Aprender Antropologia
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Aprender Antropologia

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nossa disciplina nasceu: grupos de pequena dimensa˜o, nos
quais as relac¸o˜es (exclusiva ou essencialmente orais) sa˜o personalizadas no
extremo. 0 problema que se veˆ aqui colocado e´ evidentemente o seguinte:
como fara´ o etno´logo quando se ver confrontado a sociedades gigantescas,
nas quais a comunicac¸a˜o aparece como cada vez mais anoˆnima? Resposta:
ele vai em primeiro lugar procurar, dentro dessas sociedades, se na˜o encon-
tra objetos emp´ıricos capazes de lembrar-lhe os bons tempos da etnologia
cla´ssica. E, e´ um fato, voltar-se-a´ em primeiro lugar para a comunidade
camponesa (e na˜o para a cidade industrial), para a famı´lia tradicional (e na˜o
para a famı´lia desmembrada), para as pequenas confrarias religiosas (e na˜o
para as grandes organizac¸o˜es sindicais), e, em seguida, para as populac¸o˜es
desenraizadas (e na˜o para a burguesia decadente). Em suma, seus objetos
de predilec¸a˜o sera˜o os grupos sociais que se situam mais no exterior da soci-
edade global do observador: os que qualificamos de marginais: camponeses
breto˜es, feiticeiros do Berry, adeptos de seitas religiosas. . 2

Dito isso, conve´m distinguir (mas na˜o dissociar) as questo˜es de fato e as
de direito. Se, de fato, o etno´logo tende a estudar as formas de comporta-
mento e sociabilidade mais excentradas em relac¸a˜o a` ideologia dominante da
sociedade global a` qual pertence, na˜o ha´, de direito, propriamente nenhum
territo´rio da etnologia. E as diferenc¸as entre os modos de vida e de pensa-
mento sa˜o ta˜o localiza´veis nas nossas sociedades (constitu´ıdas de mu´ltiplos
subgrupos extremamente diversificados, e nos quais va´rias ideologias esta˜o
em concorreˆncia) quanto nas sociedades qualificadas de ”tradicionais”. ”Se
o etno´logo”, como escreve Le´vi-Strauss (1958), ”interessa-se sobretudo por
aquilo que na˜o e´ escrito”(e tambe´m, acrescentaremos, por aquilo que na˜o

2Essa predilec¸a˜o pelos abandonados (”laisse´s-pour-compte”) (ou adversa´rios) do pro-
gresso – o estudo dos indigentes sucedendo ao dos ind´ıgenas – parece claramente na a´rea
na˜o exo´tica da antropologia americana, que da´ uma atenc¸a˜o toda especial aos guetos
negros ou portorriquenhos dos Estados Unidos.

Andre Sobrinho
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e´ formalizado e institucionalizado), ”na˜o e´ tanto porque os povos que es-
tuda sa˜o incapazes de escrever, mas porque aquilo que o interesse e´ diferente
de tudo que os homens pensam habitualmente em fixar na pedra e no papel”.

Conve´m, portanto, deixar de colocar o problema das relac¸o˜es da sociologia e
da etnologia sobre as bases emp´ıricas das ”sociedades industriais”e das ”so-
ciedades tradicionais”(mesmo incluindo-se os lados ”tradicionais”existentes
dentro das primeiras), pois a etnologia na˜o tem objeto que lhe seja pro´prio (e
que poderia ser-lhe ipso jacto designado pelo cara´ter ”primitivo”ou ”tradicio-
nal”das sociedades estudadas), e sim uma abordagem, um enfoque particular,
um olhar, ao meu ver, absolutamente u´nico no campo das cieˆncias humanas,
e pass´ıvel de ser aplicado a toda realidade social.

O que me parece importante sublinhar, finalmente, e´ que grande parte da
renovac¸a˜o das cieˆncias humanas contemporaˆneas deve-se incontestavelmente
a sua abertura para nossa disciplina, que as influenciou (direta ou indireta-
mente) designando-lhes novos terrenos de investigac¸a˜o e convencendo-as de
que na˜o deve haver, na pra´tica cient´ıfica, objeto tabu. Assim, as cieˆncias das
religio˜es na˜o consideram mais o cristianismo ”ao n´ıvel das doutrinas e dos
doutores, e sim das multido˜es anoˆnimas”, como escreve Ean Delumeau. A ar-
quitetura comec¸a a perceber que o estudo dos monumentos ”de estilo”forma
apenas uma parte ı´nfima do ha´bitat, e a reabilitar todo esse ”recalcado”da
cultura material que e´, no caso, o ha´bitat popular. Um deslocamento abso-
lutamente ana´logo pode ser encontrado em qualquer a´rea: ”a arqueologia,
por exemplo, esta´ passando do estudo dos pala´cios, templos e tu´mulos impe-
riais para o conjunto do meio ambiente constru´ıdo, inclusive o mais humilde,
sendo este a expressa˜o de uma cultura que se procura compreender nos seus
mı´nimos detalhes.

