Aprender Antropologia
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Aprender Antropologia

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ambos os casos, o
long´ınquo deixa lugar ao pro´ximo. A` medida que o universo conhecido vai sendo explorado,
volta-se para o pro´ximo e, como em Madame Bovary, explora-se o cotidiano.

Andre Sobrinho
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148 CAPI´TULO 18. ANTROPOLOGIA E LITERATURA:

Ma´gica, de Thomas Mann, os pensiona´rios do Berghof na˜o deteˆm a verdade
dos habitantes da ”plan´ıcie”, e Hans Castorp na˜o e´ a medida de Settembrini.
O mesmo se da´ para Zeno em relac¸a˜o a Augusta, na Conscieˆncia de Zeno,
de Svevo, para Leopold Blum em relac¸a˜o a` ”gente de Dublin”, em Ulisses,
de Joyce, para o narrador de Em busca do tempo perdido em relac¸a˜o aos
Verdurin, etc.3

Ora, essa abordagem e´ ana´loga (o que na˜o significa de modo algum ideˆntica)
a` da etnologia. Pode ser apreendida da forma mais pro´xima poss´ıvel nos
trabalhos de um etno´logo como Oscar Lewis. Em Os Filhos de Sa´nchez, par-
ticularmente, na˜o somos mais confrontados com os mono´logos paralelos do
observador do observado, alternadamente considerados como os u´nicos po´los
da observac¸a˜o, mas aos olhares cruzados (convergentes, divergentes) de uma
mesma famı´lia mexicana.

Em suma, esses exemplos bastam, me parece, para fazer-nos compreender
que no romance tanto quanto na etnologia, renuncia-se a` ide´ia de que a rea-
lidade possa ser apreendida em si, mas, mais modestamente, sempre a partir
de um certo ponto de vista. Em ambos os casos, para o etno´logo, como para
o romancista, coloca-se o problema dos limites que se deve impor ao olhar.
Ou seja, o ponto de vista esforc¸a-se em ser total, sem nunca ser absoluto.
Essa abordagem, deliberadamente perspectivista, e´ portanto claramente an-
titotalita´ria.4

3E mesmo quando o romance esta´ totalmente organizado em torno de uma personagem
u´nica, a partir da revoluc¸a˜o romanesca da de´cada de 1920, revoluc¸a˜o esta que, e´ claro, na˜o
veio de repente, mas foi gradualmente preparada por escritores como Stendhal, Flaubert,
fames, essa personagem, profundamente dividida em relac¸a˜o a si pro´pria, reintroduz no
espac¸o romanesco a multiplicidade dos pontos de vista.

4As relac¸o˜es (no caso convergentes) que acabamos de esboc¸ar entre o romance e a
antropologia exigiriam uma afinac¸a˜o. De que romance se trata? E de que antropologia?
Parece-nos por exemplo que a abordagem que visa a` investigac¸a˜o mais completa poss´ıvel
de um grupo humano atrave´s da documentac¸a˜o e da observac¸a˜o distanciada da ”realidade
social”, e´ comum a`s correntes positivistas das cieˆncias humanas e naturalistas do romance.
Da mesma forma, a perspectiva de Balzac, que privilegia o cara´ter eminentemente social e
ate´ so´cio-econoˆmico das situac¸o˜es (descritas em sua exterioridade) e das personagens (que,
na obra de Balzac, con fundem-se com sua func¸a˜o e seu estatuto social), corresponde a`
tendeˆncia sociologizante da antropologia. A relac¸a˜o entre o afetivo e o social inverte-se
quando passamos para o romance psicolo´gico ou para a antropologia psicanal´ıtica.

Andre Sobrinho
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Cap´ıtulo 19

As Tenso˜es Constitutivas Da
Pra´tica Antropolo´gica:

Encontramos no conjunto do campo antropolo´gico um certo nu´mero de tenso˜es
importantes, opondo a universalidade e as diferenc¸as, a compreensa˜o ”por
dentro”e a compreensa˜o ”por fora”, o ponto de vista do mesmo e o ponto
de vista dos outros. . . Mas essas tenso˜es sa˜o verdadeiramente constitutivas
da pro´pria pra´tica da antropologia. Esta u´ltima so´ comec¸a a existir a partir
do momento em que o pesquisador se entrega a um confronto entre esses
diversos termos, vive dentro de si essas tenso˜es, frequ¨entemente poleˆmicas,
esforc¸a-se em pensa´-las e dar conta delas. Correla-tivamente, parece-me que
a antropologia tem todas as chances de engajar-se em um impasse, em um
desvio em relac¸a˜o ao modo de conhecimento que persegue, toda vez que um
dos po´los em questa˜o domina o outro.

