual pertencemos, po-
dem tambe´m ser encontradas nos menores detalhes dos nossos comporta-
mentos mais cotidianos. Assim, nas sociedades a´rabes, sul-americanas e sul-
europe´ias, desviar o olhar e´ considerado como um sinal de ma´ educac¸a˜o,
enquanto que nas sociedades asia´ticas e norte-europe´ias, olhar fixamente
algue´m com insisteˆncia causa um incoˆmodo que se traduz por uma impressa˜o
de ameac¸a e agressividade.

A saudac¸a˜o visual consistindo em levantar rapidamente as sobrancelhas, ace-
nar a cabec¸a e sorrir, assinala um encontro amiga´vel na Nova Guine´ ou na
Europa, mas e´ censurada por ser considerada indecente no Japa˜o. As trocas
de contatos cutaˆneos entre dois interlocutores sa˜o extremamente reduzidas
nos pa´ıses anglo-saxoˆnicos assim como no Japa˜o. Impo˜e-se pelo contra´rio,
como expressa˜o normal do prazer de encontrar o outro nas sociedades medi-
terraˆneas e sul-americanas. Esses mesmos interlocutores, sentados no terrac¸o
de um bar ou passeando na rua, ira˜o manter um certo espac¸o entre si na
Europa do Norte ou na A´sia, sob pena de sentir um certo mal-estar; ten-
dera˜o a diminuir a distaˆncia que os separa nas sociedades a´rabes ou latino-
americanas.

Finalmente, as formas de comportamento sexual detiveram particularmente
a atenc¸a˜o dos observadores. De um lado, a educac¸a˜o sexual e´ eminentemente
varia´vel de uma sociedade para outra. Na Melane´sia, por exemplo, meninos
e meninas sa˜o, na idade da puberdade, iniciados nas te´cnicas amorosas por
monitores experimentados, enquanto os Muria da ı´ndia (cf. Elwin, 1959) ins-
titucionalizavam essa pra´tica preservando um espac¸o (por assim dizer, uma
casa da juventude) que tem como objetivo encorajar os jogos sexuais. Por
outro lado, os rituais amorosos sa˜o profundamente diferentes, na˜o apenas de
uma civilizac¸a˜o para outra, mas dentro de -uma mesma civilizac¸a˜o. Aqui
esta´ um exemplo recolhido por Margaret Mead que merece ser relatado.

100 CAPI´TULO 9. A ANTROPOLOGIA CULTURAL:

Durante a u´ltima guerra mundial, soldados americanos estavam mobiliza-
dos na Gra˜-Bretanha. Esses soldados e as jovens inglesas que frequ¨enta-
vam acusavam-se mutuamente de ma´ educac¸a˜o nas relac¸o˜es amorosas. Os
GIs consideravam as inglesas mulheres levianas; as inglesas achavam que
os americanos comportavam-se como marginais. Cada um dos grupos re-
agia normalmente, mas a norma era diferente de uma cultura para outra:
para os americanos, o beijo, que interve´m muito cedo nas relac¸o˜es de na-
moro, na˜o tinha grandes consequ¨eˆncias, enquanto que, para as inglesas, era
a u´ltima etapa antes do ato sexual. As inglesas ficavam, portanto, chocadas
que os americanos quisessem beija´-las ta˜o precipitadamente; e estes na˜o en-
tendiam que as inglesas fugissem deles por causa de um ato ta˜o insignificante
quanto um beijo na boca, ou que passassem ta˜o rapidamente para a etapa
seguinte, quando tinham aceito o beijo. Qu¨iproquo´s desse tipo pontuam nos-
sas relac¸o˜es interculturais.

2) O peso da cultura na˜o se manifesta apenas nas formas diversificadas de
comportamentos e atividades facilmente localiza´veis de uma sociedade para
outra (como a alimentac¸a˜o, o ha´bitat, a maneira de se vestir, os jogos. .O,
mas tambe´m nas estruturas perceptivas, cognitivas e afetivas constitutivas
da pro´pria personalidade. A antropologia cultural foi assim levada a reto-
mar, nos fundamentos da observac¸a˜o e da ana´lise etnopsicolo´gica, o que os
folcloristas, mas tambe´m os escritores (Chateaubriand, Georges Sand. . .)
chamavam de ”alma”ou ”geˆnio”de um povo. Assim, tentou evidenciar a pre-
ocupac¸a˜o dos japoneses em nunca perder a face em sociedade, sob pena de
um desmoronamento da personalidade que se traduz por um sentimento de
vergonha e culpa extremo, ou ainda, o receio dos franceses frente a` natureza
que deve ser domesticada pela raza˜o; receio que se expressa tanto no cara´ter
”bem-comportado”dos nossos contos populares (sempre menos extravagan-
tes que os contos escandinavos, russos ou alema˜s) quanto em nossos jardins,
qualificados precisamente de ”jardins a` francesa”.

Mas e´ sobretudo ao estudo das formas contrastadas da personalidade nos
povos das sociedades ”tradicionais”, que a antropologia americana deve a
sua fama. Margaret Mead (1969), ao confrontar duas populac¸o˜es vizinhas da
Nova Guine´, considera que uma, a dos doces e ternos Arapesh, so´ deseja paz
e serenidade, enquanto a outra, a dos violentos Mundugumor, e´ comandada
por uma agressividade propriamente canibal. O que e´ enta˜o considerado
como personalidade desviante entre os primeiros (o indiv´ıduo violento), apa-
recera´, entre os segundos, como perfeitamente normal, isto e´ conforme ao
ideal do grupo, e inversamente. Na mesma o´tica, Ruth Benedict (1950) opo˜e

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a sociedade ”apoloniana”dos ı´ndios Pueblos do Novo Me´xico a` exaltac¸a˜o e
rivalidade ”dionis´ıacas”permanentes que manteˆm entre si os habitantes da