Mas e´ sobretudo na histo´ria, ao meu ver, que assistimos a um deslocamento
radical do campo da curiosidade. Trata-se de ir do pu´blico para o privado,
do Estado para o parentesco, dos ”grandes homens”para os atores anoˆnimos,
e dos grandes eventos para a vida cotidiana. Sob a influeˆncia da escola dos
Annales, a histo´ria contemporaˆnea, pelo menos na Franc¸a, tornou-se uma
histo´ria antropolo´gica, isto e´, uma histo´ria das mentalidades e sensibilida-
des, uma histo´ria da cotidianidade material.

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128 CAPI´TULO 13. UMA INVERSA˜O TEMA´TICA:

Cap´ıtulo 14

Uma Exigeˆncia:

o estudo da totalidade

Uma das caracter´ısticas da abordagem antropolo´gica e´ que se esforc¸a em
levar tudo em conta, isto e´, de estar atenta para que nada lhe tenha es-
capado. No campo, tudo deve ser observado, anotado, vivido, mesmo que
na˜o diga respeito diretamente ao assunto que pretendemos estudar. De um
lado, o menor fenoˆmeno deve ser apreendido na multiplicidade de suas di-
menso˜es (todo comportamento humano tem um aspecto econoˆmico, pol´ıtico,
psicolo´gico, social, cultural. . .). De outro, so´ adquire significac¸a˜o antro-
polo´gica sendo relacionado a` sociedade como um todo na qual se inscreve e
dentro da qual constitui um sistema complexo. Como escreve Mauss (1960),
”o homem e´ indivis´ıvel”e ”o estudo do concreto”e´ ”o estudo do completo”.

E´ a raza˜o pela qual toda abordagem que consistir em isolar experimental-
mente objetos na˜o cabe no modo de conhecimento pro´prio da antropologia,
pois o que esta pretende estudar e´ o pro´prio contexto no qual se situam esses
objetos, e´ a rede densa das interac¸o˜es que estas constituem com a totalidade
social em movimento.

A especializac¸a˜o cient´ıfica e´ mais problema´tica para o antropo´logo do que
para qualquer outro pesquisador em cieˆncias humanas. O antropo´logo na˜o
pode, de fato, se tornar um especialista, isto e´, um perito de tal ou tal a´rea
particular (econoˆmica, demogra´fica, jur´ıdica. . .) sem correr o risco de abolir
o que e´ a base da pro´pria especificidade de sua pra´tica. As cieˆncias pol´ıticas
se da˜o por objeto de investigac¸a˜o um certo aspecto do real: as instituic¸o˜es
que regem as relac¸o˜es do poder; as cieˆncias econoˆmicas, um outro: os siste-
mas de produc¸a˜o e troca de bens; as cieˆncias jur´ıdicas, o direito; as cieˆncias

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130 CAPI´TULO 14. UMA EXIGEˆNCIA:

psicolo´gicas, os processos cognitivos e afetivos; as cieˆncias religiosas, os sis-
temas de crenc¸a. . . Mas todos estes sa˜o para o antropo´logo fenoˆmenos
parciais, isto e´, abstrac¸o˜es em relac¸a˜o ao enfoque na˜o parcelar que orienta
sua abordagem. O parcelamento disciplinar comporta, de fato, no horizonte
cient´ıfico contemporaˆneo, um risco essencial: o de um desmantelamento do
homem em produtor, consumidor, cidada˜o, parente. . . Assim, por exemplo,
a pesquisa sociolo´gica esta´ cada vez mais especializada: estuda fenoˆmenos
particulares: a delinqu¨eˆncia, a criminalidade, o divo´rcio, o alcoolismo. . . e
o pesquisador tende a se tornar o especialista de um campo exclusivo: soci-
ologia dos lazeres, do esporte, das condutas suicidas. . .

A pro´pria antropologia, e´ claro, e´ frequ¨entemente levada a participar desse
processo que pode causar uma verdadeira mutilac¸a˜o do ser humano, de que se
procura, em um segundo tempo (a pluridisciplinaridade), costurar de novo os
retalhos recortados. Mas permanece, a meu ver, dentro do espac¸o da cultura
cient´ıfica (e na˜o da cultura humanista, como pode ser a cultura filoso´fica ou
litera´ria), um lugar privilegiado a partir do qual ainda se pode perceber que
toda pra´tica hiperespecializada, atrave´s da fragmentac¸a˜o