Aprender Antropologia
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tanto quanto Bateson, recorre a esse modelo nascido

Andre Sobrinho
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da fecundac¸a˜o mu´tua da eletroˆnica e da biologia. Desde a sua Introduc¸a˜o a`
Obra de Mareei Mauss (o qual e´ incontestavelmente o pai do estruturalismo
franceˆs, e tambe´m o ”mestre”a quem Devereux dedica seus Ensaios de Et-
nopsiquiatria Geral), Le´vi-Strauss refere-se a Wiener e Neumann.

2) A partir dos anos 50, comec¸a a desenvolver-se, tanto na Europa quanto
nos Estados Unidos, um modelo que Winkin qualifica de ”modelo orques-
tral da comunicac¸a˜o”, esta u´ltima na˜o sendo mais concebida a` maneira te-
legra´fica de um emissor transmitindo em sentido u´nico uma mensagem a um
destinata´rio, mas como um complexo de elementos em situac¸a˜o de interac¸o˜es
cont´ınua e na˜o aleato´ria. Disso decorre a meta´fora da orquestra participando
da execuc¸a˜o de uma partitura ”invis´ıvel”, na execuc¸a˜o da qual cada um dos
mu´sicos esta´ envolvido. Os antropo´logos americanos que se inscrevem nessa
corrente insistem sobre o fato de que (

imposs´ıvel na˜o comunicar, todo comportamento humano (do vozerio mais
intenso ao mutismo absoluto, pontuado por gestos, posturas, mı´micas, ex-
presso˜es do rosto por mı´nimas que sejam) consistindo em trocar mensagens
frequ¨entemente involunta´rias. Ora, a tarefa do pesquisador e´ precisamente a
de evidenciar essas regras gramaticais constitutivas da linguagem tanto ver-
bal quanto na˜o verbal, isto e´, na realidade, a cultura, cuja lo´gica e´ irredut´ıvel
a` soma de seus elementos.

Lembremos mais uma vez que existem, e´ claro, diferenc¸as muito importan-
tes entre o estruturalismo europeu, em particular franceˆs, e o interacionismo
americano. Mas eles visam juntos a` construc¸a˜o do que Le´vi-Strauss chama
uma ”cieˆncia da comunicac¸a˜o”. Para este u´ltimo, toda cultura e´ uma mo-
dalidade particular da comunicac¸a˜o (das mulheres, das palavras, dos bens),
regida por leis inconscientes de inclusa˜o e exclusa˜o. E quando o autor da
Antropologia Estrutural realiza, na parte mais recente de sua obra, o estudo
dos mitos, refere-se tambe´m a` imagem de uma partitura musical na˜o escrita
e sem autor, expressando o pro´prio inconsciente da sociedade.

Se a etnopsiquiatria de Devereux na˜o deve nada a essa abordagem ”sisteˆmica”,
relutando ate´, frente a quaisquer empreendimentos de formalizac¸a˜o lingu¨´ıstica,
ela acentua o cara´ter eminentemente relacionai do objeto das cieˆncias huma-
nas: os fenoˆmenos estudados tanto pelo cl´ınico quanto pelo etno´logo sa˜o
fenoˆmenos que nunca sa˜o dados em estado bruto, tratando-se simplesmente
de recolheˆ-los, e sim fenoˆmenos provocados em uma situac¸a˜o de interac¸a˜o
particular com atores particulares, e que conve´m analisar, procurando com-
preender a natureza da perturbac¸a˜o envolvida na pro´pria relac¸a˜o que liga o

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106CAPI´TULO 10. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEˆMICA:

”observador”e o ”observado”.

3) A experieˆncia etnolo´gica – que e´ antes experieˆncia de uma relac¸a˜o hu-
mana, isto e´, de um encontro – se da´ no inconsciente: inconsciente freudi-
ano, mas tambe´m inconsciente e´tnico para Devereaux, inconsciente estrutural
para Le´vi-Strauss. Isto e´, ”estrutura inata do esp´ırito humano”. situada no
ponto de encontro entre a natureza e a cultura; mas estrutura que se expressa
sempre na ”histo´ria particular dos indiv´ıduos e dos grupos”, produzindo cons-
tantemente aspectos ine´ditos. Ou seja, tanto para o estruturalismo quanto
para etnopsiquiatria (mas isso ja´ e´ menos verdadeiro para o conjunto da an-
tropologia sisteˆmica americana, cuja tendeˆncia e´, frequ¨entemente, emp´ırica
como nos Estados Unidos), o sentido do que fazem os homens deve ser procu-
rado menos no que dizem do que no que encobrem, menos no que as palavras
expressam do que no que escondem.

