Aprender Antropologia
172 pág.

Aprender Antropologia

Disciplina:Antropologia4.395 materiais43.908 seguidores
Pré-visualização46 páginas
a sabedoria das sociedades tradicionais
a` violeˆncia frene´tica da sociedade racionalista, da qual a antropologia seria
cu´mplice. Finalmente, considera-se que o que e´ separado pela barreira das
culturas na˜o deve ser reunido, nem mesmo pelo pensamento teo´rico. Disso
decorre a oposic¸a˜o aos pro´prios conceitos de homens e de antropologia, aos
quais se prefere o de povo (no plural) e de etnologia.

Procuremos analisar as implicac¸o˜es de tal atitude.

1) Em primeiro lugar, a inquietude que demonstram esses autores com res-
peito a uma homogeneizac¸a˜o, pelo Ocidente das diferentes culturas do mundo,
me parece pouco fundamentada. De volta de uma missa˜o cient´ıfica no Nor-
deste do Brasil, posso relatar o seguinte: uma populac¸a˜o constitu´ıda em sua
maioria de descendentes de europeus, e confrontada hoje a uma conjuntura
econoˆmica internacional que lhe e´ eminentemente desfavora´vel, soube criar
formas de sociabilidade plenamente originais, encontra´veis no menor com-
portamento da vida cotidiana, e que na˜o se deixam de forma alguma alterar
pelos modelos culturais vigentes em Paris, Londres ou Chicago. Sabemos
de fato que, quanto mais uma sociedade tende a uniformizar-se, mais tende
simultaneamente a diversificar-se. Assim, por exemplo, a hegemonia ariana,
que ia levar a` unificac¸a˜o da I´ndia, foi acompanhada correlativamente de uma
divisa˜o da sociedade em castas. Da mesma forma, foi a influeˆncia, que pare-
cia exclusivamente niveladora, da revoluc¸a˜o industrial do se´culo XVIII que
permtiiu a radicalizac¸a˜o dos diferentes estatutos entre os grupos (as classes
sociais). Mais uma vez, o Brasil contemporaˆneo me parece particularmente
revelador a esse respeito e nos leva ainda mais adiante. A cultura popular na˜o
so´ resiste notavelmente a` cultura dominante, como tambe´m, frequ¨entemente,
consegue se impor a esta, de uma maneira dificilmente imagina´vel no Oci-
dente. Aquilo que Bastide comec¸ava a notar, trinta anos atra´s, ao estudar os
cultos afro-brasileiros, acentuou-se e confirmou-se. Encontrei pessoalmente
membros das classes superiores da sociedade brasileira que, no decorrer das
cerimoˆnias de umbanda, sa˜o sucessivamente ”possu´ıdos”pelos esp´ıritos das
divindades dos ı´ndios e dos ancestrais africanos do tempo da escravida˜o. Ora,
esse fenoˆmeno pode ser melhor apreendido, na˜o nas regio˜es mais exteriores
em relac¸a˜o ao desenvolvimento econoˆmico do pa´ıs, como o Nordeste, mas no
Rio de Janeiro ou em Sa˜o Paulo, que e´ hoje uma das primeiras metro´poles
industriais do mundo.

Andre Sobrinho
Underline

19.2. A UNIDADE E A PLURALIDADE 155

2) A ide´ia de que o outro e´ radicalmente outro, de que, por exemplo, o
Novo Mundo e´ de fato um outro mundo, e de que na˜o se poderia preencher
(e, mesmo se fosse poss´ıvel, na˜o se deveria fazeˆ-lo) a diferenc¸a absoluta que
o separa de no´s, participa de um etnocentrismo invertido que na˜o deixa de
lembrar de Pauw ou Hegel. Para estes, como lembramos, as sociedades selva-
gens sa˜o totalmente diferentes das sociedades histo´ricas. E´ ”um outro mundo
cultural”, diz Hegel, que tambe´m fala em uma ”esseˆncia”dos africanos. O
fato de a alteridade ser aqui valorizada, por um agrada´vel movimento de
peˆndulo ao qual nos acostumou o pensamento para-antropolo´gico, na˜o afeta
em nada a natureza ideolo´gica do processo em questa˜o.

