Aprender Antropologia
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Aprender Antropologia

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direta
dos comportamentos sociais a partir de uma relac¸a˜o humana.

Na˜o se pode, de fato, estudar os homens a` maneira do botaˆnico exami-
nando a samamba´ia ou do zoo´logo observando o crusta´ceo; so´ se pode fazeˆ-lo
comunicando-se com eles: o que supo˜e que se compartilhe sua existeˆncia de
maneira dura´vel (Griaule, Leenhardt) ou transito´ria (Le´vi-Strauss). Pois a
etnografia, que e´ fundadora da etnologia e da antropologia – a tal ponto que
alguns dos mestres de nossa disciplina (estou pensando particularmente em
Boas) consideram que toda s´ıntese e´ sempre prematura, e que alguns ainda
hoje preferem qualificar-se de ”etno´grafos”(J. Favret, 1977) – na˜o consiste
apenas em coletar, atrave´s de um me´todo estritamente indutivo, uma grande
quantidade de informac¸o˜es, mas em impregnar-se dos temas obsessionais de
uma sociedade, de seus ideais, de suas angu´stias. O etno´grafo e´ aquele que
deve ser capaz de viver nele mesmo a tendeˆncia principal da cultura que es-
tuda. Se, por exemplo, a sociedade tem preocupac¸o˜es religiosas, ele pro´prio
deve rezar com seus ho´spedes. Para poder compreender o candomble´, ”foi-me
preciso mudar completamente minhas categorias lo´gicas”, escreve Roger Bas-
tide (1978), acrescentando: ”Eu procurava uma compreensa˜o mineralo´gica e,
mais ainda, ana´loga a organizac¸o˜es vegetais, a cipo´s vivos”.

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122 CAPI´TULO 12. UMA RUPTURA METODOLO´GICA:

Assim, a etnografia e´ antes a experieˆncia de uma imersa˜o total, consistindo
em uma verdadeira aculturac¸a˜o invertida, na qual, longe de compreender
uma sociedade apenas em suas manifestac¸o˜es ”exteriores”(Durkheim), devo
interioriza´-la nas significac¸o˜es que os pro´prios indiv´ıduos atribuem a seus
comportamentos. Quanto a isso, e´ significativo que, em sua Lic¸a˜o Inaugu-
ral no Colle`ge de France, o autor da Antropologia Estrutural comece sua
exposic¸a˜o por uma ”homenagem”ao ”pensamento supersticioso”, proclame
que, ”contra o teo´rico, o observador deve ficar com a u´ltima palavra; e con-
tra o observador, o ind´ıgena”, e termine seu discurso insistindo sobre tudo o
que deve a esses ı´ndios do Brasil, de quem se considera um ”aluno”.

Essa apreensa˜o da sociedade tal como e´ percebida de dentro pelos atores
sociais com os quais mantenho uma relac¸a˜o direta (apreensa˜o esta, que na˜o
e´ de forma alguma exclusiva da evidenciac¸a˜o daquilo que lhes escapa, mas
que, pelo contra´rio, abre o caminho para essa etapa ulterior da pesquisa), e´
que distingue essencialmente a pra´tica etnolo´gica – pra´tica do campo – da
do historiador ou do socio´logo. O historiador, de fato, se procura, como o
etno´logo, dar conta o mais cientificamente poss´ıvel da alteridade a` qual e´
confrontado, nunca entra em contato direto com os homens e mulheres das
sociedades que estuda. Recolhe e analisa os testemunhos. Nunca encon-
tra testemunhas vivas. Quanto a` pra´tica da sociologia, pelo menos em suas
principais tendeˆncias cla´ssicas va´rias caracter´ısticas a distinguem da pra´tica
etnolo´gica considerada sob o aˆngulo que dete´m aqui nossa atenc¸a˜o.

1) Comporta um distanciamento em relac¸a˜o a seu objeto, e algo frio, e ”de-
sencarnado”, como diz Le´vi-Strauss a respeito do pensamento durkheimiano.

2) Diante de qualquer problema que lhe seja apresentado, parece ser capaz
de encontrar uma explicac¸a˜o e fornecer soluc¸o˜es. Objetar-se-a´ que pode, e´
claro, ser o caso do etno´logo. Com a diferenc¸a, pore´m, de que este se esforc¸a,
por razo˜es metodolo´gicas (e evidentemente afetivas), em co-colar-se o mais
perto poss´ıvel do que e´ vivido por homens de carne e osso, arriscando-se a
perder em algum momento sua identidade e a na˜o voltar totalmente ileso
dessa experieˆncia.