19.1 O Dentro E O Fora

Uma pulsac¸a˜o bastante espec´ıfica ritma o trabalho de todo etno´logo. O pri-
meiro tempo e´ o da aprendizagem atrave´s de um conv´ıvio ass´ıduo e de uma
verdadeira impregnac¸a˜o por seu objeto. Trata-se de interpretar a sociedade
estudada utilizando os modos de pensamento dessa sociedade, deixando-se,
por assim dizer, naturalizar por ela. O que na˜o tem realmente nada de um
exerc´ıcio intelectual, pois, como diz Georges Balandier a respeito da A´frica,
corre-se o risco de voltar ”perdido para o Ocidente”. A abordagem de um
fean Rouch, de um Michel Leiris (que escrevia em seu dia´rio de missa˜o: ”eu
preferiria ser possu´ıdo a estudar os possu´ıdos”), ou de um Roger Bastide,
parece-me particularmente representativa dessa atitude. Roger Bastide es-
creve, por exemplo:

149

150CAPI´TULO 19. AS TENSO˜ES CONSTITUTIVAS DA PRA´TICA ANTROPOLO´GICA:

”Eu abordava o candomble´ com uma mentalidade moldada por treˆs se´culos
de cartesianismo. Devia deixar-me penetrar por uma cultura que na˜o era
minha. Devia portanto converter-me a uma outra mentalidade A pesquisa
cient´ıfica exigia de mim a passagem pre´via pelo ritual de iniciac¸a˜o”.

Roger Bastide e´ enta˜o entronizado no candomble´, onde lhe revelam que e´
filho de Xangoˆ, deus do trova˜o dos Iorubas, e onde, ate´ a sua morte, ocupara´
um lugar na hierarquia sacerdotal.

A nosso ver, o pesquisador so´ ultrapassara´ esse primeiro esta´gio que e´ o
do encontro, da experieˆncia, e por que na˜o? da conversa˜o (pelo menos meto-
dolo´gica), e que podemos ilustrar com os trabalhos dos fundadores de nossa
disciplina, comec¸ando por Leenhardt e Griaule – se o tiver pelo menos en-
contrado e atravessado.

Mas passado o tempo da impregnac¸a˜o, chega inelutavelmente para o etno´logo
o da distaˆncia, pois e´ pro´prio da linguagem, e particularmente da linguagem
cient´ıfica, atuar no sentido de uma separac¸a˜o. E sobretudo, a inteligibilidade
procurada na˜o consiste apenas em compreender uma sociedade da forma
como seus atores sociais a vivem, mas tambe´m, mas sobretudo, em entender
o que lhes escapa e so´ pode lhes escapar. De fato, o que vivem os membros
de uma determinada sociedade na˜o poderia ser compreendido situando-se
apenas dentro dessa sociedade. O olhar distanciado, exterior, diferente, do
estranho, e´ inclusive a condic¸a˜o que torna poss´ıvel a compreensa˜o das lo´gicas
que escapam aos atores sociais. Ao familiarizar-se com o que de in´ıcio parecia
estranho, o etno´logo vai tornar estranho para esses atores o que lhes parecia
familiar.

Conve´m portanto insistir aqui sobre a opacidade das estrate´gias sociais.
Parece-nos de fato, que, de um determinado ponto de vista, os camponeses de
Cevennes sa˜o os pior situados para compreender os camponeses de Cevennes,
e os professores de filosofia para compreender os professores de filosofia, ou
ainda, os franceses para compreender os franceses;1 pois as significac¸o˜es pro-
duzidas na˜o residem apenas naquilo que uma cultura ou microcultura afirma,
mas naquilo que na˜o diz. Nenhuma sociedade e´ de fato perfeitamente trans-
parente a si mesma, nenhuma escapa de suas armadilhas conscientes. Cada
grupo humano, como tambe´m cada indiv´ıduo, fornece a si pro´prio e aos ou-

1Cf., sobre esse ponto, os trabalhos de L. Wylie (1968), que e´ americano, ou de Zeldin
C983). que e´ ingleˆs

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Highlight

19.1. O DENTRO E O FORA 151

tros racionalizac¸o˜es de suas condutas, que consistem em modelos conscientes
que o etno´logo na˜o deve cortejar e adaptar, nem contornar e exorcisar, e sim
analisar.

Assim, o risco do primeiro momento (habitualmente designado pela expressa˜o
”compreensa˜o por dentro”) e´, seja uma participac¸a˜o cega e uma ”empa-
tia”que na˜o se consegue mais controlar, seja a retranscric¸a˜o, em termos eru-
ditos e na forma de uma redundaˆncia, do que foi expresso, por exemplo,
pelo camponeˆs ou pelo opera´rio em termos populares. Alguns etno´logos teˆm
tendeˆncia a supervalorizar o discurso do outro, isto e´, a abandonar um mo-
delo de