Aprender Antropologia
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antropo´logos
britaˆnicos, deixando de lado o estudo das diferenc¸as entre as civilizac¸o˜es, na˜o e´ de an-
tropo´logos, e sim de socio´logos.

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Se o projeto da antropologia cultural e´, de fato, o de confrontar os com-
portamentos humanos os mais diversificados, de uma a´rea geogra´fica para
outra – na˜o mais por uma ”periodizac¸a˜o”no tempo, como na e´poca de Mor-
gan, mas, preferencialmente, por uma extensa˜o no espac¸o –, o postulado
da irredutibilidade de cada cultura termina impedindo o pro´prio empreen-
dimento da comparac¸a˜o. Detenhamo-nos sobre esse ponto que e´, ao meu
ver, essencial. Claro, sa˜o as variac¸o˜es que interessam em primeira instaˆncia
ao antropo´logo: mas, para serem estudadas antropologicamente, e na˜o mais
apenas etnograficamente, essas variac¸o˜es devem ser relacionadas a um certo
nu´mero de invariantes, pois e´ precisamente o estabelecimento dessa relac¸a˜o
que fundamenta a pro´pria abordagem da comparac¸a˜o, ta˜o caracter´ıstica de
nossa disciplina.

O empreendimento gigantesco dos Human Relations Area Files, elaborado
por Murdock e seus colaboradores a partir de 1937 e´, a esse respeito, repre-
sentativo. Visa estudar o leque mais completo poss´ıvel dos comportamentos
e instituic¸o˜es humanos, a partir de correlac¸o˜es entre um grande nu´mero de
varia´veis (das te´cnicas materiais a`s representac¸o˜es religiosas) em 75 culturas
diferentes. Mas esse programa, devido a sua pro´pria preocupac¸a˜o de exaus-
tividade, coloca, na realidade, mais problemas do que soluc¸o˜es.

Esses exemplos mostram que, entre a tentac¸a˜o de um comparatismo sis-
tema´tico (como no evolucionismo) e o ceticismo geral dos que consideram
prematuro, quando na˜o imposs´ıvel, qualquer empreendimento de comparac¸a˜o
(e´ a posic¸a˜o de Boas), o caminho e´ dos mais estreitos. O pro´prio empreendi-
mento que orienta a antropologia supo˜e a tomada em considerac¸a˜o de uma
humanidade ”plural”. Mas como dar conta de fenoˆmenos que na˜o perten-
cem a`s mesmas sociedades e na˜o se inscrevem no mesmo contexto. Como
conceber ao mesmo tempo, sem arriscar-se a ultrapassar os limites de uma
abordagem que se quer cient´ıfica, as instituic¸o˜es pol´ıticas dos habitantes da
Patagoˆnia e as dos groen-landeses, os ritos religiosos dos bantos e os dos
ı´ndios da Amazoˆnia?

Lembremos em primeiro lugar que a ana´lise comparativa na˜o e´ a primeira
abordagem do antropo´logo. Este deve passar pelo caminho lento e traba-
lhoso que conduz da coleta e impregnac¸a˜o etnogra´fica a` compreensa˜o da
lo´gica pro´pria da sociedade estudada (etnologia). Em seguida apenas, po-
dera´ interrogar-se sobre a lo´gica das variac¸o˜es da cultura (antropologia). Vale
dizer que o pesquisador deve ter uma prudeˆncia considera´vel. Antes de se-
rem confrontados uns aos outros, os materiais recolhidos devem ser meti-

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136 CAPI´TULO 15. UMA ABORDAGEM:

culosamente criticados. Pois, se comec¸armos comparando os costumes de
tal populac¸a˜o africana com os de tal outra europe´ia, chegaremos apenas a
evidenciar algumas analogias. Mas enta˜o, como diz Kroeber, as ”universali-
dades”encontradas poderiam muito bem ser apenas a projec¸a˜o de ”categorias
lo´gicas”pro´prias somente da sociedade do observador. Assim o evolucionismo
comparava o que via (ou, na maior parte das vezes, o que outros se encarre-
gavam de ver por procurac¸a˜o) nas sociedades ”primitivas”, com o que sabia
(ou melhor, supunha saber) de nossa pro´pria sociedade. Disso decorrem as
analogias que na˜o faltaram entre os abor´ıgines australianos e os habitantes
da Europa na Idade da Pedra.3