3) O etno´logo evita, na˜o apenas por temperamento mas tambe´m em con-
sequ¨eˆncia da especificidade do modo de conhecimento que persegue, uma
programac¸a˜o estrita de sua pesquisa, bem como a utilizac¸a˜o de protoco-
los r´ıgidos, de que a sociologia cla´ssica pensou poder tirar tantos benef´ıcios
cient´ıficos. A busca etnogra´fica, pelo contra´rio, tem algo de errante. As ten-
tativas abordadas, os erros cometidos no campo, constituem informac¸o˜es

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que o pesquisador deve levar em conta. Como tambe´m o encontro que
surge frequ¨entemente com o imprevisto, o evento que ocorre quando na˜o
espera´vamos.

Na˜o nos enganemos, pore´m, quanto a`s virtudes do campo. Da mesma forma
que o fato de ter alcanc¸ado uma cura anal´ıtica na˜o garante que voceˆ possa
um dia se tornar psicanalista, um grande nu´mero de temporadas passadas em
contato com uma sociedade que se procura compreender na˜o o transformara´
ipso jacto em um etno´logo. Trata-se pore´m de condic¸o˜es necessa´rias. Pois a
pra´tica antropolo´gica so´ pode se dar com uma descoberta etnogra´fica, isto e´,
com uma experieˆncia que comporta uma parte de aventura pessoal.

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124 CAPI´TULO 12. UMA RUPTURA METODOLO´GICA:

Cap´ıtulo 13

Uma Inversa˜o Tema´tica:

o estudo do infinitamente pequeno e do
cotidiano

A histo´ria, a sociologia cla´ssica da˜o uma prioridade quase sistema´tica a` socie-
dade global, bem como a`s formas de atividades institu´ıdas. Assim, por exem-
plo, quando estudam as associac¸o˜es volunta´rias, privilegiam nitidamente as
grandes, suscet´ıveis de influenciar diretamente a (grande) pol´ıtica: os parti-
dos, os sindicatos. . . em detrimento das associac¸o˜es de menor importaˆncia
nume´rica, como as associac¸o˜es religiosas, e sobretudo as formas menos or-
ganizadas de socialidade. Nessas condic¸o˜es, a vida cotidiana dos homens
torna-se uma espe´cie de res´ıduo irriso´rio, a na˜o ser em se tratando (para o
historiador) da vida dos ”grandes homens”. Os fenoˆmenos sociais na˜o escri-
tos, na˜o formalizados, na˜o institucionalizados (isto e´, na realidade, a maior
parte de nossa existeˆncia) sa˜o enta˜o rejeitados para o registro inconsistente
do ”folclore”.

A abordagem etnolo´gica consiste precisamente em dar uma atenc¸a˜o toda
especial a esses materiais residuais que foram durante muito tempo con-
siderados como indignos de uma atividade ta˜o nobre quanto a atividade ci-
ent´ıfica.1E´ uma abordagem claramente microssoa´olo´gica, que privilegia dessa
vez o que e´ aparentemente secunda´rio em nossos comportamentos sociais.
Disso resulta um deslocamento radical dos centros de interesse tradicionais
das cieˆncias sociais, para o que chamarei de infinitamente pequeno e cotidi-

1Trata-se evidentemente menos, no caso, da cieˆncia, do que de uma de suas vestimentas
ideolo´gicas que escolhe os fatos estudados de acordo com crite´rios e pertineˆncias estranhas
a qualquer preocupac¸a˜o cient´ıfica, e os batiza de ”histo´ricos”, a partir da representac¸a˜o
mestra do .acesso progressivo das sociedades humanas a um maior bem-estar, conscieˆncia
e raza˜o.

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126 CAPI´TULO 13. UMA INVERSA˜O TEMA´TICA:

ano. As doutrinas, as construc¸o˜es intelectuais,as produc¸o˜es do pensamento
erudito (filoso´fico, teolo´gico, cient´ıfico. . .) sa˜o, nessa perspectiva, con-
sideradas menos como iluminadoras do que como devendo ser iluminadas.
Assim, a atenc¸a˜o do pesquisador passa a interessar-se para as condutas mais
habituais e, em apareˆncia, mais fu´teis: os gestos,as expresso˜es corporais, os
ha´bitos alimentares, e higiene, a percepc¸a˜o dos ru´ıdos da cidade e dos ru´ıdos
dos campos. . .

Embora o objeto emp´ırico da etnologia na˜o se confunda com o campo aberto
pela colonizac¸a˜o, as preocupac¸o˜es dos etno´logos me parecem indefectivelni-
ente ligadas a um certo nu´mero de crite´rios, que permitem definir as socie-
dades nas quais