Aprender Antropologia
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Aprender Antropologia

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XIX e que per-
mitem pensar numa evoluc¸a˜o resolutamente ”plural”da humanidade.

Na˜o e´ evidentemente poss´ıvel, dentro do quadro limita do desse trabalho,
dar conta da riqueza e diversidade das pesquisas que de uma forma ou de
outra participam hoje do desenvolvimento extremamente ativo dessa antro-
pologia que qualificamos de dinaˆmica. Seria conveniente, por exemplo, falar
dos trabalhos de Max Gluckman (1966), de Jacques Bergue (1964), ou ainda,
da contribuic¸a˜o de um certo nu´mero de antropo´logos franceses de orientac¸a˜o
marxista, que notadamente renovaram, durante os u´ltimos 25 anos, a a´rea

1Se praticamente toda a antropologia do se´culo XX teve tendeˆncia, ate´ recentemente,
a considerar que as sociedades ”tradicionais”sa˜o sociedades imuta´veis, tal tendeˆncia
e´ provavelmente mais forte na franc¸a, devido notadamente a` preocupac¸a˜o de muitos
etno´logos de nosso pa´ıs em relac¸a˜o aos sistemas mı´tico-cosmolo´gicos. Disso decorre
a reac¸a˜o que leva na Franc¸a um certo nu´mero de pesquisadores (Baslide. Desroclic,
Balandier, Thomas...) a libertarem-se desse ponto de vista considerado passadista e a
preferirem a terminologia de ”sociologia”.

Uma das correntes contemporaˆneas mais marcantes desse pensamento e´ certamente
a que nasceu nos Estados Unidos, durante os anos 50, com o impulso de Leslie White
(1959), e que qualifica a si pro´pria de neo-evolucionismo. Este realiza, em primeiro lugar,
uma releitura e uma reabilitac¸a˜o da obra de Morgan, relegada ate´ enta˜o, pela maioria
dos pesquisadores, ao esquecimento. Descobre assim que essa obra conte´m uma intuic¸a˜o
fecunda que conve´m explorar: na˜o se trata, e´ claro, dessa ”periodizac¸a˜o”sistema´tica, sobre
a qual os adversa´rios do antropo´logo americano tanto insistiram para desacredita´-lo, mas
de sua descoberta de uma indissociabilidade de n´ıveis do social (a tecnologia, a ecologia,
a famı´lia, as instituic¸o˜es pol´ıticas, a religia˜o) estreitamente imbricadas, formando o que o
pro´prio Morgan chama de ”estruturas”, que evoluem dentro de per´ıodos sucessivos.2

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

116 CAPI´TULO 11. A ANTROPOLOGIA DINAˆMICA:

da antropologia econoˆmica.3 Dois autores ira˜o deter mais demo-radamente
nossa atenc¸a˜o: Georges Balandier e Roger Bastide.

Uma das preocupac¸o˜es de Balandier, desde a publicac¸a˜o de suas primeiras
obras sobre a A´frica negra (1955), e´ mostrar que conve´m interessar-se para to-
dos os atores sociais presentes (na˜o mais apenas os ”ind´ıgenas”, mas tambe´m
os missiona´rios, os administradores e outros agentes da colonizac¸a˜o), pois to-
dos fazem parte do campo de investigac¸a˜o do pesquisador. Por outro lado,
Balandier nos propo˜e uma cr´ıtica radical da noc¸a˜o de ”integrac¸a˜o”social,
que seria localiza´vel a partir da observac¸a˜o de grupos sociais ”preservados”.
Considera, pelo contra´rio, que toda sociedade e´ ”problema´tica”. Ou seja, da
mesma forma que Griaule havia, como dissemos, mostrado que o complexo
na˜o e´ um produto derivado de formas originais – que seriam, por sua vez,
simples – Balandier considera que na˜o se deve opor uma ine´rcia – para ele
absolutamente fict´ıcia – que seria perturbada de fora por um dinamismo,
caracter´ıstico apenas das nossas sociedades. Mas a comparac¸a˜o entre Gri-
aule e Balandier pa´ra evidentemente a´ı. O primeiro efetua o levantamento
de uma tradic¸a˜o ancestral, concebida por ele como quase imuta´vel, enquanto
o segundo coloca as bases de uma teoria da mudanc¸a social, que o levara´ a
empreender, no decorrer de suas obras a constituic¸a˜o de uma antropologia
da modernidade.