3) Essa celebrac¸a˜o da sabedoria e do conv´ıvio dos outros na˜o resiste a` ob-
servac¸a˜o dos fatos: decorre da construc¸a˜o de uma alteridade fantasma´tica
que se faz passar por realidade. O africano, o ı´ndio, o breta˜o. . . sa˜o mobi-
lizados mais uma vez como suportes do imagina´rio do ocidental culto, como
objeto-pretexto utilizado aqui com vistas ao protesto moral, como pode seˆ-lo
com vistas a` emoc¸a˜o este´tica ou a militaˆncia pol´ıtica. E correlativamente
dessa vez, atrave´s dessa deontologia do olhar para o outro – o qual acaba
inclusive perdendo-se, pois olha-se para si mesmo dentro do espelho do outro
–, aquele que esta´ submetido a um processo de dominac¸a˜o e humilhac¸a˜o na˜o
e´ mais o outro (sadismo), e sim si pro´prio e sua pro´pria sociedade (maso-
quismo). A excelente imagem que se deve ter dos outros acompanha-se de
fato da ma´ imagem que se tem de si (cf., por exemplo, Jean Monod, 1972,
que se acusa de ser um ”rico canibal”). Ou seja, ha´ uma recusa de assumir
sua pro´pria identidade, o que tem como corola´rio a culpa ou a difamac¸a˜o da
ocidentalidade.4Em suma, tudo se passa como se esse protesto indignado – o
fato de querer devolver sua dignidade aos outros – devesse passar inelutavel-
mente por um processo consistindo em acusar-se a si pro´prio de indignidade.

4) A ide´ia de que os que visam compreender racionalmente a alteridade es-
tariam se comportando praticamente como Corteˆs com os Astecas, enquanto
que, indo ate´ o fim da ruptura com o Ocidente, se poderia talvez chegar,
atrave´s de um conhecimento por assim dizer amoroso, a coincidir com a ver-
dadeira natureza do outro, enquandra-se mais em uma experieˆncia religiosa,

4. A descric¸a˜o, por Turnbull (1972), de selvagens que na˜o teˆm realmente nada de
”bons selvagens”, e o fato de que o etno´logo. como qualquer ser humano, possa sentir
o´dio em relac¸a˜o a estes, e escreveˆ-lo, causou escaˆndalo entre os etno´logos. Mas que estes
u´ltimos na˜o sejam ”nem santos, nem hero´is”, como diz Panoff (1977), ”na˜o impede que
os trobriandeses sejam matrilineares, nem que os Nuers levem uma vida ritmada p�las
necessidades pastorais e pelas condic¸o˜es meteorolo´gicas”.

156CAPI´TULO 19. AS TENSO˜ES CONSTITUTIVAS DA PRA´TICA ANTROPOLO´GICA:

que faria do etno´logo um iniciado ou um eleito, do que na cieˆncia. E ale´m
disso, tudo nos impele – na esteira dessa para-antropologia que identifica a
abordagem do pesquisador com o ponto de vista dos pro´prios atores, que
afirma que e´ preciso ser origina´rio de sua cultura para compreendeˆ-la real-
mente – a ficar em casa, a permanecer entre si. Apenas o ı´ndio (e, a rigor,
aquele que se tornar seu adepto) e´ capaz de compreender o ı´ndio. Apenas
o breta˜o e´ capaz de falar corretamente o breta˜o. Apenas o proleta´rio pode
saber o que e´ a classe opera´ria. Apenas a mulher esta´ em condic¸o˜es de com-
preender a mulher. Ja´ passamos por isso. Como voceˆ, que na˜o e´ me´dico,
se atreve a falar de medicina? Deixe a medicina aos me´dicos, a religia˜o aos
cleros, o proletariado aos proleta´rios, a Bretanha aos breto˜es. . .

Se levarmos ate´ suas extremas consequ¨eˆncias esse princ´ıpio de na˜o-distanciac¸a˜o
e na˜o-mediac¸a˜o, devemos nos tornar membro efetivo da sociedade que pre-
tend´ıamos estudar. Mas enta˜o, na˜o se trata mais de estuda´-la, e sim de
adota´-la, a` maneira desses aventureiros normandos, encontrados por Le´ry,
que haviam naufragado na costa meridional do Brasil e tinham-se tornado
selvagens no contato dessas populac¸o˜es, adotando sua l´ıngua, suas mulheres,
seus costumes. Por todas essas razo˜es, ao insistir tanto sobre o cara´ter irre-
dut´ıvel das diferenc¸as, essa tendeˆncia da etnologia exclui-se por si mesma, a
meu ver, de uma abordagem de pequisa cient´ıfica.

Acabamos de ver que a uma forma de universalidade que tende para a
reduc¸a˜o do outro ao ocidentalismo (o dogmatismo de uma natureza ou de uma
esseˆncia humana sempre ideˆntica a si mesma) responde uma forma de ma-
jorac¸a˜o da alteridade (o dogmatismo da relatividade de culturas heterogeˆneas
justapostas). Na˜o e´ fa´cil, evidentemente, segurar as duas extremidades da
cadeia, isto e´, o acesso a` compreensa˜o do outro por si e a` compreensa˜o de
si pelo outro. Se a identificac¸a˜o integral com este e´, a meu ver, um erro, a
antropologia nos engaja pore´m nessa aventura que nos ensina que na˜o se deve
identificar integralmente consigo mesmo. O outro e´ uma figura poss´ıvel de
mim, como eu dele. Esse descentramento mu´tuo do observador e do obser-
vado na˜o pode mais ser, no final dessa experieˆncia, o sujeito transcendental
do humanismo. Mas nem por isso as identidades de uns e outros esta˜o abo-
lidas, passam a ser