Se a antropologia contemporaˆnea e´ ta˜o comparativa quanto no passado, na˜o
deve mais nada a` abordagem do comparatismo dos primeiros etno´logos. Na˜o
utiliza mais os mesmos me´todos e na˜o tem mais o mesmo objeto. O que se
compara hoje sa˜o costumes, comportamentos, instituic¸o˜es, na˜o mais isola-
dos de seus contextos, e sim fazendo parte destes; sa˜o sistemas de relac¸a˜o.
A partir de uma descric¸a˜o (etnografia), e depois, de uma ana´lise (etnolo-
gia) de tal instituic¸a˜o, tal costume, tal comportamento, procura-se descobrir
progressivamente o que Le´vi-Strauss chama de ”estrutura inconsciente”, que
pode ser encontrado na forma de um arranjo diferente em uma outra insti-
tuic¸a˜o, um outro costume, um outro comportamento. Ou seja, os termos da
comparac¸a˜o na˜o podem ser a realidade dos fatos emp´ıricos em si,4 mas siste-
mas de relac¸o˜es que o pesquisador constro´i, enquanto hipo´teses operato´rias,
a partir destes fatos. Em suma as diferenc¸as nunca sa˜o dadas, sa˜o recolhidas
pelo etno´logo, confrontadas umas com as outras, e aquilo que e´ finalmente
comparado e´ o sistema das diferenc¸as, isto e´, dos conjuntos estruturados. 5

3”Se postulamos apressadamente a homogeneidade do campo social e nos confortamos
na ilusa˜o de que este e´ imediatamente compara´vel era todos os seus aspectos e n´ıveis,
deixaremos escapar o essencial. Desconheceremos que as coordenadas necessa´rias para
definir dois fenoˆmenos aparentemente muito semelhantes, na˜o sa˜o sempre as mesmas,
nem esta˜o sempre em mesmo nu´mero; e pensaremos estar formulando as leis da natureza
social, quando estaremos nos limitando a descrever propriedades superficiais ou a enunciar
tautologias”, escreve Le´vi-Strauss (1973).

4O etno´logo contemporaˆneo e´ infinitamente mais modesto que seus predecessores. Ele
na˜o procura atingir a natureza da arte, da religia˜o, do parentesco, nem em geral e. nem
mesmo, em particular.

5”So´ e´ estruturado um arranjo que preencha duas condic¸o˜es: e´ um sistema regido
por uma coesa˜o interna; e essa coesa˜o – que e´ impercept´ıvel a` observac¸a˜o de um sistema
isolado – se revela no estudo das transformac¸o˜es, grac¸as a`s quais descobrimos propriedades
similares em sistemas aparentemente diferentes”, escreve Le´vi-Strauss (1973).

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Cap´ıtulo 16

As Condic¸o˜es De Produc¸a˜o
Social Do Discurso
Antropolo´gico

A antropologia nunca existe em estado puro. Seria ingeˆnuo, sobretudo da
parte de um antropo´logo, isola´-la de seu pro´prio contexto. Seria paradoxal,
sobretudo para uma pra´tica da qual um dos objetivos e´ situar os compor-
tamentos dos que ela estuda em uma cultura, classe social, Estado, nac¸a˜o,
ou momento da histo´ria deixar de aplicar a si pro´prio o mesmo tratamento.
Como escreve Le´vi-Strauss, ”se a sociedade esta´ na antropologia, a antro-
pologia por sua vez esta´ na sociedade”(1973). Seu atestado de nascimento
inscreve-se em uma determinada e´poca e cultura. Em seguida, transforma-se,
em contato com as grandes mudanc¸as sociais que se produzem, e se torna, um
se´culo depois, praticamente irreconhec´ıvel. Conve´m, portanto, interrogar-se
agora, na˜o mais sobre o saber etnolo´gico em si, que nunca e´ um produto
acabado, mas sobre suas condic¸o˜es de produc¸a˜o; pois o estudo dos textos
etnolo´gicos nos informa tanto sobre a sociedade do observador quanto sobre
a do observado.

Retomemos rapidamente aqui, dentro dessa nova perspectiva, alguns exem-
plos estudados anteriormente. O que interessa a antropologia filoso´fica do
se´culo XVIII nas sociedades da ”natureza”, e´ que estas podem dar ao Oci-
dente lic¸o˜es sobre a natureza das sociedades, e permitir fundar um novo ”con-
trato social”, A antropologia evolucionista que lhe sucede esta´ estreitamente
ligada a`s pra´ticas coloniais conquistadoras da e´poca vitoriana. Sustentada
pelo ideal de uma missa˜o civilizadora (a certeza que se tem de si), consiste
na racionalizac¸a˜o do expansionismo colonial. O funcionalismo, quanto a si,
empresta seu vocabula´rio a`s cieˆncias da natureza que lhes parecem a garantia

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