Essa perspecitva de um estudo da mudanc¸a social integrado ao pro´prio ob-
jeto de investigac¸a˜o do pesquisador na˜o tinha sido. na realidade, totalmente
ausente da cena antropolo´gica da metade do se´culo XX. Conve´m lembrar
que, antes mesmo da Primeira Guerra Mundial, Malinowski, renunciando a`
atitude ”romaˆntica”que era sua na e´poca de suas estadias nas ilhas Trobri-
and, envolve-se, no final de sua vida, em uma perspectiva dinaˆmica (1970).
E o mesmo se da´, na mesma e´poca e em muitos aspectos, para a reflexa˜o
de Margaret Mead, assim como para os trabalhos da antropologia cultural
que se desenvolve durante o po´s-guerra. Mas os conceitos que sa˜o enta˜o uti-
lizados (especialmente nos Estados Unidos) para dar conta da mudanc¸a, sa˜o
sempre conceitos neutros, dissimulando uma realidade colonial. Fala-se em
”contatos culturais”, ”choques culturais”, e sobretudo em ”aculturac¸a˜o”, ter-
minologia que fara´ sucesso. Balandier propo˜e a substituic¸a˜o pura e simples
deste u´ltimo termo pelo de ”situac¸a˜o colonial”, que implica a realidade de
uma relac¸a˜o social de dominac¸a˜o, quase sempre sistematicamente ocultada
na antropologia cla´ssica.

3Cf. Cl. Meillassoux (1964), E. Terray (1969), P. P Rey (1971), M. Godelier (1973)

117

A partir disso, na˜o se fala mais em primitivos ou selvagens e sim em ”povos
colonizados”, enquanto o processo da colonizac¸a˜o, e depois, da descolonizac¸a˜o
se torna parte integrante do campo que se deve estudar. Esse processo, ou
outros semelhantes, e´ que nos permitem apreender na˜o apenas as mudanc¸as
estruturais em andamento, mas as respostas a`s mudanc¸as tais como se ela-
boram, por exemplo, nas metro´poles congolesas, sob a forma de movimentos
messiaˆnicos (Balandier, 1955),4 ou tais como estou observando neste mo-
mento em Fortaleza, no Nordeste do Brasil, sob a forma de cultos sincre´ticos.

A obra de Roger Bastide aparece ao mesmo tempo muito pro´xima e muito di-
ferente da anterior. Muito diferente cm primeiro lugar, porque a abordagem
desse autor inscreve-se claramente, como vimos acima, no horizonte da an-
tropologia cultural. Mas Bastide, tanto quanto Balandier, procura incluir os
diferentes protagonistas sociais no campo de seu objeto de estudo. Ademais,
tambe´m insiste, de um lado, sobre as mudanc¸as sociais ligadas a` dinaˆmica
pro´pria de uma determinada cultura; de outro, sobre a interpenetrac¸a˜o das
civilizac¸o˜es, que provoca um movimento de transformac¸o˜es ininterruptas.

Todas essas pesquisas, mais uma vez frequ¨entemente muito diferentes uma
das outras, inscrevem-se plenamente no projeto mesmo da antropologia, que
e´ dar conta das variac¸o˜es, isto e´, notadamente das mudanc¸as. Uma de suas
maiores contribuic¸o˜es e´ de ter participado de forma considera´vel do desloca-
mento das preocupac¸o˜es tradicionais dos etno´logos, e de ter aberto novos lu-
gares de investigac¸a˜o: a cidade em especial, lugar privilegiado de observac¸a˜o
dos conflitos, das tenso˜es sociais e das reeetruturac¸o˜es em andamento (cf.
quanto a isso, ale´m dos trabalhos de Balandier citados acima, Oscar Lewis
(1963), Paul Mercier (1954), Jean-Marie Gibbal (1974) ).

Correlativamente, essa antropologia da modernidade (segundo a expressa˜o
de Balandier), que instaura uma ruptura com a tendeˆncia intelectualista da
etnologia francesa, leva o pesquisador a interessar-se diretamente pela sua
pro´pria sociedade. Finalmente, enfatizando a realidade conflitual das si-
tuac¸o˜es de dependeˆncia (econoˆmica, tecnolo´gica, militar, lingu¨´ıstica. . .), ela
na˜o opera apenas uma transformac¸a˜o do objeto de estudo, mas inicia uma
verdadeira mutac¸a˜o da pra´tica da pesquisa.

Dito isso, se essa antropologia reorienta, ”complexifica”e ”problematiza”a
antropologia cla´ssica, seria no entanto irriso´rio pensar que a abole.

4Cf. tambe´m V. Lantemari (1962). W E. Mu¨hlmann (1968), F I.awrence (I974V

118 CAPI´TULO 11. A ANTROPOLOGIA DINAˆMICA:

Parte III

A Especificidade Da Pra´tica
Antropolo´gica

119

Cap´ıtulo 12

Uma Ruptura Metodolo´gica:

a prioridade dada a` experieˆncia pessoal
do ”campo”

A abordagem antropolo´gica de base, a que todo pesquisador considera hoje
como incontorna´vel, quaisquer que sejam por outro lado suas opc¸o˜es teo´ricas,
prove´m de uma ruptura inicial em relac¸a˜o a qualquer modo de conhecimento
abstrato e especulativo, isto e´, que na˜o estaria baseado na observac¸a˜o