4) Todo o pensamento antropolo´gico que procuramos aqui descrever inscreve-
se claramente no quadro das cieˆncias humanas (ou, como se diz nos Estados
Unidos, das ”cieˆncias do comportamento”) e na˜o no das cieˆncias sociais.
Enquanto estas u´ltimas ”aceitam sem reticeˆncias estabelecer-se no pro´prio
aˆmago de sua sociedade”, como escreve Le´vi-Strauss (1973) – e´ o caso da
economia, da sociologia, do direito, da demografia –, as primeiras, visando
”apreender uma realidade imanente ao homem, colocam-se aque´m de todo
indiv´ıduo e de toda sociedade”.

O exemplo da primeira obra de Bateson, A Cerimoˆnia do Naven (1936)
parece-me particularmente revelador. Em primeiro lugar, devido a` sila exigeˆncia
de pluridisciplinaridade (e. especialmente, de pluridisciplinaridade entre a
abordagem etnolo´gica e psicolo´gica),1 mas que na˜o e´ concebida, de forma
alguma, a` maneira da antropologia cultural. O autor estuda os diferentes
tipos poss´ıveis de relac¸o˜es dos indiv´ıduos para com a sociedade e, mais espe-
cificamente, as reac¸o˜es dos indiv´ıduos frente a`s reac¸o˜es de outros indiv´ıduos.
Em seguida, e sobretudo, por seu cara´ter inovador no campo da antropolo-
gia anglo-saxoˆnica da e´poca, caracterizada notadamente pela monografia. A
partir da cultura dos latmul da Nova Guine´, mas ale´m dessa cultura, o que
interessa Bateson, e´ a possibilidade de aceder a uma teoria transcultural,
cujos conceitos podera˜o ser utilizados na com preensa˜o de outras socieda-
des. Ora, ningue´m insistiu mais que Le´vi-Strauss e Devereux sobre o fato de

1Essa problema´tica, que e´ o eixo de toda a obra de Devereux e´ tambe´m uma das
preocupac¸o˜es maiores de Le´vi-Strauss, que escreve em La Pense´e Sauvage que ”a etnologia
e´ antes uma psicologia

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que as culturas particulares na˜o podiam antropologicamente ser apreendidas
sem refereˆncia a` ”cultura”(Devereux), ”esse capital comum”(Le´vi-Strauss)
que utilizamos para elaborar nossas experieˆncias tanto individuais como co-
letivas. Disso decorre o cara´ter claramente ”metacultural”(Devereux) desse
pensamento, que esta´ rigorosamente no oposto do ”culturalismo”, e emi-
nentemente fundador da possibilidade da comunicac¸a˜o tanto intersubjetiva
quanto intercultural.

5) Quer´ıamos finalmente insistir sobre o fato de que essas diferentes abor-
dagens sa˜o abordagens da totalidade, refrata´rias a qualquer atitude reduci-
onista, isto e´, considerando apenas um aspecto parcelar da realidade social,
atrave´s de um instrumento u´nico. Para Le´vi-Strauss como para Bateson,
na˜o existem nunca relac¸o˜es de causalidade unilinear entre dois fenoˆmenos,
e sim ”correlac¸o˜es funcionais”. E se a abordagem da etnopsiquiatria em
relac¸a˜o a` da antropologia estrutural ou sisteˆmica e´ claramente anal´ıtica, e
na˜o sinte´tica, enquadra-se dentro de uma epistemologia da complementari-
dade, fundada sobre a necessidade da articulac¸a˜o de enfoques habitualmente
tomados como separados. Por todas essas razo˜es, a antropologia assim con-
siderada e´, de acordo com o termo proposto por Jean-Marie Auzias (1976),
um ”pensamento dos conjuntos”, preocupado em na˜o deixar escapar nada na
investigac¸a˜o do social, e, por isso, inventivo de modelos que conve´m qualificar
de ”complexos”.

A abordagem de Le´vi-Strauss ocupara´ portanto agora nossa atenc¸a˜o. Essa
abordagem procede de uma se´rie de rupturas radicais.

1) Ruptura em primeiro lugar com o humanismo e a filosofia, isto e´, as
ideologias do sujeito considerado enquanto fonte de significac¸o˜es. A meto-
dologia estrutural inverte a ordem dos termos em que se apoiava a filosofia.
O sentido na˜o esta´ mais dessa vez ligado a` conscieˆncia, a qual se veˆ descen-
trada pelo projeto estrutural, como pelo projeto freudiano. Rompendo com a
tagarelice do sujeito, ”essa crianc¸a mimada da filosofia”, como escreve Le´vi-
Strauss, as significac¸o˜es devem ser doravante buscadas no ”ele”da lingu¨´ıstica,
como no ”id”da psicana´lise. Ou seja, eu sou pensado, sou falado, sou agido,
sou atravessado por estruturas