Aprender Antropologia
172 pág.

Aprender Antropologia

Disciplina:Antropologia5.031 materiais46.030 seguidores
Pré-visualização46 páginas
que me preexistem. Assim, a antropologia
como a psicana´lise intro-duzem uma crise na epistemologia da racionalidade:
o lugar atribu´ıdo ao sujeito transcendental e´ questionado pela irrupc¸a˜o da
problema´tica do inconsciente.

2) Ruptura em relac¸a˜o ao pensamento histo´rico: o evolucionismo, e´ claro,
mas tambe´m qualquer forma de historicismo. Para este u´ltimo, que e´ ne-

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Highlight

Andre Sobrinho
Highlight

Andre Sobrinho
Highlight

Andre Sobrinho
Highlight

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Highlight

Andre Sobrinho
Highlight

108CAPI´TULO 10. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEˆMICA:

cessariamente gene´tico, explicar e´ procurar uma anterioridade, isto e´, tentar
compreender o presente atrave´s do passado. A` ana´lise dos processos em ter-
mos de explicac¸a˜o causai, opo˜e-se a inteligibilidade estrutural, inteligibilidade
combinato´ria de uma instituic¸a˜o, de um comportamento, de um relato. . .

3) Ruptura com o atomismo, que considera os elementos independentemente
da totalidade. O modelo do estruturalismo sendo lingu¨´ıstico, o sentido de
um termo so´ pode ser compreendido dentro de sua relac¸a˜o a`s outras palavras
da l´ıngua ou do que for ana´logo a esta.

4) Ruptura, finalmente, com o empirismo. ”Para alcanc¸ar o real, e´ pre-
ciso primeiro repudiar o vivido”, diz Le´vi-Strauss em Tristes Tro´picos. Ou
seja, o objeto cient´ıfico deve ser arrancado da experieˆncia da impressa˜o, da
percepc¸a˜o espontaˆnea. Para isso, conve´m colocar-se ao n´ıvel na˜o mais da
palavra e sim da l´ıngua, na˜o mais, voltaremos a isso, da histo´ria consciente
do que fazem os homens, e sim do sistema que ignoram. E´ toda a diferenc¸a
entre o estruturalismo ingleˆs e o estruturalismo franceˆs. Para Le´vi-Strauss,
Radcliffe-Brown confunde a estrutura social e as relac¸o˜es sociais. Ora. estas
sa˜o apenas os materiais utilizados para alcanc¸ar a estrutura, a qual na˜o tem
como objetivo substituir-se a` realidade e sim explica´-la. Mais precisamente,
uma estrutura e´ um sistema de relac¸o˜es suficientemente distante do objeto
que se estuda para que possamos reencontra´-lo em objetos diferentes.

* * *

Assim, atrave´s da inversa˜o epistemolo´gica que realiza, abrindo uma compre-
ensa˜o nova da sociedade, o pensamento estrutural nos mostra que a extra-
ordina´ria variedade das relac¸o˜es emp´ıricas so´ se torna intelig´ıvel a partir do
momento em que percebemos que existe apenas um nu´mero limitado de es-
truturac¸o˜es poss´ıveis dos materiais culturais que encontramos, um nu´mero
limitado de invariantes. As relac¸o˜es de alianc¸a entre homens e mulheres pa-
recem, a primeira vista, praticamente infinitas. Mas oscilam sempre entre
alguns grupos: comunismo sexual, levirato, sororato, casamento por rapto,
poligamia, monogamia, unia˜o livre. Da mesma forma, as relac¸o˜es dos ho-
mens com a divindade sempre se organizam a partir de um pequeno nu´mero
de opc¸o˜es poss´ıveis: o monote´ısmo, polite´ısmo, mante´ısmo, ate´ısmo, agnos-
ticismo.

Foi a partir do campo do parentesco que se constituiu o estruturalismo de
Le´vi-Strauss. Para este, o parentesco e´ uma linguagem. Na˜o se pode compre-
endeˆ-lo efetuando a ana´lise ao n´ıvel dos termos (o pai, o filho, o tio materno
em uma sociedade matrilinear. . .), muito menos ao n´ıvel dos sentimentos

