Aprender Antropologia
172 pág.

Aprender Antropologia

Disciplina:Antropologia4.395 materiais43.908 seguidores
Pré-visualização46 páginas
138CAPI´TULO 16. AS CONDIC¸O˜ES DE PRODUC¸A˜O SOCIAL DO DISCURSO ANTROPOLO´GICO

da cientificidade. Mas o objeto da antropologia na˜o leva em conta as pra´ticas
coloniais, ao contra´rio do evolucionismo, que as justificava, e de outras for-
mas de antropologia que as combatem. Um u´ltimo exemplo nos sera´ dado
pela antropologia americana em sua tendeˆncia culturalista. O ”relativismo
cultural”, termo forjado por Herskovitz, e´ qualificado por este de ”resultado
das cieˆncias humanas”. Mas esta´, na realidade, ligado a` crise histo´rica do
pensamento teo´rico do Ocidente confrontado com a alteridade. Ale´m disso, o
cara´ter nitidamente mais anticolonialista dessa antropologia, comparando-a
com a antropologia britaˆnica ou francesa, explica-se notadamente pelo fato de
que os Estados Unidos nunca tiveram coloˆnias (mas apenas minorias e´tnicas).
Seria conveniente, afinal, perguntar-se por que essa preocupac¸a˜o pelas ”co-
lorac¸o˜es nacionais”de nossos comportamentos, em detrimento do funciona-
mento de nossas instituic¸o˜es, foi (e ainda e´) ta˜o forte nos Estados Unidos,
essa sociedade formada de uma pluralidade de culturas.

Esses exemplos bastam para nos convencer de que a antropologia e´ o es-
tudo do social em condic¸o˜es histo´ricas e culturais determinadas. A pro´pria
observac¸a˜o nunca e´ efetuada em qualquer momento e por qualquer pessoa.
A distaˆncia ou participac¸a˜o etnogra´fica maior ou menor esta´ eminentemente
ligada ao contexto social no qual se exerce a pra´tica em questa˜o, que e´ neces-
sariamente a de um pesquisador pertencendo a uma e´poca e a uma sociedade.
Quando pensa estar fazendo aparecer a racionalidade imanente ao grupo que
estuda, o etno´logo pode esquecer (frequ¨entemente de boa-fe´) as condic¸o˜es–
sempre particulares – de produc¸a˜o de seu discurso. Mas estas nunca sa˜o
histo´rica, pol´ıtica, cultural, e socialmente neutras; expressam diferentes for-
mas da cultura ocidental quando esta encontra os outros de uma maneira
teo´rica.

Isso posto, seria irriso´rio reduzir a antropologia apenas a`s condic¸o˜es de seu
surgimento e desenvolvimento. Ale´m disso, se se tem raza˜o em insistir sobre
o fato de que o pesquisador deve considerar o lugar so´cio-histo´rico a partir do
qual fala, como parte integrante de seu objeto de estudo, seria erroˆneo con-
cluir – como faz, por exemplo, Foucault – que, em consequ¨eˆncia das distorc¸o˜es
perceptivas atribu´ıdas a` nossa relac¸a˜o com o social, ”as cieˆncias humanas
sa˜o falsas Cieˆncias, na˜o sa˜o cieˆncias”. Nosso pertencer e nossa implicac¸a˜o
social, longe de serem um obsta´culo ao conhecimento cient´ıfico, podem pelo
contra´rio, a meu ver, ser considerados como um instrumento. Permitem colo-
car as questo˜es que na˜o se colocavam em outra e´poca, variar as perspectivas,
estudar objetos novos.

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

Cap´ıtulo 17

O Observador, Parte Integrante
Do Objeto De Estudo:

Quando o antropo´logo pretende uma neutralidade absoluta, pensa ter reco-
lhido fatos ”objetivos”, elimina dos resultados de sua pesquisa tudo o que
contribuiu na sua realizac¸a˜o e apaga cuidadosamente as marcas de sua im-
plicac¸a˜o pessoal no objeto de seu estudo, e´ que ele corre o maior risco de
afastar-se do tipo de objetividade (necessariamente aproximada) e do modo
de conhecimento espec´ıfico de sua disciplina.

Essa auto-suficieˆncia do pesquisador, convencido de ser ”objetivo”ao libertar-
se definitivamente de qualquer problema´tica do sujeito, e´ sempre, a meu ver,
sintoma´tica da insuficieˆncia de sua pra´tica. Esquece (na realidade, de uma
forma estrate´gica e reivindicada) do princ´ıpio de totalidade tal como foi ex-
posto acima; pois o estudo da totalidade de um fenoˆmeno social supo˜e a
integrac¸a˜o do observador no pro´prio campo de observac¸a˜o.