Andre Sobrinho
Highlight

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Highlight

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

109

que podem animar os diferentes membros da famı´lia. E´ preciso colocar-se
no n´ıvel das relac¸o˜es entre estes termos, regidas por regras de troca ana´logas
a`s leis sinta´ticas da l´ıngua. Mas a ana´lise estrutural das relac¸o˜es de alianc¸a
e parentesco esta´ longe de ser a aplicac¸a˜o pura e simples de um modelo (o
da lingu¨´ıstica). Quando se estuda o parentesco, a linguagem ou a economia,
estamos na realidade frente a diferentes modalidades de uma u´nica e mesma
func¸a˜o: a comunicac¸a˜o (ou a troca), que e´ a pro´pria cultura emergindo da
natureza para introduzir uma ordem onde esta u´ltima na˜o havia previsto
nada. Mais precisamente, a reciprocidade – que e´ a troca atuando e que
exige uma teoria da comunicac¸a˜o – pode ser localizada em va´rios n´ıveis:

• ao n´ıvel da cultura: e´ a troca de mulheres (parentesco), de palavras
(lingu¨´ıstica), de bens (economia), mulheres, palavras e bens sendo ter-
mos que se trocam, informac¸o˜es que se comunicam;2

• no ponto de encontro entre a natureza e a cultura, isto e´, ao n´ıvel de
um inconsciente estrutural, que, ale´m da contingeˆncia dos materiais
programados, reorganiza incessantemente estes mesmos materiais.

Dois exemplos a que Le´vi-Strauss recorre va´rias vezes em sua obra, permitem
compreender essa inversa˜o de perspectiva que realiza a metodologia estrutu-
ral. Sa˜o os exemplos do baralho e do caleidosco´pio:

”O homem e´ semelhante ao jogador pegando na ma˜o, ao sentar a` mesa,
cartas que na˜o inventou, ja´ que o jogo de baralho e´ um dado da histo´ria
e da civilizac¸a˜o. Fm segundo lugar, cada repartic¸a˜o das cartas resulta de
uma distribuic¸a˜o contingente entre os jogadores, e se da´ independentemente
da vontade de cada um. Existem as distribuic¸o˜es que sa˜o sofridas, mas que
cada sociedade, como cada jogador, interpreta nos termos dc va´rios sistemas,
que podem ser comuns ou particulares: regras de um jogo, ou regras de uma
ta´tica. E sabe-se bem que, com a mesma distribuic¸a˜o, jogadores diferentes
na˜o fornecera˜o a mesma partida, embora na˜o possam, compelidos tambe´m
pelas regras, fornecer com uma determinada distribuic¸a˜o qualquer partida”.

”Em um caleidosco´pio, a combinac¸a˜o de elementos ideˆnticos sempre da´ no-
vos resultados. Mas e´ porque a histo´ria dos historiadores esta´ presente nele
– nem que seja na sucessa˜o de chacoalhadas que provocam as reorganizac¸o˜es

2”As pro´prias mulheres”, escreve Le´vi-Strauss. ”sa˜o tratadas como signos dos quais se
abusa quando na˜o se da´ a elas o uso reservado aos signos, que e´ de serem comunicados”.
E a antropologia tem como tarefa a de estabelecer as regras da troca, diferentes dc uma
sociedade para outra, mas que permanecem em todos os casos independentes da natureza
dos parceiros

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

110CAPI´TULO 10. A ANTROPOLOGIA ESTRUTURAL E SISTEˆMICA:

da estrutura – e as chances para que reaparec¸a duas vezes o mesmo arranjo
sa˜o praticamente nulas.”

Todo o programa e toda a abordagem do estruturalismo esta˜o nesses dois
textos:

1) a existeˆncia de um certo nu´mero de materiais culturais sempre ideˆnticos,
que, como as cartas ou os elementos do caleidosco´pio, podem ser qualificados
de invariantes;

2) as diferentes estruturac¸o˜es poss´ıveis destes materiais (isto e´, as manei-
ras com as quais se organizam entre si quando passamos de uma cultura
para outra, ou de uma e´poca outra) que na˜o esta˜o em nu´mero ilimitado, pois
sa˜o comandadas pelo que Le´vi-Strauss chama de ”leis universais que regem
as atividades inconscientes do esp´ırito”;

3) finalmente, compara´veis a` aplicac¸a˜o de leis gramaticais, o pro´prio de-
senrolar do jogo de baralho ou os movimentos do caleidosco´pio que na˜o para
de girar, com algue´m que observa esse processo – o etno´logo – dirigindo, no
caso do autor de Tristes Tro´picos, sobre o que percebe, um olhar que conve´m
qualificar de este´tico.

Le´vi-Strauss na˜o ignora a diversidade das culturas – ja´ que procurara´ preci-
samente dar conta dela – nem a histo´ria. Mas, de um lado desconfia de um
”ecletismo apressado”que