Se e´ poss´ıvel, e ate´ necessa´rio, distinguir aquele que observa daquele que
e´ observado, parece-me, em compensac¸a˜o, impensa´vel dissocia´-los. Nunca
somos testemunhas objetivas observando objetos, e sim sujeitos observando
outros sujeitos. Ou seja, nunca observamos os comportamentos de um grupo
tais como se dariam se na˜o estive´ssemos ou se os sujeitos da observac¸a˜o fos-
sem outros. Ale´m disso, se o etno´grafo perturba determinada situac¸a˜o, e ate´
cria uma situac¸a˜o nova, devido a sua presenc¸a, e´ por sua vez eminentemente
perturbado por essa situac¸a˜o. Aquilo que o pesquisador vive, em sua relac¸a˜o
com seus interlocutores (o que reprime ou sublima, o que detesta ou gosta),
e´ parte integrante de sua pesquisa. Assim uma verdadeira antropologia ci-
ent´ıfica deve sempre colocar o problema das motivac¸o˜es extracient´ıficas do
observador e da natureza da interac¸a˜o em jogo. Pois a antropologia e´ tambe´m

139

Andre Sobrinho
Underline

Andre Sobrinho
Underline

140CAPI´TULO 17. O OBSERVADOR, PARTE INTEGRANTE DO OBJETO DE ESTUDO:

a cieˆncia dos observadores capazes de observarem a si pro´prios, e visando a
que uma situac¸a˜o de interac¸a˜o (sempre particular) se torne o mais consciente
poss´ıvel, isso e´ realmente o mı´nimo que se possa exigir do antropo´logo.

Alguns anos atra´s, estava realizando, a pedido do CNRS, uma pesquisa no sul
da Tun´ısia sobre um fenoˆmeno chamado hajba (que significa em a´rabe: claus-
trac¸a˜o, trancamento) que se inscreve no quadro da preparac¸a˜o das jovens ao
casamento. No decorrer de um per´ıodo variando de algumas semanas a alguns
meses, a noiva permanece rigorosamente separada do mundo exterior, e par-
ticularmente do universo masculino. Passa por um tratamento este´tico cujo
objetivo e´ deixar sua pele o mais branca poss´ıvel, e por um regime alimen-
tar que deve engorda´-la. Essa pra´tica de superalimentac¸a˜o (a` -base de ovos,
ac¸u´car, torradas com o´leo), aplicada a jovens djerbianas que sera˜o entregues
a maridos que na˜o conhecem, de in´ıcio repugnava-me. Ora, longe de eliminar
a natureza afetiva (mas, com certeza, ligada a` cultura a` qual pertenc¸o) de
minha reac¸a˜o, tive, pelo contra´rio, de leva´-la em conta, de tentar elucida´-la,
a fim de controlar, na medida do poss´ıvel, as consequ¨eˆncias, perturbadoras
tanto para mim quanto para meus interlocutores que, como todos os interlo-
cutores, nunca se enganam por muito tempo sobre os sentimentos pelos quais
passa o etno´logo. Da mesma forma, o que me marcou muito na ocasia˜o de
minha primeira missa˜o etnolo´gica em pa´ıs bau´le foi o respeito pelos velhos,
o espac¸o ocupado pelos esp´ıritos, e a facilidade das relac¸o˜es sexuais com as
adolescentes. Se isso me surpreendeu, e´ porque essas condutas questionavam
a minha pro´pria cultura; pois era de fato esta que me questionava em alguns
aspectos da cultura dos bau´les e me questiona quando observo hoje, no Bra-
sil, a aptida˜o considera´vel que teˆm os homens e as mulheres para entrar em
transe, ou, mais precisamente, serem ”possu´ıdos”pelos esp´ıritos ancestrais –
ı´ndios, crista˜os, africanos – do grupo. E´ prova´vel que o gato veja no cachorro
uma espe´cie particular de gato, enquanto o cachorro, por sua vez, veja em
seu dono uma outra rac¸a de cachorro. Se ambos fazem, respectivamente, ca-
nicentrismo e cinomorfismo, importa muito que o etno´logo (isso faz parte da
aprendizagem de sua profissa˜o, e o cara´ter cient´ıfico dos resultados de suas
pesquisas depende disso) controle as armadilhas, frequ¨entemente inconscien-
tes, da projec¸a˜o e do etnocentrismo.

Conve´m aqui interrogar-se sobre as razo˜es que levam a reprimir a subje-
tividade do pesquisador, como se esta na˜o fosse parte da pesquisa. Por que
esses relato´rios anoˆnimos, redigidos por ”credores”, e que ignoram a relac¸a˜o
dos materiais colhidos com a pessoa do coletor ja´ que, se ele tiver talento,
pode sempre escrever suas confisso˜es? Como e´ poss´ıvel que tudo o que faz a
originalidade da situac¸a˜o etnolo´gica – que nunca consiste na observac¸a˜o de

Andre Sobrinho
Underline

141

insetos, e sim numa relac¸a˜o humana envolvendo necessariamente afetividade